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Brasil cai cinco posições em índice de turismo, mas lidera na região

Desempenho brasileiro recua por falhas estruturais de serviços e trabalho, enquanto turismo internacional bate recordes de faturamento.

Japão lidera índice de turismo global; estudo internacional aponta que receita recorde convive com superlotação e precarização de mão de obra. Foto: Freepik

Brasília, DF – O Brasil recuou cinco posições e passou a ocupar o 32.º lugar no Índice de Desenvolvimento de Viagens e Turismo 2026 (TTDI), divulgado na sexta-feira (25) pelo Fórum Econômico Mundial. Apesar da perda de posições no quadro global, o país mantém a liderança entre as nações da América Latina. O ranking geral de 110 economias agora é encabeçado pelo Japão, que superou os Estados Unidos. O levantamento internacional acende um alerta sobre as contradições do setor: o aumento expressivo no fluxo e nos gastos de visitantes nem sempre se traduz em retorno social ou melhorias estruturais para as populações locais.

O documento aponta que a principal distância entre as dez maiores economias emergentes do índice — grupo que reúne Brasil, China, Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia, Vietnã, Filipinas, Turquia e México — e as vinte nações mais bem avaliadas está nos serviços e na infraestrutura turística. No caso brasileiro, o desempenho foi puxado para baixo por deficiências históricas em ambiente de negócios, sustentabilidade ambiental, qualificação de recursos humanos e condições do mercado de trabalho.

A perda de terreno no índice ocorre em meio a recordes financeiros imediatos na balança do turismo nacional. Nos primeiros oito meses de 2026, o Brasil recebeu 6,4 milhões de visitantes estrangeiros, vindos principalmente da Argentina, do Chile e dos Estados Unidos. Esse contingente deixou R$ 38,7 bilhões na economia até agosto. No entanto, o estudo do Fórum Econômico Mundial mostra que faturamentos elevados não resolvem carências crônicas de infraestrutura, saneamento, conservação de biomas e remuneração digna para os trabalhadores da base da cadeia de serviços.

Em nível global, o Japão alcançou a pontuação máxima de 5,27 em uma escala que vai de 1 a 7. O resultado foi impulsionado pela desconcentração de visitantes para fora dos circuitos tradicionais e pela ampliação de mercados de origem. Em 2025, o território japonês acolheu um recorde de 42,7 milhões de turistas internacionais, que injetaram US$ 59,7 bilhões (cerca de R$ 311,6 bilhões). O governo japonês planeja instituir uma autorização eletrônica de viagem para 71 nacionalidades que hoje entram sem visto, incluindo cidadãos do Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Coreia do Sul, voltada à triagem de segurança e triagem aeroportuária.

Atrás do Japão figuram Estados Unidos (5,23), Espanha (5,22), Austrália (5,18, após subir duas posições), França (5,17), Alemanha (5,09), Reino Unido (5,08), China (5,00, única economia emergente entre as dez primeiras), Suíça (4,97) e Itália (4,93). A região da Ásia-Pacífico foi a que mais avançou, crescendo 3,6% no período. Os maiores saltos percentuais individuais foram registrados por Albânia (1º lugar em avanço, 7% de melhora, 53ª colocação geral), Vietnã (6,3%, 52º) e Laos (6,1%, 75º), seguidos por Catar (47º), Malásia (26º), Tailândia (38º), Filipinas (57º), Marrocos (70º), Nepal (86º) e Sri Lanka (69º). A Albânia avançou por investimentos em malha aérea, transporte terrestre e instalações portuárias, combinados a custos mais acessíveis que os de seus vizinhos.

Ao todo, 92% dos 110 países avaliados apresentaram notas superiores às do levantamento anterior, consolidando a recuperação pós-pandemia. Em 2025, o mundo contabilizou 1,5 bilhão de chegadas de turistas — avanço de 5% sobre 2024 e de 4,4% sobre 2019 —, gerando um aporte recorde de US$ 11,6 trilhões (cerca de R$ 60,5 trilhões) ao Produto Interno Bruto mundial.

Contudo, a entidade afirma que a concentração de renda e a sobrecarga urbana colocam os modelos convencionais em xeque. Entre 2024 e 2026, o valor socioeconômico real gerado pelo setor encolheu nos destinos, enquanto a superlotação permaneceu acima dos padrões pré-crise sanitária. O relatório destaca que acolher mais turistas não significa distribuir melhor a riqueza gerada, exigindo regulação rígida sobre serviços públicos, redes de abastecimento e bens naturais para impedir a expulsão de moradores e a degradação urbana.

A pressão inflacionária também encareceu o acesso às viagens: a competitividade de tarifas caiu 75% dos territórios analisados, com aumentos de preços superiores à inflação média. O investimento na atividade não acompanhou a procura desde 2022, esbarrando na escassez de profissionais preparados e na precarização de postos de trabalho. Além dos entraves operacionais, eventos climáticos extremos, como secas e incêndios, somados a tensões geopolíticas, vêm alterando rotas aéreas e desestabilizando economias locais desprovidas de planejamento coletivo e gestão territorial consistente.

A apuração do TTDI baseia-se em 102 indicadores e 17 pilares, agrupados em cinco eixos estruturais: ambiente favorável, políticas e condições para o setor, infraestrutura, recursos turísticos e sustentabilidade. O cálculo reúne registros do Banco Mundial, da ONU Turismo, da Unesco, da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), de entidades privadas e de consultas empresariais.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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