Washington (Estados Unidos) — A Copa do Mundo de 2026 foi apresentada pela FIFA como uma celebração global da diversidade, da convivência entre povos e da capacidade do futebol de superar fronteiras políticas, culturais e religiosas. No entanto, antes mesmo de a competição consolidar seus primeiros dias de disputa, uma sequência de denúncias envolvendo discriminação, restrições migratórias e tratamento diferenciado a visitantes estrangeiros colocou em evidência uma contradição difícil de ignorar: enquanto o torneio se vende como símbolo de integração internacional, milhares de pessoas passaram a enfrentar barreiras impostas justamente pelo país que concentra a maior parte dos jogos da competição.
As denúncias atingem delegações, árbitros, jornalistas e torcedores, mas possuem um elemento comum. A maior parte dos episódios envolve cidadãos oriundos da África, do Oriente Médio e de países do chamado Sul Global, regiões frequentemente associadas, no discurso político norte-americano, a ameaças migratórias ou de segurança. Para organizações de direitos civis, o que vem ocorrendo não pode ser tratado como uma sucessão de incidentes isolados. Os casos revelam a presença de uma política migratória que continua operando mesmo diante de um evento que, em tese, deveria garantir igualdade de tratamento a todos os participantes.
A situação ganhou ainda mais repercussão após declarações do presidente Donald Trump. Ao comentar a realização da Copa, o mandatário afirmou que os Estados Unidos estão trabalhando para garantir a entrada das “pessoas certas” no país. A frase, aparentemente simples, foi interpretada por críticos como um sinal de que os critérios políticos e ideológicos que marcaram sua política migratória continuam orientando a relação do governo norte-americano com visitantes estrangeiros.
O árbitro que ficou de fora

O episódio que mais provocou indignação internacional envolve o árbitro somali Omar Artan. Reconhecido pela Confederação Africana de Futebol como o melhor árbitro do continente em 2025 e escalado pela própria FIFA para atuar no Mundial, Artan teve sua entrada negada pelas autoridades norte-americanas apesar de possuir documentação válida e estar oficialmente vinculado à competição. O Departamento de Estado alegou suspeitas de ligação com organizações terroristas, mas nenhuma acusação formal foi apresentada publicamente.
O caso extrapolou o universo esportivo. Na Somália, o árbitro foi recebido como símbolo de dignidade nacional e de resistência diante do que muitos interpretaram como uma demonstração de preconceito institucional. A repercussão foi imediata porque a exclusão não atingiu um torcedor anônimo ou um visitante ocasional. Tratava-se de um profissional selecionado pela própria FIFA para integrar a organização da Copa do Mundo. A pergunta que passou a circular em diferentes países foi inevitável: se nem mesmo um árbitro oficial consegue atravessar a fronteira sem ser transformado em suspeito, que garantias existem para os demais participantes?
Delegações tratadas como suspeitas

As denúncias não terminaram ali. Integrantes das seleções de Senegal e Uzbequistão relataram abordagens consideradas excessivas durante sua chegada aos Estados Unidos. Imagens divulgadas nas redes sociais mostraram atletas sendo submetidos a inspeções com detectores de metal e cães farejadores ainda nas áreas de desembarque. Embora as autoridades norte-americanas justifiquem os procedimentos como medidas de segurança, críticos apontam que a recorrência desses episódios envolvendo delegações africanas e asiáticas evidencia um padrão difícil de ignorar.
Outro caso que gerou repercussão foi o do atacante iraquiano Aymen Hussein, principal nome da seleção de seu país e responsável pela classificação da equipe ao Mundial. O jogador permaneceu cerca de sete horas sob interrogatório em um aeroporto norte-americano antes de receber autorização para ingressar no país. Nenhuma acusação foi formalizada. Ainda assim, o episódio reforçou a percepção de que determinadas nacionalidades enfrentam obstáculos que vão muito além dos controles migratórios convencionais.
Irã denuncia restrições

A Federação de Futebol do Irã também denunciou medidas que considera discriminatórias. Dirigentes iranianos protestaram contra a retirada da cota de ingressos destinada aos torcedores da seleção, argumentando que a decisão contraria normas da FIFA para a distribuição de entradas entre os países participantes. Em um contexto marcado por décadas de tensões diplomáticas entre Washington e Teerã, a medida foi interpretada por observadores internacionais como mais um exemplo de como disputas geopolíticas podem interferir diretamente na experiência de atletas e torcedores durante a Copa.
Jornalistas relatam constrangimentos

Nem mesmo profissionais de imprensa escaparam dos relatos de constrangimento. A jornalista brasileira Karine Alves afirmou ter sido submetida a uma abordagem que classificou como discriminatória ao chegar aos Estados Unidos para cobrir o torneio. O episódio alimentou questionamentos sobre os limites entre procedimentos de segurança e práticas marcadas por estereótipos relacionados à origem, aparência ou nacionalidade dos visitantes.
Enquanto as denúncias se acumulam, a postura da FIFA também passou a ser alvo de críticas. A entidade construiu sua imagem institucional em torno de discursos sobre inclusão, combate ao racismo e promoção da convivência entre os povos. No entanto, diante dos episódios registrados nos primeiros dias da competição, a organização tem evitado confrontar diretamente as medidas adotadas pelas autoridades norte-americanas. O silêncio torna-se ainda mais significativo quando se observa que uma das vítimas das restrições foi justamente um árbitro oficialmente escolhido pela própria FIFA.
A controvérsia revela uma tensão que ultrapassa o futebol. A Copa do Mundo movimenta bilhões de dólares, mobiliza governos e atrai milhões de pessoas de diferentes continentes. Ao sediar um evento dessa dimensão, os países assumem não apenas responsabilidades logísticas, mas também compromissos relacionados ao tratamento dispensado aos participantes. Quando delegações são tratadas como suspeitas, quando torcedores enfrentam restrições seletivas ou quando profissionais credenciados são impedidos de exercer suas funções, o problema deixa de ser apenas esportivo e passa a envolver direitos civis, relações internacionais e respeito às normas que sustentam o próprio caráter universal da competição.
O futebol sempre foi apresentado como uma linguagem capaz de unir povos separados por fronteiras, religiões e conflitos políticos. Entretanto, os acontecimentos registrados nos Estados Unidos mostram que, para milhões de pessoas vindas da África, do Oriente Médio e de outras regiões historicamente marginalizadas no cenário internacional, a fronteira continua sendo um obstáculo tão presente quanto qualquer adversário encontrado dentro de campo. A Copa começou. Mas, para muitos participantes, a disputa mais difícil não aconteceu no gramado. Aconteceu diante dos agentes migratórios de um país que se apresenta como anfitrião do mundo enquanto decide, unilateralmente, quem considera digno de atravessar suas fronteiras.


















