Curitiba, PR – Uma decisão da Justiça Eleitoral colocou sob suspeita gastos milionários do setor industrial e abriu caminho para uma apuração que pode barrar a chapa que disputa o comando do Palácio Iguaçu. O Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) mandou a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) guardar e não descartar uma série de contratos, notas fiscais e registros contábeis. A ordem atende a uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) que apura suspeita de abuso de poder econômico praticado pelo candidato a governador Sergio Moro (PL) e seu vice, Edson José de Vasconcelos (PL). Caso as irregularidades sejam comprovadas no julgamento de mérito, os dois podem ter o registro de candidatura cassado e ficar inelegíveis por oito anos.
A ordem partiu do corregedor regional eleitoral, desembargador Fernando Prazeres. Ele determinou que a entidade patronal apresente, em até cinco dias, uma relação de todos os documentos preservados, sob pena de multa de R$ 30 mil. A mira do tribunal está sobre contratos do Sistema Fiep que somam perto de R$ 11,27 milhões, envolvendo gastos com montagem de palco, som, luz, hotelaria, alimentação e publicidade.
O foco da denúncia está nos Fóruns Regionais da Indústria realizados ao longo de 2025 em oito cidades paranaenses: Guarapuava, Pato Branco, Cambé, Cascavel, Maringá, Ponta Grossa, Irati e Curitiba. Na época, Edson Vasconcelos presidia a federação e Moro comparecia aos palanques como “convidado de honra”. A ação sustenta que a estrutura bancada pela indústria foi desvirtuada da pauta corporativa para dar palanque e projeção eleitoral antecipada à dupla.
Além dos fóruns, o processo apura as despesas da feira Expo+Indústria 2026 e de uma Assembleia Geral Extraordinária feita em 26 de agosto com a presença de 76 delegados. Nessa reunião, a entidade aprovou uma mudança no artigo 38 do seu estatuto social para derrubar a quarentena de cinco anos que impedia ex-dirigentes de voltarem a cargos de chefia. A manobra abriu caminho para que Vasconcelos — que deixou a presidência da federação em março para disputar as eleições — possa retomar o comando da Fiep de imediato, caso não seja eleito. O relator destacou que a checagem das contas vai esclarecer se houve “uso de recursos desproporcionais” na realização dessas atividades.
A ação judicial foi movida pelo candidato a governador Sandro Alex (PSD) e pela coligação A Mudança Continua. Ao analisar a liminar, o corregedor Fernando Prazeres destacou que “a responsabilização pelo abuso de poder econômico alcança tanto os candidatos beneficiados, sujeitos à cassação de registro ou de diploma e à declaração de inelegibilidade”.
O magistrado derrubou o segredo de justiça dos autos e mandou o caso para referendo do colegiado do TRE-PR, mas rejeitou pedidos imediatos da acusação, como a retirada de outdoors do Sistema Fiep próximos ao Aeroporto Afonso Pena e a proibição de que Moro e Vasconcelos participem de reuniões do setor. Para o juiz, esses pontos e a checagem aprofundada dos comprovantes devem ocorrer ao longo do processo, assegurando a defesa das partes.
Em nota oficial, a Fiep informou que mantém um acervo organizado com atas, editais, contratos e notas de empenho, e garantiu que apresentará tudo no momento oportuno para atestar a regularidade das contas e das decisões estatutárias.
Já a campanha de Sergio Moro declarou que o candidato ainda não foi formalmente notificado, mas afirmou que a presença do ex-juiz nos encontros ocorreu estritamente na condição de senador pelo Paraná, ao lado de dezenas de outros parlamentares, secretários e prefeitos de diferentes partidos. A defesa disse ainda que os eventos discutiam pautas como logística e energia, negou qualquer intenção eleitoral nas agendas e afirmou que o ajuizamento da ação não comprova irregularidades.



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