Curitiba, PR – O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), candidato à reeleição ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), declarou nesta terça-feira (20) que o bolsonarismo não integra o campo da direita tradicional, mas sim a extrema direita. A fala ocorreu em entrevista coletiva durante compromissos eleitorais na capital paranaense.
Para Alckmin, o critério central da disputa política brasileira não passa pela divisão partidária convencional, e sim pela postura em relação às instituições democráticas:
“O que diferencia mulheres e homens na vida pública é quem tem apreço pela democracia e quem não tem apreço pela democracia.”
Ao ser questionado se o bolsonarismo não seria a representação da direita no país, o vice-presidente rechaçou a classificação e elevou o tom sobre o risco institucional:
“Não. Representa a extrema-direita. Não é questão de direita ou esquerda. É apreço pela democracia ou a barbárie.”
Alckmin também rebateu posições públicas do candidato adversário Flávio Bolsonaro (PL) a respeito de mudanças no texto constitucional e na duração do mandato presidencial:
“Não é possível um candidato já dizer que vai rasgar a Constituição e querer prorrogar o seu próprio mandato. Onde é que já se viu isso? Eu acho que essa é a nossa lua. Na democracia, é o povo que manda. Você tem que estar sempre ouvindo e dialogando. E quem ouve mais erra menos.”
Sobre o ritmo eleitoral, o candidato afirmou que a campanha governista avança na mobilização popular e no ambiente digital, apontando a participação estudantil como motor para diminuir a abstenção:
“A campanha está crescendo nas ruas e crescendo nas redes. Cresce no Brasil inteiro. E quero destacar aqui a juventude, os estudantes, fazendo a diferença. E estamos nas redes, 24 horas, para aumentar a presença, diminuir a abstenção e conquistar votos. Não se obriga, se conquista conversando com os eleitores.”
Indagado sobre a convivência com governadores de oposição em caso de vitória da chapa de Lula, Alckmin assegurou que o Palácio do Planalto manterá o pacto federativo sem retaliações políticas:
“O presidente Lula é um democrata, tem espírito republicano. Quem foi eleito vai ser respeitado. O governo vai fazer o trabalho federativo, de parceria com municípios e com estados.”
A passagem por Curitiba incluiu reunião com empresários pela manhã e um ato político com sindicalistas, lideranças comunitárias e partidos da coligação. No encontro com o empresariado, Alckmin abordou a reforma tributária, o mercado de biocombustíveis e os efeitos de barreiras comerciais internacionais:
“Com os empresários, nós fizemos uma conversa agora cedo muito proveitosa. Falei da reforma tributária, falei de biocombustíveis. O Paraná é importante produtor de biodiesel. Falamos de etanol. Falamos de exportação. Brasil soberano 3, porque teve empresas que se prejudicaram com o tarifaço norte-americano. Falamos de abertura de novos mercados. O Brasil foi, no ano passado, o terceiro receptor de investimento externo direto: US$ 77 bilhões. Só perdemos para Estados Unidos e China. Temos uma avenida aí para crescer. E o Paraná tem agro forte, indústria forte, serviços fortes, exportação forte. Vamos trabalhar juntos.”
Análise Editorial: Dimensão Política e Social do Fato
A fala de Geraldo Alckmin em Curitiba ultrapassa o roteiro habitual de campanha e explicita a estratégia central da chapa Lula-Alckmin no segundo turno: desidratar a pretensão do bolsonarismo de se apresentar como uma força conservadora de centro-direita e empurrá-lo formalmente para a margem da extrema direita.
Ao colocar a disputa como um embate entre “democracia e barbárie”, Alckmin utiliza sua trajetória pessoal — de quadro histórico do conservadorismo paulista e da social-democracia tradicional — para traçar uma fronteira institucional inegociável. A mensagem visa diretamente os setores médios, empresariais e eleitores indecisos que rejeitam o Partido dos Trabalhadores, mas temem rupturas legais.
A escolha do território é estratégica. O Paraná é um polo histórico do lavajatismo e base eleitoral com forte presença conservadora, onde a rejeição ao governo federal é expressiva. Ao se reunir primeiramente com industriais e executivos para debater biocombustíveis, exportações e os US$ 77 bilhões em investimento estrangeiro direto, Alckmin tenta neutralizar o discurso ideológico por meio do pragmatismo econômico, demonstrando que a estabilidade das regras do jogo é precondição para os negócios.
Já o ataque direto às declarações de Flávio Bolsonaro sobre mandato e alterações constitucionais toca no nervo da disputa de poder: quem controla os limites da Carta Magna de 1988. Para os movimentos sociais e trabalhadores que Alckmin reuniu no mesmo dia, qualquer menção a “rasgar a Constituição” atinge garantias fundamentais de organização sindical, previdenciária e territorial conquistadas após a ditadura civil-militar.
Ao prometer respeito aos governadores de oposição eleitos, o vice-presidente tenta desarmar o palanque permanente nos estados e sinaliza que a institucionalidade não será sacrificada pela polarização, buscando reduzir a abstenção nas urnas e conter o projeto autoritário que ameaça as bases da federação.



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