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Prefeito bolsonarista banca Gusttavo Lima com verba da Saúde

MP diz que aliado do candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, usou verba da Saúde para pagar R$ 1,5 mi ao sertanejo.

Foto: Vittor Sales/Divulgação/Campanha Flávio Bolsonaro.

Marília, SP – Em uma cidade que não tem dinheiro garantido nem para pagar em dia o salário de quem trabalha no serviço público, a prioridade da prefeitura foi assinar contratos milionários para shows sertanejos. O Ministério Público de São Paulo entrou com uma ação na Justiça após flagrar o desvio de R$ 1,7 milhão que deveria atender postos de saúde e escolas municipais para bancar os cachês de Gusttavo Lima e da dupla Maiara e Maraisa.

O governo de Marília é chefiado por Vinicius Camarinha (PSDB), aliado de primeira hora do candidato da extrema direita à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), e líder da campanha bolsonarista na região. Foi sob a gestão dele que o dinheiro público escorreu para a primeira edição do AgroFood Show, festa realizada entre 17 e 19 de setembro no interior paulista, a cerca de 440 quilômetros de São Paulo.

O custo das contratações aos cofres do município passou de R$ 2,254 milhões. Só Gusttavo Lima embolsou sozinho R$ 1,5 milhão — o equivalente a dois terços de todo o gasto artístico da festa. A dupla Maiara e Maraisa recebeu outros R$ 754 mil.

A investigação do Ministério Público revelou a manobra por trás dos números. A prefeitura abriu um crédito suplementar de R$ 2.285.500 no orçamento, drenando verba carimbada de áreas sociais onde a população mais sofre com a falta de atendimento: R$ 1,53 milhão foi retirado da Saúde e R$ 170 mil saíram direto da Educação.

O impacto da medida salta aos olhos diante da situação real de Marília. A cidade acumula dívidas fiscais, atrasa os repasses obrigatórios da Previdência Social e corta despesas básicas do dia a dia, punindo diretamente os moradores que dependem de remédios, médicos e vagas em creches.

A promotoria tentou barrar os pagamentos antes do início dos shows, mas bateu na porta do Judiciário local. Três dias antes da abertura do evento, em 14 de agosto, o juiz Walmir Idalêncio dos Santos Cruz, da Vara da Fazenda Pública, negou o pedido de liminar que anularia as contratações.

Na própria decisão em que liberou os cachês, o magistrado reconheceu que a prefeitura não tinha recursos em caixa para honrar a folha de pagamento dos servidores nem para sustentar os serviços públicos essenciais da cidade. Ainda assim, o juiz decidiu que não cabia à Justiça mexer nas prioridades do prefeito e aceitou a manobra orçamentária sob a justificativa de que a lei municipal permitia remanejar o dinheiro.

Pressionada pela denúncia, a prefeitura de Marília negou qualquer irregularidade e tentou tratar a retirada de verbas sociais como rotina contábil:

“A medida incidiu exclusivamente sobre saldos não comprometidos do Tesouro Municipal, no âmbito da gestão orçamentária ordinária.”

A gestão de Camarinha ainda alegou que gastar milhões com sertanejos famosos ajudou o turismo e o agronegócio regional. Enquanto o processo principal segue tramitando na Justiça, a conta do evento milionário ficou para a população mais vulnerável, que viu o orçamento de hospitais e salas de aula virar palco para grandes artistas.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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