Foz do Iguaçu, PR – Em março de 1965, menos de um ano depois do golpe civil-militar de 1964, um grupo de trabalhadores rurais, militares de baixa patente e militantes trabalhistas iniciou uma das primeiras tentativas de resistência armada à ditadura no Brasil. Liderada pelo ex-coronel Jefferson Cardin Osório, a Operação Três Passos começou no Rio Grande do Sul e terminou com a prisão dos insurgentes no Paraná, seguida de sessões de tortura no então 1.º Batalhão de Fronteiras, em Foz do Iguaçu.
Conhecido como a Guerrilha dos Dentes de Ouro, o movimento reuniu pessoas de diferentes origens, entre camponeses e profissionais liberais ligados à corrente trabalhista e ao brizolismo. A iniciativa pretendia enfrentar o regime instaurado em 31 de março de 1964 e estimular uma resistência que ultrapassasse os limites de uma ação localizada.
A operação também revela como a repressão da ditadura alcançou o Oeste do Paraná. Foz do Iguaçu aparece nesse episódio não apenas como local de passagem dos presos, mas como parte da estrutura militar utilizada para perseguir, interrogar e torturar opositores do regime.
A tomada do destacamento e a transmissão do manifesto
Em 26 de março de 1965, os insurgentes atacaram o presídio e o destacamento da Brigada Militar em Três Passos, no Rio Grande do Sul. Durante a ação, apreenderam armas, munições e fardamentos. Também cortaram as linhas telefônicas para dificultar a comunicação das forças de segurança.
O grupo ocupou ainda a Rádio Difusora. Sob a mira de metralhadoras, os proprietários foram obrigados a transmitir ao vivo um manifesto que denunciava as arbitrariedades cometidas pelo regime militar.
A transmissão tinha um objetivo político: romper o silêncio imposto pela repressão e tornar pública a existência de uma resistência organizada à ditadura. Depois da ação, a coluna seguiu por Tenente Portela, Barra do Guarita e Itapiranga, em Santa Catarina, avançando em direção ao Paraná.
A prisão e as torturas em Foz do Iguaçu
Em 28 de março de 1965, a coluna foi surpreendida por forças de segurança em Capitão Leônidas Marques, no Oeste do Paraná. Os integrantes foram presos e levados para Foz do Iguaçu, onde permaneceram sob custódia militar no 1º Batalhão de Fronteiras.
Os relatos reunidos posteriormente por pesquisadores e documentos sobre a repressão confirmam que os integrantes da Operação Três Passos sofreram torturas durante os interrogatórios. Jefferson Cardim foi espancado por oficiais e submetido a novas sessões de violência. Os presos também foram apresentados à tropa como comunistas e acusados de traição à pátria.
A violência não ficou restrita ao momento da prisão. Os depoimentos prestados pelos integrantes do movimento à Justiça Militar, em 1967, registraram os maus-tratos sofridos, especialmente durante o período em que estiveram em Foz do Iguaçu. Depois da passagem pelo batalhão, os presos foram transferidos para responder aos processos na Justiça Militar, em Curitiba. UNIOESTE+1
Jefferson Cardim manteve sua posição política e morreu no Rio de Janeiro, em 1995. Alberi Vieira dos Santos, ex-sargento da Brigada Militar e um dos participantes da guerrilha, seguiu outro caminho: passou a colaborar com os órgãos de informação da ditadura e se tornou agente infiltrado do Centro de Informações do Exército (CIE).
Operação Juriti: a armadilha na Estrada do Colono
Quase uma década depois da Guerrilha de Três Passos, Alberi voltou a aparecer em uma operação da repressão que atingiu diretamente a região de Foz do Iguaçu. Em julho de 1974, ele participou da Operação Juriti, organizada para atrair militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que viviam exilados na Argentina.
A articulação envolveu agentes do CIE e militares que atuavam na região. Entre eles estava o agente Otávio Rainolfo da Silva, que utilizava o nome de Otávio Camargo e se apresentava aos militantes como contato da resistência no Paraná. O coronel Paulo Malhães também participou da operação, na condição de responsável pelo controle de Alberi no serviço de informações do Exército.
Alberi convenceu os exilados a retornar clandestinamente ao Brasil. O grupo era formado por Onofre Pinto, dirigente da VPR, pelos irmãos Joel José de Carvalho e Daniel José de Carvalho, além de José Lavecchia, Victor Carlos Ramos e do argentino Enrique Ernesto Ruggia.
Em 13 de julho de 1974, cinco integrantes acompanharam Alberi e Otávio até o Parque Nacional do Iguaçu. A justificativa era encontrar um acampamento e armas escondidas na região. O destino, porém, era uma emboscada preparada por agentes da repressão.
Na Estrada do Colono, dentro do parque, os cinco militantes foram conduzidos até o local onde militares aguardavam. Os agentes acenderam os faróis dos veículos e abriram fogo contra o grupo. Joel, Daniel, José Lavecchia, Victor Carlos Ramos e Enrique Ernesto Ruggia foram fuzilados.
Onofre Pinto não havia acompanhado os outros cinco naquele deslocamento. Permaneceu inicialmente no sítio utilizado como ponto de apoio, mas foi posteriormente levado pelos agentes. Segundo os registros reunidos pela Comissão Nacional da Verdade, foi conduzido vivo a Foz do Iguaçu, submetido a interrogatório sob tortura e assassinado. Serviços e Informações do Brasil+3
A repressão também deixou marcas no Oeste do Paraná
A Operação Juriti demonstrou como os órgãos de inteligência da ditadura utilizavam infiltração, vigilância e agentes disfarçados para localizar opositores políticos. O retorno dos exilados foi organizado a partir da confiança que eles depositavam em antigos companheiros. Essa confiança foi utilizada para conduzi-los diretamente à morte.
A participação de Alberi Vieira dos Santos na operação foi documentada por investigações posteriores. Seu papel na Guerrilha de Três Passos e, anos depois, na armadilha contra integrantes da VPR liga dois episódios da repressão política separados por quase dez anos.
Há também uma correção histórica importante sobre o destino de Alberi. Embora algumas narrativas associem sua morte a 1977, os registros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos indicam que ele foi encontrado morto em 10 de janeiro de 1979, na região de Foz do Iguaçu. Seu irmão José Soares dos Santos havia sido morto em janeiro de 1977. As circunstâncias da morte de Alberi não foram esclarecidas. Morto ou desaparecido político+1
A história da Operação Três Passos e da Operação Juriti mostra que Foz do Iguaçu e o Oeste paranaense tiveram participação direta na estrutura de repressão da ditadura. A região foi utilizada tanto para manter presos políticos sob custódia militar e submetê-los à tortura quanto para executar operações clandestinas destinadas a eliminar militantes que tentavam voltar ao país.
A reconstrução desses episódios, documentados em investigações e trabalhos de memória, ajuda a compreender a dimensão regional da violência de Estado durante a ditadura civil-militar brasileira.
Fonte histórica: Aluízio Palmar, Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?, 2004. Texto confrontado com registros da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.


