Nova Lima, MG – A empresa mais antiga em operação contínua no Brasil nasceu em 1834, no auge do Império de Dom Pedro II, quando uma companhia inglesa chegou a Minas Gerais para extrair ouro das profundezas da serra. Quase dois séculos depois, ela decidiu fazer o oposto do que se espera de uma empresa bicentenária: reduziu a jornada, liberou home office, instalou wi-fi subterrâneo e passou a operar máquinas de 130 toneladas com joystick de videogame.
A AngloGold Ashanti, que mantém minas em Nova Lima, Cuiabá e Lamego, em Minas Gerais, é uma das maiores produtoras de ouro do mundo. Também é, segundo o CEO da operação latino-americana, Luiz Otávio de Lima, uma “startup de 192 anos”.
“Quando você pega uma empresa de mineração com 192 anos e pensa em uma escala 4×3 ou 4×4, isso é totalmente fora da caixa. Somos uma startup de 192 anos”, disse em entrevista ao podcast De Frente com CEO, da Exame.
Desde 2024, os funcionários do escritório corporativo trabalham de segunda a quinta. Nas minas, a tradicional escala 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) deu lugar ao sistema 4×4: quatro dias trabalhados, quatro de folga. A mudança, segundo a empresa, foi precedida de pesquisas internas e projetos-piloto.
Os resultados apareceram nos indicadores de segurança. Acidentes de alta frequência e baixa gravidade — torções, prensamentos de dedos, ocorrências ligadas ao cansaço — caíram.
“A pessoa que está saudável, física e mentalmente, consegue entregar muito mais”, afirma o CEO.
A transformação foi além da jornada. Na mina Cuiabá, considerada uma das mais tecnológicas do mundo, mais de 400 roteadores foram instalados ao longo dos túneis subterrâneos, garantindo cobertura de wi-fi em toda a operação. Um sistema de monitoramento acompanha em tempo real a localização de cada trabalhador. Em caso de emergência, a equipe de superfície sabe exatamente onde ele está.
Equipamentos que movimentam até 130 toneladas de minério por hora são operados da superfície por controladores com joysticks. O objetivo é tirar pessoas das áreas de maior risco. Sensores monitoram o ambiente e ligam ou desligam automaticamente os sistemas de ventilação conforme a presença de trabalhadores em cada setor. A economia de energia com essa tecnologia é estimada em 25%.
Para se ter ideia da escala da operação, os trabalhadores descem 900 metros de elevador e depois percorrem 25 minutos de carro por galerias subterrâneas até as frentes de lavra, que chegam a 1.600 metros de profundidade. Diariamente, cerca de mil pessoas trabalham na mina. É necessário desmontar aproximadamente uma tonelada de rocha para produzir apenas seis gramas de ouro.
A AngloGold Ashanti reúne cerca de 10 mil funcionários diretos e indiretos na América Latina e fechou 2025 com receita global de US$ 9,9 bilhões. A operação brasileira começou como Morro Velho, nome que carregou por décadas até ser incorporada pelo grupo anglo-sul-africano.
O CEO diz que a estratégia da empresa não depende da cotação do ouro, que costuma disparar em momentos de guerra e crise.
“A gente não pode depender do preço do ouro. Temos que depender da eficiência operacional, da disciplina de custos e da produtividade.”
A empresa que viu o Brasil passar de Império a República, sobreviveu a duas guerras mundiais, à hiperinflação e à pandemia tenta agora provar que dá para ser velha e moderna ao mesmo tempo. Trocar a escala 6×1 pelo 4×4, instalar wi-fi a 1.600 metros de profundidade e operar máquinas com joystick não é só inovação. É a constatação de que, para continuar viva por mais 192 anos, a empresa mais antiga do Brasil precisava aprender a pensar como se tivesse acabado de nascer.

















