TEGUCIGALPA, Honduras — A crise de feminicídio na América Central expõe números alarmantes de impunidade e falhas estruturais no sistema de Justiça de Honduras. Entre janeiro de 2002 e julho de 2026, mais de 8.540 mulheres foram assassinadas no país, com um índice de apuração que deixa mais de 95% dos casos sem qualquer resolução oficial. A gravidade da situação se mantém no cotidiano da população em 2026, período em que mais de 150 mortes violentas de mulheres já foram contabilizadas.
O avanço do feminicídio na América Central e a impunidade
O abismo entre a legislação e a aplicação prática da lei evidencia a fragilidade da proteção estatal. Embora a lei que criminaliza o feminicídio tenha completado 12 anos em Honduras, o Poder Judiciário soma apenas 46 condenações no período — o equivalente a 1,6% das 2.908 mortes registradas entre 2013 e 2025. A defensora dos direitos das mulheres Honorina Rodríguez ressalta que os dados escancaram um problema histórico. “A cifra reflete a persistência de um problema estrutural que afeta milhares de famílias no país”, pontuou Rodríguez, que defende a urgência em fortalecer mecanismos de prevenção e apuração criminal.
No mesmo tom, a coordenadora da Defensoria da Mulher do Comissariado Nacional de Direitos Humanos (CONADEH), Joselyn Padilla, cobra maior rigor governamental nas investigações. “Toda morte violenta de uma mulher deve ser investigada com a devida diligência, objetividade e imparcialidade, para esclarecer a natureza dos fatos e garantir o direito à verdade, à justiça e à reparação, em estrita conformidade com os padrões internacionais de direitos humanos”, declarou Padilla.
Por sua vez, a ativista Johany García aponta que a falta de responsabilização serve como incentivo para a continuidade dos crimes de gênero no país. “Por isso, continuam matando mulheres. Os responsáveis seguem cometendo esses crimes porque não existe uma Justiça capaz de condená-los e puni-los. A impunidade é o principal obstáculo para frear a violência contra as mulheres”, afirmou a defensora de direitos humanos.
Além da morosidade judicial — em que 54% dos 172 processos abertos até o fim de 2025 continuam sem decisão —, analistas e plataformas locais denunciam a tentativa de desviar o foco da responsabilidade do Estado. Levantamento da plataforma Contracorrientes indica que o discurso oficial costuma associar as vítimas ao crime organizado ou ao narcotráfico para enfraquecer o debate sobre feminicídio.
Contudo, levantamentos do Observatório da Violência da Universidade Nacional Autônoma de Honduras (OV-UNAH) rebatem essa versão: dos 61 feminicídios atribuídos a facções criminosas em 2024, somente 18 vítimas possuíam vínculo comprovado com atos ilícitos. O diagnóstico demonstra que corpos femininos são instrumentalizados por grupos armados, enquanto discursos públicos ignoram falhas graves na prevenção e no acolhimento de famílias impactadas.
A resistência em enquadrar homicídios sob a ótica de gênero ganha contornos práticos em casos como o de Keyla Martínez Rodríguez, jovem de 26 anos morta dentro de uma delegacia em 2021. Mesmo após denúncia inicial por feminicídio qualificado contra agentes públicos, o tribunal reduziu a acusação para homicídio culposo ao condenar o policial Jarol Rolando Perdomo Sarmiento. Com a mudança de tipificação, a pena estabelecida ficou entre três e seis anos de prisão, permitindo a liberação do acusado e retirando do processo a aplicação da violência de gênero.



















