Foz do Iguaçu, PR – A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) recebe, nos dias 4, 5 e 6 de novembro de 2026, o 3º Congresso Internacional de Antropologias do Sul, que terá como tema “Antropologias do Sul enfrentando um mundo em conflito: desafios epistemológicos, éticos e políticos”. O encontro propõe discutir como as ciências sociais podem interpretar e enfrentar as desigualdades, as formas de dominação e os conflitos que afetam os povos da América Latina, do Caribe e de outras regiões do Sul Global.
A organização parte de uma contradição: países e regiões ricos em recursos naturais e energéticos, inclusive em fontes renováveis, continuam marcados pela pobreza e pela desigualdade social. Para os organizadores, a reprodução de modelos econômicos eurocêntricos e o uso de tecnologias modernas de gestão pública não têm sido suficientes para superar esses problemas. O documento de apresentação do congresso relaciona essa realidade a uma modernidade que degrada as condições de vida, destrói a natureza e mantém estruturas históricas de dominação.
O encontro também questiona o papel das próprias ciências sociais nesse processo. Segundo a apresentação, as antropologias produzidas no Sul demoraram a desenvolver interpretações capazes de dialogar com as culturas e as experiências dos povos da região, recorrendo, em grande medida, a narrativas formuladas em outros contextos.
Uma proposta de descolonização do conhecimento
A trajetória das Antropologias do Sul remonta a 1993, quando o antropólogo Esteban Krotz propôs, durante o Congresso Internacional de Etnologia e Antropologia, na Cidade do México, um simpósio sobre uma nova escola de antropologia dos “Povos do Sul”. A proposta abrangia sociedades da América Latina, do Caribe e da África que, historicamente, haviam sido estudadas por antropólogos do Norte. A professora Jacqueline Clarac de Briceño, da Venezuela, participou daquele simpósio.
Em outubro de 2016, Clarac de Briceño organizou o Primeiro Congresso Internacional de Antropologias do Sul, realizado em Mérida, na Venezuela. Ela já escrevia sobre o tema desde 1993 e havia criado um módulo dedicado à Antropologia do Sul no mestrado em Etnologia da Universidade dos Andes (ULA). Naquele mesmo ano, durante o Dia da Resistência Indígena, criou a Rede de Antropologias do Sul (RedAS).
A iniciativa buscava romper com a hegemonia das antropologias do Norte na interpretação dos fenômenos culturais dos povos do Sul Global e ampliar o espaço para conhecimentos produzidos a partir das próprias realidades estudadas.
O segundo congresso, inicialmente previsto para 2020, ocorreu de forma descentralizada entre março de 2022 e junho de 2023, em razão das limitações impostas pela pandemia de Covid-19. Argentina, Brasil, Colômbia e Venezuela receberam atividades locais. O objetivo era avaliar as contribuições teóricas, metodológicas e práticas das Antropologias do Sul desde a criação da rede, em 2016, além de aprofundar o debate sobre as chamadas antropologias periféricas, independentes ou secundárias, denominações associadas a discussões de pesquisadores como Roberto Cardoso de Oliveira e Esteban Krotz.
A crise sanitária e as dificuldades de realização do encontro impediram que todos os objetivos de avaliação fossem alcançados. Por isso, a continuidade dos eventos permaneceu como parte da estratégia da rede para aprofundar os debates e consolidar sua atuação.
Geopolítica, extrativismo e resistência social
A edição de 2026 ocorre em meio a disputas internacionais que, segundo o documento de apresentação, têm afetado a economia, os direitos humanos e a soberania dos países latino-americanos e caribenhos. O texto aponta as medidas do governo de Donald Trump, o declínio relativo da hegemonia econômica e militar dos Estados Unidos diante de potências emergentes como China e Rússia e o ressurgimento de outros imperialismos como fatores que influenciam a região.
Os organizadores também criticam as práticas neoextrativistas promovidas por potências econômicas e empresas transnacionais. A proposta é discutir como essas relações aprofundam desigualdades e limitam a capacidade dos povos de decidir sobre seus territórios e seus próprios caminhos políticos e sociais.
Nesse contexto, o congresso defende antropologias comprometidas com a justiça social, a cooperação entre países do Sul Global e a descolonização do conhecimento. A intenção é discutir alternativas que articulem a defesa dos direitos humanos, a sustentabilidade ambiental e o reconhecimento de diferentes formas de compreender e organizar a vida coletiva.
A organização divide os debates em três eixos: ética, sociopolítica e sociocultural. Embora tenham focos específicos, eles se relacionam com uma questão comum: como produzir conhecimento que não reproduza as hierarquias históricas entre os países e as comunidades que pesquisam e aqueles que tradicionalmente definem os métodos e as teorias considerados legítimos.
Três eixos de discussão
No eixo ético, os participantes são convidados a discutir a responsabilidade dos antropólogos diante das desigualdades e das ameaças à vida no planeta. Entre as questões propostas estão a relação dos pesquisadores com as comunidades estudadas, o compromisso com as lutas locais e a possibilidade de construir uma antropologia cocidadã, engajada e dissidente. O documento também questiona se as categorias teóricas utilizadas pelos pesquisadores correspondem às realidades locais ou se apenas adaptam conceitos formulados em outros contextos.
O eixo sociopolítico concentra-se nos conflitos geopolíticos, na atuação das elites e na expansão de ideologias extremistas. A organização propõe receber trabalhos sobre a ascensão de ideologias nazifascistas e sionistas, seus efeitos sobre os povos do Sul Global e as formas de resistência social desenvolvidas contra essas forças. Também pretende discutir a biopolítica, as relações de poder e as experiências de organização coletiva que procuram construir alternativas às estruturas dominantes.
Já o eixo sociocultural aborda os impactos do imperialismo, do avanço da extrema-direita e da desvalorização das ciências sociais, das humanidades e de outros sistemas de conhecimento. O debate inclui a defesa da memória das comunidades, a autonomia dos povos, a autodeterminação e a preservação de diferentes formas de expressão cultural.
A proposta também incorpora reflexões do pensador Édouard Glissant sobre crioulização e direito à opacidade, relacionadas à defesa de modos de existência que não precisam se submeter integralmente às exigências ocidentais de transparência e classificação.
Além dos debates teóricos, o congresso receberá propostas de Grupos de Trabalho e produções audiovisuais que abordem os temas apresentados. A organização convida pesquisadores e associados a contribuir com as atividades e a discutir experiências que aproximem a produção acadêmica das lutas e das necessidades das comunidades.
Ao sediar o encontro, Foz do Iguaçu será o ponto de reunião de pesquisadores interessados em discutir as relações entre conhecimento, poder e resistência a partir das experiências do Sul Global. A programação está prevista para a Unila, instituição cuja proposta acadêmica está voltada à integração latino-americana.
Serviço
Evento: 3º Congresso Internacional de Antropologias do Sul.
Tema: “Antropologias do Sul enfrentando um mundo em conflito: desafios epistemológicos, éticos e políticos”.
Data: 4, 5 e 6 de novembro de 2026.
Local: Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Foz do Iguaçu, Paraná.
Site: https://antropologiasdelsur.org
Contato: congreso@antropologiasdelsur.org



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