Español Português
AGORA

TST seguirá punindo assédio eleitoral mesmo com fim da eleição

Com mais de 1,8 mil queixas no MPT, Justiça do Trabalho afirma que término das urnas não encerra responsabilização jurídica de empresas.

Vieira de Mello Filho alerta que coação patronal fere a democracia e garante apuração contínua de abusos do poder econômico. Foto: Reprodução/Tribunal Superior do Trabalho,

Brasília, DF – A Justiça do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho (MPT) manterão abertas as apurações contra empresas acusadas de coagir funcionários politicamente, mesmo com o término das eleições de 2026. O anúncio foi feito pelo presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), ministro Vieira de Mello Filho, nesta segunda-feira (26), na 13ª sessão ordinária do Tribunal Pleno.

A determinação ocorre após a escalada de pressões patronais registradas ao longo do segundo turno. Setores do empresariado intensificaram o uso do medo do desemprego para tentar subordinar a escolha dos empregados. Para o magistrado, o encerramento da votação não anula a apuração das irregularidades nem livra empregadores de sanções trabalhistas e penais.

“O assédio eleitoral é uma chaga que ainda persiste em nossa sociedade. É uma prática que atenta contra a liberdade de consciência, a dignidade do trabalhador e o próprio exercício da democracia. Nenhum trabalhador pode ser ameaçado, pressionado ou constrangido por causa de suas opiniões políticas ou da escolha de seu candidato.”

A ofensiva começou antes do pleito. Em agosto, as instituições lançaram a campanha nacional “No Meu Voto Mando Eu”, criada para receber relatos de intimidação patronal e orientar trabalhadores sobre como registrar provas sem se expor a represálias.

Os dados oficiais mostram que as coações dispararam conforme a polarização política se acirrava. O painel nacional de monitoramento da Justiça do Trabalho contabilizou 863 processos entre maio de 2023 e outubro de 2026. Desses, 233 foram abertos somente no ano de 2026.

A reta final da campanha acelerou os conflitos: entre janeiro e 4 de outubro, data do primeiro turno, o Centro de Pesquisas Judiciárias anotou 135 processos. Entre 4 e 24 de outubro, o número saltou para 185 ações judiciais — uma alta de 37%, com 50 novas ações protocoladas em menos de três semanas.

No Ministério Público do Trabalho, o volume de denúncias também atingiu níveis recordes. Até a primeira etapa da eleição, o órgão registrou 991 relatos, emitiu 501 recomendações preventivas a empresas, firmou 64 termos de ajuste de conduta (TAC) e ingressou com 38 ações civis públicas.

Apenas no fim de semana do primeiro turno, chegaram 82 denúncias, acompanhadas de 76 recomendações e seis novas ações civis. No segundo turno, o órgão foi acionado mais de 800 vezes, elevando o balanço total do ano para mais de 1,8 mil casos.

“Esses números revelam que o assédio eleitoral ainda exige atenção permanente das instituições, mas demonstram também a importância de uma estrutura preparada para receber denúncias e dar respostas efetivas.”

Para processar o volume de ocorrências, magistrados e procuradores atuaram em regime de plantão desde 1º de agosto, após passarem por capacitações voltadas à tipificação rápida dos casos no ambiente corporativo.

“Não esperamos que os problemas surjam para buscar soluções; nós nos antecipamos, nos preparamos e organizamos uma resposta institucional. A parceria com o MPT foi fundamental para organizar as ações, orientar os trabalhadores e permitir que as denúncias fossem encaminhadas com rapidez e responsabilidade.”

Agora, o foco das instituições recai sobre a proteção pós-eleitoral dos empregados. A meta é frear demissões motivadas por vingança política e punir judicialmente as companhias flagradas usando seu poder financeiro para subverter direitos civis básicos.

“Embora as eleições tenham se encerrado, nosso trabalho não terminou. Seguiremos atuando em conjunto com o MPT para assegurar que todos os casos apresentados sejam devidamente apurados e recebam o encaminhamento jurídico adequado.”

A presidência da corte concluiu, apontando que o direito ao voto soberano e secreto exige garantias materiais contra ameaças no local de trabalho.

“Defender a liberdade do voto é também defender a dignidade de quem trabalha.”

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

Receba notícias no WhatsApp do Fronteira LivreReceba notícias no WhatsApp do Fronteira Livre

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *