LONDRES, INGLATERRA — Uma controvérsia sobre interferência política na cultura tomou conta do Parlamento do Reino Unido após a revelação de que o Museu Britânico apagou termos sobre a história palestina de suas exposições. Parlamentares britânicos exigem uma investigação no Museu Britânico sobre a decisão da diretoria da instituição de remover expressões como “Palestina”, “palestino” e “ocupação israelita” das galerias dedicadas à antiga Ásia Ocidental, levantando discussões sobre até que ponto pressões externas afetam acervos públicos de alcance global.
A apuração veio à tona depois que o portal Middle East Eye (MEE) obteve e-mails internos por meio da lei de acesso à informação. Os documentos comprovaram que o museu alterou mapas e placas informativas poucas horas após receber queixas de grupos pró-Israel, entre eles o UK Lawyers for Israel e o Board of Deputies. Em um dos episódios registrados, a palavra “ocupação israelita” em uma vitrine sobre os fenícios foi retirada menos de cinco horas após a notificação do grupo, sob a justificativa da entidade de que o termo poderia incitar ataques contra judeus na atualidade. Além disso, o museu substituiu expressões consolidadas, como “governantes de descendência palestina”, pela fórmula “governantes de origem cananeia”.
Pressão partidária motiva investigação no Museu Britânico
A reação política no Reino Unido reuniu deputados de diferentes legendas em defesa do patrimônio histórico. O parlamentar trabalhista Richard Burgon enfatizou que a direção da instituição precisa dar explicações urgentes sobre o que classificou como uma retirada inaceitável de referências históricas. Na mesma linha, a deputada Sian Berry, do Partido Verde, alertou que ceder a pressões partidárias compromete a credibilidade do museu perante o público internacional. Já o deputado Jeremy Corbyn foi taxativo ao apontar racismo antipalestino na conduta, afirmando que a tentativa de apagar a existência do povo palestino da história fortalece a ocupação ilegal praticada por Israel.
Diplomatas e organizações civis também se manifestaram de forma contundente. O embaixador palestino no Reino Unido, Husam Zomlot, declarou que o museu traiu seu compromisso com a verdade ao permitir que a instituição fosse aparelhada para fins políticos, adiantando que atuará para restaurar os textos originais. O coletivo Energy Embargo for Palestine afirmou que o caso desmistifica a falsa neutralidade da instituição, enquanto a organização Culture Unstained cobrou apuração oficial por potencial violação do Código de Ética da Associação de Museus, o qual proíbe qualquer interferência externa nas decisões curatoriais.
Contradições na versão da diretoria
Em sua defesa, o diretor do Museu Britânico, Nicholas Cullinan, alegou que as mudanças ocorreram de forma planejada durante o processo de renovação das galerias, fruto de reflexão e testes com o público visitante. Segundo a versão oficial, o termo “Palestina” teria deixado de ser percebido de forma neutra, passando a ser interpretado como referência a um território político atual.
No entanto, a própria resposta enviada pelo museu ao pedido de informação confirmou que nenhum teste com visitantes foi realizado para avaliar o uso desse termo específico, desmentindo a justificativa do conselho diretor. A gestão de Cullinan, iniciada em 2024, já acumulava atritos anteriores, incluindo protestos causados pela realização de um evento em parceria com a Embaixada de Israel para celebrar o Dia da Independência israelense e o adiamento de conferências acadêmicas por temor de manifestações. O caso segue sob análise das comissões parlamentares britânicas.



















