LA PAZ, Bolívia — A utilização dos aparelhos de segurança e do sistema judiciário boliviano para intimidar familiares e lideranças comunitárias expõe contornos de perseguição política na Bolívia, atingindo de forma contundente mulheres, mães e trabalhadoras de setores populares. O cenário ganhou repercussão com a apresentação dos antecedentes da imputação fiscal WDML-I N.º 39/2026, caso que envolve a prisão e a manutenção de medida cautelar contra Shirley Prieto, esposa de um integrante do Comitê de Coordenação de Bloqueios do Distrito 8 da cidade de El Alto.
A ordem de detenção cautelar contra Shirley ocorreu após uma operação policial e ministerial realizada em 26 de junho de 2026. Mãe de três filhos — entre eles um bebê em fase de amamentação —, ela trabalha dentro e fora do lar para garantir o sustento familiar e cumpre atualmente prisão domiciliar. Conforme as informações registradas na audiência de medidas cautelares, Shirley foi atraída ao local da busca sob falso pretexto de urgência, sem a notificação de que agentes policiais ocupavam o imóvel para localizar seu marido. No local, sob coerção, foi induzida a realizar uma chamada telefônica para obter a localização do esposo, ato utilizado posteriormente pelo Ministério Público como base técnica para a imputação penal.
A defesa apontou vícios no procedimento e cerceamento de defesa durante a sessão de custódia. Com base nas alterações do artigo 314 do Código de Processo Penal trazidas pela Lei 1173, o juiz do caso indeferiu a manifestação direta de Shirley no ato processual e impediu a conexão de seus familiares à conferência virtual, cabendo à polícia da carceragem o acesso ao sistema da audiência pública.
Casos revelam perseguição política na Bolívia
A prática processual direcionada a parentes de militantes repete a dinâmica aplicada contra a família de David Mamani, dirigente da federação camponesa Tupac Katari. Durante operação de busca realizada no domicílio do líder comunitário — mantido na clandestinidade até sua prisão em 17 de julho de 2026 —, policiais prenderam sua esposa para o cumprimento de diligências investigativas na ausência do investigado principal. O advogado da liderança classificou a medida como um excesso processual e uma afronta às garantias constitucionais do devido processo legal.
A atuação de órgãos repressivos e da Justiça estendeu-se a outros moradores de El Alto envolvidos no contexto de mobilização do primeiro semestre de 2026. A comerciante Maruja Chipana, mãe de nove filhos, foi formalmente acusada de participação no incêndio do prédio de uma subprefeitura local, ao lado de um filho menor de idade e de outro dependente com deficiência [FONTE A CONFIRMAR]. Em outro episódio registrado na região, Renzo Mamani acabou detido por agentes estatais sob a justificativa de apresentar perfil e aparência compatíveis com a linha de busca da polícia.
Impactos da perseguição política na Bolívia
A aplicação de medidas restritivas e o uso de mandados de busca contra laços familiares ocorrem após os protestos populares de maio e junho de 2026, deflagrados em reação ao pacote de ajustes econômicos promovido pelo governo central. A imposição de restrições operacionais nas ruas, bairros periféricos e áreas rurais como o Chapare intensificou-se após o desmantelamento das paralisações e a perda de unidade na liderança da Central Operária Boliviana (COB). O avanço das apurações judiciais sobre trabalhadoras precarizadas e mulheres de origem indígena evidencia um padrão punitivo baseado em assimetrias sociais, de gênero e de classe no sistema de Justiça do país.


















