Bukele oficializa terceiro mandato e rede de aliados na América Latina aplaude

Bukele oficializa terceiro mandato e rede de aliados na América Latina aplaude

Nova presidente do Peru, presidente do Paraguai, governo Milei e candidatos brasileiros como Zema e Flávio Bolsonaro aplaudem regime denunciado por crimes contra humanidade

Relatório da ONU documenta tortura e desaparecimento forçado. Foto: Yuri Cortez / AFP
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San Salvador, El Salvador – Nayib Bukele não usa farda, não discursa da sacada de um palácio e não precisa de tanques na rua. Usa boné aba reta, posta vídeos no TikTok e se autodenomina “o ditador mais descolado do mundo”. Mas os métodos, estes sim, são tão velhos quanto as piores ditaduras que a América Latina já conheceu. E agora, sem qualquer máscara, ele caminha para consolidar de vez o poder absoluto — com uma carteira de apoiadores internacionais que cresce a cada eleição.

No último domingo (13), o partido governista Nuevas Ideas oficializou a candidatura de Bukele para um terceiro mandato consecutivo nas eleições de fevereiro de 2027. A movimentação era esperada: em 2024, aliados do presidente no Congresso já haviam reformado a Constituição para eliminar de vez o limite de mandatos. Hoje, Bukele controla a Assembleia Legislativa, a Suprema Corte, o Tribunal Supremo Eleitoral, as Forças Armadas e a Polícia Nacional Civil. Não há um único poder que lhe faça oposição.

O coro de aliados na América Latina

Trump reúne aliados na cúpula “Escudo das Américas”; Brasil, México e Colômbia ficam de fora. Foto: Reprodução

Longe de ser repudiado, o modelo de Bukele ganha adeptos e cúmplices entre governantes eleitos na região, que transformam a barbárie em plataforma política.

No Peru, a presidente eleita Keiko Fujimori — que assume em 28 de julho — foi cumprimentada publicamente por Bukele ainda durante a campanha. Fujimori, herdeira política do ex-ditador Alberto Fujimori e admiradora declarada do modelo salvadorenho, representa um país onde 51% dos eleitores disseram querer um presidente com perfil “estilo Bukele”, segundo pesquisas.

No Paraguai, o presidente Santiago Peña foi além das declarações. Ele afirmou publicamente que “o modelo de segurança de Bukele já funciona no Paraguai”, promoveu reuniões bilaterais e assinou acordos de cooperação entre os dois países na área de segurança.

Na Argentina, o governo de Javier Milei e sua ministra da Segurança, Patricia Bullrich, assinaram acordos de cooperação com o regime de Bukele e realizaram visitas oficiais à megaprisão CECOT para exaltar os métodos de exceção.

No Chile, o ultradireitista José Antonio Kast — que venceu a eleição presidencial chilena em 2026 — aponta Bukele como “uma inspiração” para o continente e foi recebido em San Salvador como chefe de Estado.

Nos Estados Unidos, parlamentares ligados ao trumpismo visitam San Salvador para dar palanque a Bukele e legitimar seu modelo.

O “bukelismo” no Brasil

No Brasil, o solo fértil foi encontrado no bolsonarismo e na chamada Bancada da Bala. O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se converteu numa espécie de relações-públicas do regime salvadorenho em território brasileiro, com visitas a El Salvador e elogios públicos ao modelo. O ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou em círculos políticos que precisaria de “50% do Senado e 50% da Câmara” para fazer no Brasil o que Bukele fez em El Salvador.

O pré-candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) defendeu abertamente o “encarceramento em massa” nos moldes salvadorenhos e citou El Salvador como exemplo. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também promete importar o modelo. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), já elogiou publicamente as políticas de segurança do ditador.

Dezenas de congressistas brasileiros usam a megaprisão CECOT como palanque para pressionar pelo fim de garantias constitucionais no Brasil.

O que eles aplaudem

O que essa rede internacional aplaude tem nome, números e relatórios.

Desde março de 2022, El Salvador vive sob um estado de exceção permanente. A medida constitucionalmente temporária foi renovada dezenas de vezes e se tornou a lei ordinária do país. Mais de 90 mil pessoas foram presas arbitrariamente. Basta uma denúncia anônima, morar num bairro pobre ou ser jovem para desaparecer no sistema penitenciário. Sem julgamento, sem defesa, sem contato com o exterior.

Em março de 2026, um relatório do Grupo Internacional de Peritos para a Investigação de Graves Violações de Direitos Humanos, apresentado à ONU, documentou:

  • Pelo menos 470 mortes sob custódia do Estado, com corpos entregues às famílias apresentando sinais claros de tortura, violência física extrema e desnutrição severa.
  • Tortura sistemática, violência sexual e desaparecimento forçado como prática de Estado.
  • Mais de 89 mil detenções arbitrárias, das quais o próprio Bukele admitiu publicamente que “pelo menos 8 mil eram inocentes”.

“Os casos documentados indicam a existência de uma política de ação policial e militar conhecida e promovida inclusive pelos mais altos escalões do governo de Bukele”, afirma o relatório.

A Anistia Internacional também denunciou centenas de mortes em prisões e o caráter sistemático da repressão.

Milhares de mães percorrem as prisões do país em uma peregrinação que ecoa os tempos mais sombrios das ditaduras do Cone Sul. Elas não sabem onde estão seus filhos, do que são acusados ou se continuam vivos.

Ao aplaudirem os resultados de Bukele, Fujimori, Peña, Milei, Kast, Bolsonaro, Zema, Tarcísio e dezenas de outros tornam-se cúmplices diretos da tortura, das prisões de inocentes e do esfacelamento da democracia. O “milagre da segurança” vendido nos palanques é, na verdade, um cemitério comemorado por quem nunca esteve numa fila de mães à procura de um filho desaparecido.

A história latino-americana já mostrou como o messianismo autoritário termina. Bukele não é um salvador. É a versão moderna e boné-aba-reta de um personagem que a região conhece bem. A diferença é que, desta vez, ele não está isolado. Tem uma rede continental de cúmplices disposta a chamar a barbárie de modelo.


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