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Estudo alerta para impacto do mercúrio do ouro na Amazônia

Pesquisadores alertam que o mercúrio usado na mineração chega aos rios, peixes, fauna e populações amazônicas

Comunidades amazônicas estão entre as populações expostas ao mercúrio da mineração. Foto: Alejandro Saldivar.

América do Sul – A expansão da mineração ilegal de ouro na Amazônia voltou a chamar atenção para os impactos ambientais e sanitários provocados pelo uso de mercúrio. Uma delegação científica formada por pesquisadores de quatro países amazônicos entregou ao papa Leão XIV documentos com dados sobre a destruição da floresta, a contaminação de rios e peixes e a exposição de comunidades ao metal tóxico.

Entre os dados apresentados está a perda de 139.169 hectares de floresta associada à extração de ouro no Peru até 2025, segundo o Centro de Inovação Científica Amazônica (CINCIA). O levantamento faz parte do relatório “Llamamiento a la Santa Sede por la protección de la Amazonía”, elaborado com a participação de pesquisadores da Colômbia, Bolívia, Peru e Brasil.

A delegação foi formada por Jesús Olivero-Verbel, da Universidade de Cartagena, na Colômbia; Claudia Vega, do CINCIA; e Luis Fernández, cofundador do CINCIA e pesquisador principal do Centro da Família Andrew Sabin para o Meio Ambiente e a Sustentabilidade da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos.

O documento aponta que, entre 2021 e 2024, o sul da Amazônia peruana perdeu 30.846 hectares de floresta. Em Loreto, região que faz fronteira com Equador, Colômbia e Brasil, foram contabilizadas mais de 1.500 dragas utilizadas na mineração ilegal desde 2017.

“É importante visibilizar a importância da Amazônia e seus povos, e como estão sendo impactados na extração ilegal do ouro que destrói a floresta, contamina o território e suas populações”, afirmou Claudia Vega.

Mercúrio chega aos rios, peixes e comunidades

O mercúrio (Hg) é um metal tóxico que pode estar presente no ar tanto por processos naturais quanto por atividades humanas. Ele pode aparecer na forma de mercúrio gasoso ou aderido a partículas suspensas, como poeira e fumaça, segundo relatório do CINCIA.

Para Luis Fernández, mais de uma década de pesquisas demonstra que o mercúrio utilizado na mineração de ouro não permanece restrito aos locais de extração.

“Mais de uma década de evidência mostra que o mercúrio associado à mineração de ouro na Amazônia peruana não fica na mina”, disse o pesquisador.

Segundo ele, o metal chega aos rios, aos peixes, à fauna e, posteriormente, às pessoas, incluindo comunidades indígenas que estão entre as mais vulneráveis da Amazônia.

Na região de Madre de Dios, a estimativa é de que cerca de 180 toneladas de mercúrio sejam liberadas todos os anos. Outra pesquisa, realizada em 2024 nas bacias dos rios Nanay-Pintuyacu e no Baixo Putumayo, em Loreto, avaliou 439 pessoas e encontrou níveis de exposição acima do limite considerado seguro em 97% dos casos.

O mercúrio em sua forma gasosa predomina no ar e pode permanecer na atmosfera durante vários meses. Nesse período, pode percorrer longas distâncias antes de se depositar sobre a vegetação, o solo ou os corpos d’água.

Pressão sobre a floresta e aumento da demanda por ouro

O relatório também relaciona a pressão sobre a Amazônia ao crescimento da demanda mundial pelo metal. Segundo dados do CINCIA, a demanda global de ouro, considerando também as operações de mercado de balcão, ultrapassou pela primeira vez 5.000 toneladas em 2025.

Os pesquisadores alertam que os efeitos da mineração não terminam quando o ouro é retirado. A destruição da floresta e a contaminação provocada pelo mercúrio podem deixar consequências ambientais e sanitárias durante anos nas regiões onde ocorreram as operações.

A delegação espera que a próxima visita de Leão XIV ao Peru, prevista para ocorrer de 11 a 16 de novembro e que inclui a cidade amazônica de Pucallpa, contribua para manter em evidência a situação da Amazônia e das populações afetadas pela mineração de ouro.

Para os pesquisadores, os dados reunidos no documento entregue à Santa Sé mostram que a atividade envolve não apenas a perda de cobertura florestal, mas também a contaminação de territórios e cadeias alimentares que sustentam comunidades locais e indígenas.

Steve Rodríguez

*Steve Rodríguez é repórter do Fronteira Livre, pesquisador e doutorando pela UNILA com formação interdisciplinar em narrativa audiovisual, estudos culturais latino-americanos e práticas pedagógicas anticoloniais. Sua trajetória combina criação artística (teatro, cinema e cultura visual) com reflexão teórica, orientada pela perspectiva dos estudos visuais de Nicholas Mirzoeff.

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