Havana (Cuba) — O endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos voltou a atingir setores estratégicos da economia cubana. Nos últimos dias, a suspensão das operações das bandeiras Visa e Mastercard na ilha e a saída de empresas ligadas ao setor turístico evidenciaram os efeitos de uma política que Havana denuncia há décadas como um obstáculo ao desenvolvimento nacional. Diante do agravamento desse cenário, o presidente Miguel Díaz-Canel anunciou um amplo programa de reformas econômicas voltado ao fortalecimento da produção, da soberania alimentar, da autonomia municipal e da segurança energética do país.
A interrupção dos serviços das principais bandeiras internacionais de cartões não ocorreu por falta de mercado ou por decisão relacionada ao desempenho da economia cubana. A instituição financeira responsável pelo processamento dessas operações decidiu encerrar sua atuação na ilha diante do risco de sofrer restrições para acessar o sistema financeiro e o mercado norte-americano. Na prática, a medida revela como o alcance extraterritorial das sanções dos Estados Unidos afeta não apenas o governo cubano, mas também empresas privadas que mantêm relações comerciais com o país caribenho.
O episódio representa mais um capítulo de uma política de pressão econômica que se intensificou nos últimos anos. Além da saída das operadoras ligadas aos cartões Visa e Mastercard, algumas redes internacionais de hotéis também anunciaram o encerramento de atividades em Cuba. Embora as empresas evitem associar publicamente suas decisões às sanções norte-americanas, o contexto mostra que a permanência na ilha passou a representar riscos crescentes para grupos econômicos que dependem de operações financeiras internacionais controladas ou influenciadas por Washington.
O impacto imediato recai sobre o turismo, uma das principais fontes de entrada de divisas para Cuba. Sem acesso aos meios de pagamento mais utilizados globalmente, turistas estrangeiros passam a enfrentar dificuldades adicionais durante a estadia na ilha, dependendo principalmente de dinheiro em espécie. A situação ocorre em um momento delicado para um setor que ainda tenta recuperar os níveis registrados antes da pandemia.
Em 2019, Cuba recebeu mais de 4,2 milhões de visitantes. Em 2025, o número ficou em torno de 1,8 milhão. A diferença revela não apenas os efeitos da crise sanitária global, mas também as dificuldades enfrentadas por uma economia submetida a restrições comerciais, financeiras e bancárias que limitam sua capacidade de atrair investimentos e ampliar o fluxo turístico.
As novas dificuldades surgem em um contexto já marcado por escassez de combustíveis, interrupções no fornecimento de energia, limitações para importação de insumos e dificuldades para obtenção de divisas. Nos últimos anos, a população cubana conviveu com desafios crescentes relacionados ao abastecimento de alimentos, medicamentos e produtos essenciais, cenário que o governo associa diretamente ao impacto do bloqueio econômico mantido pelos Estados Unidos.
Foi diante desse quadro que Miguel Díaz-Canel apresentou um dos mais abrangentes programas de reformas econômicas dos últimos anos. Mais do que um conjunto de ajustes administrativos, as medidas são apresentadas como uma estratégia para aumentar a capacidade produtiva nacional e reduzir vulnerabilidades agravadas pelas restrições externas.
Entre as prioridades anunciadas está o fortalecimento da produção de alimentos. O governo considera que a dependência de importações se tornou um dos principais pontos de fragilidade da economia cubana. Por isso, as reformas preveem maior flexibilidade no acesso à terra, ampliação de incentivos aos produtores, fortalecimento das cooperativas e estímulo à integração entre empresas estatais, agricultores e outros atores econômicos.
A soberania alimentar aparece como um dos conceitos centrais da nova estratégia. Para Havana, ampliar a produção interna não é apenas uma questão econômica, mas uma necessidade relacionada à segurança nacional e à capacidade do país de enfrentar períodos de pressão externa.
Outro eixo importante das mudanças envolve a ampliação da autonomia dos municípios. O governo pretende transferir parte das decisões econômicas para os territórios, permitindo que administrações locais tenham maior capacidade para organizar cadeias produtivas, estimular investimentos e aproveitar potencialidades regionais. A proposta busca reduzir entraves burocráticos e aproximar o desenvolvimento econômico das realidades concretas de cada comunidade.
As empresas estatais também ocupam posição central nas reformas. O plano prevê maior autonomia para definição de investimentos, utilização de lucros, organização da produção e estabelecimento de estratégias voltadas ao aumento da eficiência econômica. A intenção é fortalecer a capacidade de resposta dessas estruturas sem abrir mão de sua função social dentro do modelo cubano.
A questão energética aparece como outro desafio prioritário. As dificuldades de acesso a combustíveis e os problemas enfrentados pelo sistema elétrico levaram o governo a ampliar os investimentos em fontes renováveis de energia. A estratégia busca reduzir a dependência de combustíveis importados e fortalecer a segurança energética nacional em um contexto de crescente pressão econômica.
As reformas também incluem medidas para estimular investimentos, facilitar iniciativas produtivas e ampliar mecanismos de geração de riqueza. Segundo Díaz-Canel, o objetivo é criar condições para que Cuba produza mais, reduza dependências externas e fortaleça sua capacidade de financiar políticas públicas e programas sociais.
Ao apresentar o pacote de mudanças, o presidente cubano voltou a associar as dificuldades enfrentadas pelo país à política adotada pelos Estados Unidos. Para o governo, a saída de empresas financeiras e turísticas demonstra que o bloqueio continua produzindo impactos concretos sobre a economia da ilha, dificultando operações comerciais, limitando investimentos e afetando diretamente o cotidiano da população.
Nesse cenário, as reformas são apresentadas por Havana como uma tentativa de transformar uma situação de pressão permanente em oportunidade de reorganização econômica. Mais do que responder à crise imediata, o governo busca construir mecanismos que reduzam a vulnerabilidade do país diante das sanções e fortaleçam a capacidade de desenvolvimento nacional.
Enquanto novas restrições afetam setores estratégicos da economia cubana, a disputa em torno do futuro da ilha continua extrapolando as fronteiras do Caribe. O que está em jogo não envolve apenas turismo, cartões de crédito ou investimentos internacionais, mas a capacidade de um país de definir seus próprios caminhos econômicos em meio a uma das mais duradouras políticas de sanções da história contemporânea.



















