WASHINGTON, EUA — O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) confirmou, nesta sexta-feira, que os Estados Unidos atingiram a marca de 2.318 casos confirmados de sarampo no ano, consolidando o maior surto de sarampo em 35 anos. O volume supera o acumulado de 2.289 registros contabilizados ao longo de 2025 e reacende o alerta sobre o risco de colapso nos indicadores de imunização infantil. Do total notificado, 2.302 infecções foram diagnosticadas em 45 jurisdições americanas, enquanto 16 ocorrências foram identificadas em visitantes internacionais. A disparada da enfermidade ocorre em meio à diretriz da administração de Donald Trump na área sanitária, sob o comando do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., figura associada historicamente ao questionamento da eficácia e da segurança das doses de imunizantes.
Contágio em alta e retórica no maior surto de sarampo em 35 anos
O sarampo é uma doença de transmissão viral altamente contagiosa, caracterizada por quadros de febre alta e erupções cutâneas graves, cuja prevenção depende da aplicação de duas doses da vacina tríplice viral (MMR). A escalada nos contágios ocorre em paralelo ao discurso do titular da pasta de Saúde, que reiteradamente difunde teses que associam a vacina ao desenvolvimento de autismo, teoria rebatida de forma ampla e consensual pela comunidade científica internacional.
A propagação da desinformação com suporte de instâncias públicas tem gerado reações duras de acadêmicos e entidades médicas. “Alcançar esse marco é particularmente impressionante porque ainda estamos em julho, e casos de sarampo continuam sendo registrados em todo o país, com surtos na Virgínia e na Pensilvânia”, alertou William Moss, professor de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg.
O epidemiologista destacou ainda que o panorama atual reflete a herança de focos graves deflagrados no início do ano. “Esse número é consequência dos surtos ocorridos no início do ano, especialmente na Carolina do Sul e em Utah”, acrescentou Moss ao Washington Post. O evento na Carolina do Sul, iniciado em outubro de 2025, estendeu-se por seis meses e infectou cerca de 1.000 pessoas, tornando-se o maior foco localizado registrado no território norte-americano desde que a enfermidade havia sido considerada erradicada no ano 2000.
Erosão da cobertura vacinal e avanço de fake news
Até o momento, o CDC contabilizou 35 surtos em 2026, contra 48 surtos mapeados em todo o ano passado. Diante do quadro crítico, a Academia Americana de Pediatria aponta falhas e omissões na condução das políticas de proteção coletiva. “Desde o início do ano passado, as autoridades federais têm minimizado o sarampo, considerando-o benigno e inevitável, e divulgam informações enganosas sobre a vacina tríplice viral”, afirmou o presidente da entidade, Andrew Racine, ao rebatê-los por se oporem à obrigatoriedade da imunização estatal. “Na metade de 2026, os EUA estão passando pelo pior ano em relação ao sarampo desde 1991. Estamos testemunhando uma crise evitável que afeta desproporcionalmente as crianças”, arrematou Racine.
Diante do avanço descontrolado da circulação viral, o status de eliminação do sarampo nos EUA está sob reavaliação oficial, embora a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) tenha adiado uma definição conclusiva sobre o tema para o mês de novembro.
O fenômeno da hesitação vacinal tem raízes históricas no meio digital. Conforme explica a médica Anne Sénéquier, codiretora do Observatório da Saúde Global do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), a desconfiança popular ganhou força a partir de um artigo fraudulento veiculado em 2000. “A difusão foi facilitada pela popularização da internet”, explicou Sénéquier, lembrando que a publicação original do The Lancet foi retratada e banida por adulteração de dados e inconsistências metodológicas.
Apesar da desqualificação acadêmica da tese, falsas narrativas continuaram a circular ativamente por meio de influenciadores e grupos contrários à vacinação. Dentre as lideranças desse movimento, destaca-se o próprio secretário Robert F. Kennedy Jr., criador da organização Children’s Health Defense em 2011, entidade apontada por levantamentos setoriais como origem de 54% de todo o conteúdo antivacina veiculado na rede social Facebook durante o ano de 2020.



















