RIO DE Janeiro/BR — O direito ao descanso e a sobrecarga enfrentada por milhares de trabalhadoras brasileiras são o eixo de um curta-metragem independente produzido praticamente sem recursos. Financiada com a venda de brigadeiros e realizada sem verba governamental ou patrocínio, a obra transforma experiências pessoais em uma reflexão sobre maternidade solo, jornadas abusivas e dignidade no trabalho.
Com apenas R$ 250 arrecadados pela equipe da Jota Jota Produções, as gravações precisaram ser realizadas em espaços públicos, com equipamentos improvisados. As produtoras Emanuelle Reis e Bárbara Callado conduziram o projeto enfrentando limitações financeiras desde o início.
Para Emanuelle Reis, a história retratada na tela nasce de uma vivência pessoal. Segundo ela, os impactos de jornadas abusivas fizeram parte de sua infância e ajudaram a construir o olhar que orienta a narrativa.
A protagonista Thamires, interpretada por Isabelle Brum, precisa deixar o filho Nathan sob os cuidados da avó para conseguir enfrentar dias seguidos entre trabalho e deslocamentos. A personagem sintetiza a realidade de muitas mulheres que conciliam sozinhas a responsabilidade pelo sustento da família.
Durante as gravações, Isabelle Brum também enfrentou consequências físicas e emocionais. A atriz relatou uma crise de insônia que durou cerca de três meses, experiência que reforçou sua identificação com a personagem.
“Esse ‘me desculpa’ é quase um ‘me perdoa por eu não ter vida’. Me desculpa por eu não conseguir existir para você e nem para mim. Como é que você pede desculpa por não poder viver? Isso é muito injusto.”
Mais do que acompanhar a rotina de uma trabalhadora, o curta questiona a solidão das mães solo — em sua maioria mulheres negras —, a ausência dos genitores e a insuficiência das políticas públicas para garantir condições dignas de trabalho e de cuidado.
Para o montador Matheus Ferreira, a identificação do público demonstra que a história dialoga com uma realidade compartilhada por milhões de brasileiros e contribui para ampliar o debate sobre as condições de sobrevivência de quem ocupa a base da pirâmide social.
Disponível no YouTube, o filme utiliza uma narrativa construída a partir de experiências concretas para discutir o direito ao descanso, a valorização do trabalho e a necessidade de políticas que assegurem dignidade às pessoas submetidas à exaustão cotidiana.




















