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Massacre de Ayotzinapa: história, mortes e protestos por justiça

Doze anos após a emboscada contra os futuros professores, marcha no México lembra torturas e assassinatos que continuam sem desfecho.

Reconstituição da tragédia de Guerrero resgata conluio entre cartel e polícia, enquanto mães e pais mantêm manifestações na capital. Foto: Ronaldo Schemidt/AFP.

Iguala, Guerrero, México – Na noite de 26 de setembro de 2014, um ataque coordenado contra alunos da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa, deu início a um dos episódios mais dramáticos da história recente do México. A ação violenta terminou com seis mortos, 25 feridos e o desaparecimento forçado de 43 jovens em Iguala, no estado de Guerrero. O grupo era formado por rapazes de 18 a 21 anos que cursavam licenciatura para dar aulas no campo e tinham viajado cerca de 125 quilômetros até a cidade para arrecadar dinheiro para a manutenção do colégio, atividade comunitária que envolvia a utilização de ônibus locais.

A sequência dos fatos começou quando viaturas da polícia municipal fecharam a passagem dos coletivos e abriram fogo. As apurações históricas comprovaram a ação conjunta de agentes públicos com membros da organização criminosa Guerreros Unidos. A violência armada daquela madrugada não atingiu apenas os jovens em formação docente: civis nas ruas foram baleados e os atiradores abriram fogo contra o ônibus da equipe de futebol Los Avispones. Ao contrário das primeiras versões oficiais que tratavam as vítimas como se tivessem permanecido juntas, a reconstituição oficial confirmou que os policiais separaram os 43 rapazes à força em diferentes grupos e os dispersaram pela cidade antes do sumiço definitivo.

Após os ataques, o governo federal divulgou uma versão batizada de “verdade histórica”. De acordo com essa narrativa oficial da época, os policiais entregaram os estudantes aos criminosos do Guerreros Unidos, que os teriam assassinado e queimado em um lixão na cidade vizinha de Cocula, jogando as cinzas no rio San Juan. A tese caiu por terra diante do trabalho de peritos independentes e da contestação dos familiares. Em 2022, a Comissão para a Verdade e o Acesso à Justiça no Caso Ayotzinapa concluiu formalmente que o episódio se tratou de um crime de Estado, executado com a participação direta de agentes de diferentes órgãos públicos e do narcotráfico, confirmando a morte dos rapazes e a identificação pericial de fragmentos de ossadas de três dos 43 estudantes.

O caso histórico atingiu o comando político regional. O prefeito de Iguala, na ocasião, José Luis Abarca Velázquez, e a esposa dele, María de los Ángeles Pineda Villa, foram acusados de conluio com a quadrilha e de articularem a violência contra os jovens. Ambos fugiram logo após a madrugada sangrenta e acabaram presos na Cidade do México em novembro de 2014, enquanto o chefe da polícia local, Felipe Flores Velázquez, também foi enquadrado criminalmente. O episódio deflagrou manifestações massivas por todo o país, que resultaram em protestos em sedes governamentais e no incêndio de parte do Congresso de Guerrero, em Chilpancingo, no fim de 2014. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) concedeu medidas cautelares no mesmo ano e reafirmou seu acompanhamento formal em 2024. Já em agosto de 2026, a Fiscalía General de la República confirmou a abertura de novas apurações sobre a ocultação de evidências: um colaborador ouvido em janeiro atestou a existência de gravações do Palácio de Justiça de Iguala mostrando a passagem de um dos ônibus naquela noite, o que desmentiu relatórios estatais antigos que alegavam pane técnica para ocultar os registros em vídeo. Em 27 de agosto de 2026, o governo federal informou às famílias que seguia concentrado em novas ordens de prisão, análise de dados telefônicos, ampliação das buscas de campo e processos de extradição.

Doze anos depois da tragédia, as famílias seguem sem respostas sobre o paradeiro da maioria dos jovens e sem a condenação definitiva de todos os mandantes. Neste 26 de setembro de 2026, uma grande manifestação tomou as ruas da capital mexicana. Às 17h40, os manifestantes pararam em frente ao memorial conhecido como antimonumento +43, onde leram os nomes de cada um dos alunos sumidos sob o coro de “¡Presentación con vida!”. O ato recordou ainda as mortes cometidas naquela noite, entre elas a de Julio César Mondragón Fuentes — torturado e encontrado com a pele do rosto arrancada —, outros dois jovens executados a bala e um quarto estudante que permanece hospitalizado em coma vegetativo. Cartazes erguidos por caravanas de professores rurais e estudantes traziam mensagens de revolta: “Que os olhos dos desaparecidos persigam você em seus sonhos e que o choro de suas mães não o deixe dormir”.

A marcha do caso Ayotzinapa também atraiu famílias de pessoas desaparecidas recentemente no México, evidenciando uma crise que segue ativa no país. Atanasio Piña caminhou carregando o retrato de seu filho Yuristi, assassinado após sumir aos 27 anos em setembro de 2024. “Somos vítimas do crime e das omissões do governo. Existem milhares de órgãos do governo, mas nenhum apresenta resultados”, denunciou Olín Vargas, cujo filho Hernando Vargas desapareceu no bairro de Ajusco em novembro de 2024 e permanece sumido. A mobilização no Zócalo terminou ao anoitecer com os manifestantes entoando o hino “Venceremos” e reafirmando que as famílias não aceitarão o esquecimento judicial nem a impunidade dos chefes militares.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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