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Mais da metade das orquídeas pode estar ameaçada de extinção

Revisão global com pesquisador da UFPR aponta desmatamento, mudanças climáticas e coleta ilegal entre as principais ameaças

Fascínio pelas orquídeas remonta ao século 19 e já colocou inúmeras espécies em risco. Foto: Suki Lee/Pexels.

Curitiba, PR – Entre 55,6% e 69,2% das espécies de orquídeas podem estar sob risco de extinção, segundo uma revisão global publicada na revista Biodiversity and Conservation. O estudo, que reuniu dados disponíveis até março de 2025, aponta que a família Orchidaceae está entre os grupos de plantas mais ameaçados do mundo. Desmatamento, avanço da agricultura, queimadas, mudanças climáticas e exploração ilegal estão entre os principais fatores de pressão.

A pesquisa tem entre os coautores o professor Eric de Camargo Smidt, do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que também atua como Autoridade da Lista Vermelha para Orquídeas Sul-Americanas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Participaram ainda pesquisadores da Austrália, Camarões, Estados Unidos, França, Madagascar e Reino Unido.

O risco enfrentado pelas orquídeas também tem relação com uma história de exploração que começou muito antes das atuais preocupações ambientais. Durante a Era Vitoriana (1837-1901), a Grã-Bretanha viveu o chamado “orquidelírio”, período em que essas plantas passaram a ser associadas à distinção e à riqueza. Colecionadores financiavam expedições para retirar espécies dos trópicos e levá-las para a Europa.

Segundo Smidt, essa exploração histórica se soma ao comércio ilegal que continua existindo.

“O extrativismo predatório, aliado ao mercado ilegal que persiste até hoje, colocou a família Orchidaceae em maior risco de extinção do que outras plantas com flores”, diz o professor.

Diferenças entre o risco de extinção estimado pelas avaliações da Lista Vermelha e pelas previsões do estudo. Em vermelho, áreas onde a proporção de espécies ameaçadas indicada pela Lista Vermelha é muito menor que a estimada pelas previsões, devido à baixa cobertura de avaliações ou a um possível viés em favor de espécies de ampla distribuição. Em azul, áreas onde a proporção indicada pela Lista Vermelha é maior, provavelmente devido à avaliação direcionada de espécies ameaçadas. Em cinza, áreas onde as duas estimativas são aproximadamente iguais; em branco, áreas sem orquídeas nativas. Gráfico: Biodiversity and Conservation.

Uma família grande e ainda pouco conhecida

As orquídeas formam uma das maiores famílias de angiospermas, grupo de plantas que produz flores e mantém as sementes protegidas dentro de frutos. Cerca de 75% das espécies são epífitas, ou seja, vivem sobre outras plantas, principalmente árvores. As demais incluem espécies terrestres, que crescem no solo, e mico-heterotróficas, que dependem de fungos para obter nutrientes.

A relação com outros organismos e com condições específicas do ambiente pode aumentar a vulnerabilidade das espécies. Muitas têm distribuição geográfica restrita e crescimento lento, características que dificultam sua recuperação quando seus habitats são alterados.

O problema é agravado pela falta de informações. Das cerca de 30 mil espécies de orquídeas conhecidas, apenas aproximadamente 2 mil foram avaliadas pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, criada em 1964 e considerada a principal referência global sobre o risco de extinção de animais, fungos e plantas.

A revisão identificou ainda uma distribuição desigual das avaliações. As Américas Central e do Sul e a Ásia tropical estão entre as regiões com menor cobertura de dados. Em diferentes países sul-americanos, essa falta de informação pode fazer com que o risco real enfrentado pelas espécies seja subestimado.

Entre os motivos estão as dificuldades para chegar a ambientes onde muitas orquídeas vivem, além da falta de financiamento e do número reduzido de especialistas. Alguns países também utilizam sistemas próprios de avaliação e enfrentam dificuldades ou resistência para converter os dados para os padrões utilizados pela IUCN.

Desmatamento, queimadas e mudanças climáticas

A destruição dos habitats aparece entre as principais ameaças identificadas pelo estudo. O avanço agrícola e a exploração de recursos biológicos afetam diretamente as populações de orquídeas. Para as espécies epífitas, a conservação de árvores grandes e antigas é especialmente importante, já que elas oferecem condições de temperatura e umidade mais estáveis.

A retirada dessas árvores e a fragmentação das florestas podem levar ao colapso de populações inteiras. As queimadas representam outro risco, principalmente para as espécies terrestres.

As mudanças climáticas também podem interferir na reprodução das plantas. Alterações nas condições ambientais podem provocar um desencontro entre o período de floração das orquídeas e a atividade de seus polinizadores, comprometendo a reprodução.

Diante desse quadro, os pesquisadores defendem a ampliação dos levantamentos de campo e das avaliações regionais, além da inclusão das espécies brasileiras na Lista Vermelha. O estudo também aponta a necessidade de proteger fragmentos de mata madura e conservar os organismos dos quais as orquídeas dependem.

“Também são fundamentais a proteção rigorosa dos fragmentos de mata madura, com a preservação de árvores hospedeiras, fungos e polinizadores; e a criação de bancos que armazenem não apenas sementes, mas também fungos, garantindo a possibilidade de reintrodução futura na natureza”, afirma Smidt.

Apesar do elevado número estimado de espécies ameaçadas, os pesquisadores apontam que existem técnicas capazes de contribuir para a conservação. As orquídeas estão entre as plantas mais cultivadas por meio de cultura de tecidos. Cerca de 500 milhões de unidades são produzidas todos os anos nos dez principais gêneros comerciais.

Para os autores, o uso dessas técnicas precisa ser acompanhado por avaliações de risco mais amplas e atualizadas. Com informações mais completas, torna-se possível identificar quais espécies estão em maior risco e quais áreas precisam de ações de conservação.

Steve Rodríguez

*Steve Rodríguez é repórter do Fronteira Livre, pesquisador e doutorando pela UNILA com formação interdisciplinar em narrativa audiovisual, estudos culturais latino-americanos e práticas pedagógicas anticoloniais. Sua trajetória combina criação artística (teatro, cinema e cultura visual) com reflexão teórica, orientada pela perspectiva dos estudos visuais de Nicholas Mirzoeff.

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