Brasília/DF – A crise diplomática e comercial provocada pela decisão do governo de Donald Trump de impor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros rapidamente ultrapassou o campo da política externa e passou a ocupar espaço no debate sobre a eleição presidencial de 2026. Pesquisa Genial/Quaest mostra que 51% dos brasileiros concordam com a avaliação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem responsabilidade política pelo episódio, enquanto 30% concordam com a versão apresentada pelo parlamentar. A coleta de dados foi realizada entre 10 e 13 de julho, antes da confirmação oficial das tarifas pela Casa Branca.
A pesquisa também indica reflexos do episódio sobre o ambiente eleitoral. Segundo o levantamento, 42% dos entrevistados afirmam que o tarifaço aumenta a disposição de votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto 27% dizem o mesmo em relação a Flávio Bolsonaro.
Os dados sugerem que a controvérsia deixou de ser apenas um tema de política externa e passou a integrar o debate político sobre soberania, relações internacionais e disputa eleitoral. Outra rodada da própria Genial/Quaest também aponta ampliação da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro em cenários simulados de segundo turno.
Após o anúncio das sanções, o governo federal intensificou o discurso em defesa da soberania brasileira. Ministros passaram a afirmar que integrantes do bolsonarismo buscaram apoio externo para pressionar instituições brasileiras, classificando essa atuação como contrária aos interesses nacionais.
Por outro lado, aliados de Flávio Bolsonaro sustentam que o governo Lula agravou o relacionamento com Washington por razões ideológicas e falhou na condução diplomática da crise. O episódio passou a concentrar interpretações distintas sobre a condução da política externa e a defesa dos interesses nacionais.
A pesquisa também investigou a percepção da população sobre a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. A maioria dos entrevistados (57%) declarou desconhecer a agenda do senador em Washington.
Entre aqueles que afirmaram acompanhar a viagem, 58% disseram não acreditar que Flávio Bolsonaro tenha influência suficiente para convencer o governo norte-americano a rever as tarifas, enquanto 34% consideram essa possibilidade. Os resultados indicam que, entre os entrevistados que conheciam a agenda da viagem, prevalece a percepção de baixa capacidade de influência sobre a decisão da Casa Branca.
Repercussão entre eleitores
O levantamento também identificou mudanças na percepção de parte do eleitorado de direita. Entre eleitores bolsonaristas, houve redução do apoio à narrativa apresentada por Flávio Bolsonaro, com a concordância passando de 75% para 67%, variação superior à margem de erro estimada para esse segmento.
Entre eleitores independentes e da direita não bolsonarista, também foi registrado aumento da concordância com a interpretação defendida pelo presidente Lula, embora parte das oscilações permaneça dentro da margem de erro.
Além da discussão sobre responsabilidades políticas, a pesquisa revela preocupação com os efeitos econômicos das tarifas.
Segundo o levantamento, 63% dos brasileiros acreditam que as medidas adotadas pelos Estados Unidos podem prejudicar a própria vida ou a de suas famílias. No levantamento anterior, esse percentual era oito pontos menor. Outros 31% afirmam não esperar impactos pessoais. Os dados indicam que o tema passou a ser associado a possíveis consequências sobre preços, emprego, renda e atividade econômica.
O tarifaço também teve ampla repercussão nas redes sociais. Perfis alinhados ao governo passaram a utilizar expressões como “Tariflávio” para associar o senador às sanções impostas pelos Estados Unidos.
Já apoiadores de Flávio Bolsonaro reforçaram o argumento de que o governo Lula deteriorou a relação bilateral com Washington e falhou na negociação diplomática. As manifestações refletem a polarização em torno do episódio, que passou a ser interpretado de maneiras distintas por diferentes grupos políticos.
Os resultados da Genial/Quaest indicam que o tarifaço dos Estados Unidos produziu efeitos que vão além da política comercial. A medida passou a influenciar percepções sobre responsabilidade política, condução da política externa e disputa eleitoral. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a principal preocupação dos entrevistados permanece relacionada aos possíveis impactos econômicos das tarifas sobre o cotidiano da população.




















