Flórida, Estados Unidos – Dois imigrantes deportados após viverem décadas nos Estados Unidos relataram episódios de isolamento forçado em celas minúsculas, falta de comida e agressões físicas no centro de detenção conhecido como Alligator Alcatraz, no estado da Flórida. Os relatos de Reinaldo López e Raúl Suárez foram concedidos à emissora Noticias Telemundo a partir de um abrigo em Sonora, no México, onde ambos vivem atualmente com vistos humanitários.
As denúncias coincidem com um relatório recente do inspetor-geral do Departamento de Segurança Interna (DHS), órgão de supervisão interna do governo federal americano. Pela primeira vez, uma apuração oficial confirmou que o centro usou pequenas jaulas metálicas, apelidadas de the box (a caixa), para confinar migrantes.
A fiscalização constatou que as estruturas externas mediam cerca de 16 pés quadrados (1,5 metro quadrado) e as internas, 18 pés quadrados (1,6 metro quadrado). As dimensões representam menos da metade do padrão mínimo de 37 pés quadrados exigido pelas normas do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) para uma cela individual. O relatório registrou que ao menos 79 pessoas foram colocadas nessas jaulas entre julho de 2025 e janeiro de 2026.
A administração do local alegou aos inspetores que usava os cubículos para que os internos pudessem “se acalmar” sozinhos, com permanência máxima estipulada em duas horas e saída voluntária. A fiscalização governamental, no entanto, considerou o método “muito pouco convencional” e fora dos padrões de tratamento humano. Uma apuração da Anistia Internacional já havia denunciado em 2025 que o espaço servia como castigo disciplinar, o que motivou uma investigação no Congresso americano.
O relato de Suárez contesta diretamente a tese de isolamento voluntário ou temporário. Ele afirmou ter ficado preso na caixa por mais de 15 horas contínuas, sob ameaça de insetos e animais peçonhentos.
“Isso é horrível. Eu estive ali. Não conseguia nem me deitar no chão, não cabia lá dentro. Você pode ficar em pé, mas não pode se deitar”, contou Suárez. Ele explicou que o castigo aconteceu após rezar em voz alta por um colega que teve uma crise convulsiva durante uma revista de rotina.
“Um rapaz, pouco depois de nos manterem amarrados contra o chão em um banco para nos revistar, teve um ataque epiléptico. Todo mundo começou a gritar e eu fiquei ali olhando. Então, o que fiz foi começar a rezar”, relatou. Logo após o socorro médico chegar, agentes federais perguntaram sua nacionalidade. “Eu disse a eles: ‘Cuba’. E quando disse isso, eles me levantaram e me arrastaram até aquela celinha.”
Suárez disse que foi jogado com violência para dentro da estrutura. “Eles me levaram para lá amarrado. Tiraram as correntes e me jogaram para dentro, me empurraram contra a cerca e eu caí no chão. Não foi porque eu quis ir. Aquilo estava trancado com chave e tudo”, afirmou. Confinado por volta das 13h, ele só foi liberado perto das 5h da manhã seguinte, sem acesso a água ou refeições. “Havia muitos mosquitos. Você tinha que tomar cuidado porque havia cobras andando pelo chão e você não conseguia vê-las.”
López, que ficou detido no complexo durante três meses, descreveu os pavilhões comuns como galpões improvisados e superlotados. “Essas celas, na realidade, uma pessoa nunca deveria ter ficado ali. São como uma tela de galinheiro”, declarou. Segundo ele, divisórias de arame recebiam lonas para bloquear o sol, mas a água da chuva invadia a área coletiva, onde conviviam cerca de 72 pessoas por setor. “O que foi vivido ali dentro foi um inferno.”
Os dois homens apontaram privações básicas no cotidiano da prisão, como ausência de banho de sol, falta de bibliotecas jurídicas e bloqueio de contato com advogados e parentes. Ambos também criticaram a alimentação servida nas primeiras semanas. Os guardas davam cerca de quatro minutos para que os detidos comessem; quem não terminasse a bandeja tinha o prato arrancado e jogado no lixo, sendo proibido de guardar frutas para a noite.
A detenção e a expulsão sumária interromperam vidas estruturadas há décadas nos Estados Unidos. López morou no país por 36 anos e acabou preso em um posto de controle migratório ao comparecer para assinar um termo regular. Suárez viveu no país por 47 anos, tendo chegado aos 11 anos de idade após a morte dos pais.
Hoje, os dois enfrentam problemas graves de saúde em território mexicano. López sofre de doença renal crônica e faz acompanhamento psiquiátrico pelos traumas do confinamento. Suárez aguarda uma cirurgia para tratar uma hérnia. Ambos estão há seis meses no abrigo de Sonora à espera de uma definição sobre o pedido de residência permanente no México.



Deixe um comentário