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Tesouraço de Flávio Bolsonaro prevê trocar servidores públicos por IA

Coordenadora de Flávio Bolsonaro classifica Estado como 'perdulário' e insiste em plano de trocar concursados por ferramentas digitais.

Rio de Janeiro, RJ – A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defende barrar novos concursos e trocar servidores públicos por IA à medida que os profissionais atuais se aposentam. A proposta foi apresentada pela coordenadora econômica Daniella Marques no podcast G4, em 30 de setembro, e voltou ao debate nesta segunda-feira (19) após forte reação de entidades sindicais.

A proposta ataca diretamente a garantia constitucional de ingresso por concurso público e abre caminho para o desmonte planejado de órgãos estatais. Ao transferir tarefas públicas para algoritmos privados sem reposição de mão de obra, a campanha bolsonarista busca reduzir o tamanho do Estado e desidratar a prestação de serviços básicos à população. No podcast, a economista deixou clara a intenção de não recompor quadros:

“E aí substitui e faz outro concurso para a gente pagar? Ou dá para ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”

O projeto de esvaziamento do setor público foi apresentado prioritariamente a setores do empresariado. Antes da entrevista, em 6 de agosto, Daniella já havia utilizado o programa Pânico, da Jovem Pan, para sugerir o corte de carreiras burocráticas nos próximos anos.

No fim daquele mês, discursou no 25º Fórum Empresarial do Grupo Lide, em que defendeu perante executivos o enxugamento de postos operacionais sob a justificativa de cortar gastos fiscais. A articulação gerou alerta entre entidades de classe. Em 9 de outubro, o Sindicato dos Servidores das Justiças Federais no Estado do Rio de Janeiro (Sisejufe) denunciou os impactos da substituição do trabalho humano pela automação irrestrita.

Pressionada pela repercussão negativa entre trabalhadores, Daniella tentou conter o desgaste nesta segunda-feira (19), novamente no Pânico, acusando opositores de distorção:

“Eles fazem vídeo me ridicularizando de que todas as carreiras, os servidores serão substituídos por inteligência artificial.”

Apesar da tentativa de recuo discursivo, a economista manteve o ataque frontal aos trabalhadores públicos, classificando a máquina estatal como onerosa e justificando a extinção de postos como forma de combater gastos:

“Quando é um inchaço, uma ineficiência, uma coisa perdulária, fica todo mundo ganhando mal.”

Em seguida, recorreu ao discurso liberal de corte de despesas para justificar a contenção de contratações:

“O imposto cada vez mais alto vai subindo imposto para pagar a conta.”

A proposta revela uma disputa de fundo sobre o papel do Estado brasileiro. Enquanto a automação é comumente debatida para dar agilidade aos fluxos de atendimento, o grupo ligado a Flávio Bolsonaro propõe a eliminação permanente de postos de trabalho.

A medida compromete o atendimento presencial de quem mais precisa de serviços públicos, precariza rotinas e não esclarece quem responderá judicialmente por decisões tomadas por softwares. A campanha bolsonarista não apresentou estudos de impacto, não detalhou quais carreiras pretende extinguir e não esclareceu como lidará com as barreiras constitucionais que protegem o funcionalismo.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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