Fátima, Argentina – O episódio conhecido como Massacre de Fátima, um dos crimes mais sangrentos e emblemáticos cometidos pela ditadura militar argentina, ocorreu durante a madrugada de 20 de agosto de 1976. Na ocasião, trinta presos políticos — vinte homens e dez mulheres — que estavam sob custódia ilegal do Estado foram assassinados a tiros e tiveram seus corpos explodidos com dinamite em uma área rural do município de Pilar, na província de Buenos Aires.
A operação repressiva começou a ser montada ainda no dia anterior, em 19 de agosto de 1976. Naquela data, um grupo militar instalou um bloqueio de controle rodoviário sobre a Rota 8. Durante toda a movimentação, aviões militares sobrevoavam a região em círculos, enquanto viaturas Ford Falcon — veículo utilizado sistematicamente pelos órgãos de repressão do regime — patrulhavam as ruas do entorno.
Pouco antes das quatro horas da madrugada do dia 20 de agosto, uma caminhonete e um furgão chegaram ao local exato do crime. Moradores da localidade ouviram a movimentação de veículos, mas ninguém se atreveu a sair às ruas para verificar o que estava acontecendo. Minutos depois, uma forte explosão acordou toda a população de Fátima.
Os primeiros civis a chegarem ao ponto da detonação foram operários de uma olaria de tijolos localizada nas proximidades. Eles encontraram um cenário de destruição extrema, com restos mortais humanos espalhados em um raio de cem metros a partir do ponto central da explosão.
Quase que imediatamente, a área foi cercada por soldados do Exército, que bloquearam completamente a passagem de pedestres e moradores. Repórteres fotográficos que tentaram registrar o ocorrido tiveram suas máquinas e fotos confiscadas pelas forças de segurança. No local, soldados e agentes civis recolheram os pedaços dos corpos dinamitados e os colocaram na caçamba de um caminhão da Prefeitura de Pilar para retirá-los da vista pública.
Conforme o boletim policial elaborado na época, as vítimas eram trinta pessoas, sendo dez mulheres e vinte homens. A grande maioria era formada por jovens militantes, incluindo alguns adolescentes. Naquele primeiro momento, apenas cinco corpos puderam ser identificados pelas autoridades. Os demais foram enterrados sem qualquer identificação, como indigentes (sob a sigla NN), nas valas do Cemitério de Presidente Derqui. Anos mais tarde, esses mesmos restos mortais foram exumados para exames periciais.
Embora a identificação inicial tenha contemplado apenas cinco vítimas, as investigações avançaram com os trabalhos periciais da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF). O trabalho começou no contexto do Julgamento das Juntas Militares, em 1985, e teve continuidade nos Julgamentos pela Verdade, abertos a partir de 1997. As análises genéticas e forenses permitiram inicialmente identificar dezessete dos assassinados e, com a sequência dos laudos, confirmaram a identidade de todas as demais vítimas:
Inés Nocetti, Ramón Lorenzo Vélez, Ángel Osvaldo Leiva, Alberto Evaristo Comas, Conrado Alsogaray, Jorge Daniel Argente, Carlos Raúl Pargas, Ricardo José Herrera, José Daniel Bronzel, Susana Pedrini de Bronzel, Carmen María Carnaghi, Haydée Cirullo de Carnaghi, Norma Susana Fontini, Selma Julia Ocampo, Horacio García Gastelú, Juan Carlos Vera, Roberto Héctor Olivestre, Enrique Jorge Aggio, María Rosa Lincon e Cecilia Podolsky de Bronzel.
A responsabilização penal dos executores e mandantes chegou aos tribunais mais de três décadas depois. Em 29 de abril de 2008, o Tribunal Federal nº 5 de Buenos Aires abriu o processo criminal contra os policiais da reserva Juan Carlos Lapuyole — apontado como homem de confiança do ex-ministro da ditadura Albano Harguindeguy —, Carlos Gallone e Miguel Ángel Timarchi. O trio foi formalmente acusado pelo homicídio dos vinte homens e das dez mulheres que haviam sido retirados clandestinamente das celas da Superintendência de Segurança Federal, onde permaneciam sequestrados.
A sentença judicial foi proferida no dia 18 de julho de 2008. O tribunal condenou os réus pelos crimes de privação ilegal da liberdade e homicídio duplamente qualificado por emboscada, com o agravante de terem sido cometidos no exercício de função pública. Juan Carlos Lapuyole e Carlos Gallone receberam a pena de prisão perpétua. Miguel Ángel Timarchi foi absolvido das acusações. Os querelantes e familiares das vítimas manifestaram concordância com as prisões perpétuas impostas aos dois primeiros e entraram com recurso contra a absolvição de Timarchi perante a Câmara de Cassação.




















