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Violência política cresce e atinge maioria de mulheres e negros

Mulheres ocupam 18% dos mandatos, mas concentram metade dos 354 episódios de hostilidade registrados por organizações de direitos humanos.

Mulheres pretas eleitas foram alvo de ataques repetidos e cartas de grupos neonazistas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Brasília, DF – O período pré-eleitoral mais violento da última década no Brasil registrou 354 casos de violência política entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, com média de um ataque a cada 44 horas. Os dados fazem parte de um levantamento divulgado nesta quarta-feira (30) pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global. O documento mostra que as mulheres foram as principais vítimas e concentraram metade dos episódios, apesar de ocuparem menos de um quinto dos cargos representativos do país.

As mulheres foram alvo de 50,6% de todas as ocorrências mapeadas na quarta edição da pesquisa. No entanto, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que elas ocupam apenas cerca de 18% das cadeiras legislativas brasileiras. As agressões dirigidas a elas tiveram características específicas: todos os 31 casos de ameaça de violência sexual e todos os 67 episódios com ofensas ao corpo, à aparência ou de conotação sexual miraram exclusivamente parlamentares ou lideranças femininas.

A coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, Gisele Barbieri, afirmou que a agressão contra parlamentares mulheres é contínua e impede o acesso real delas aos postos de decisão e comando. A pesquisadora defendeu a atuação conjunta do poder público para conter as ofensivas, com atenção especial aos casos contra mulheres cisgêneras, transexuais e travestis.

O levantamento revela que 96,3% dos episódios atingiram pessoas que já exerciam mandato. A divisão dos ataques varia de acordo com o sexo da vítima: os homens foram alvos em 77,2% dos casos de violência física, como agressões corporais, atentados a tiros e assassinatos. Já as mulheres sofreram 58,3% dos ataques simbólicos, categoria que reúne ameaças verbais e ofensas públicas.

O recorte racial agrava os números. Uma em cada três mulheres agredidas era preta (64 de 179 casos), proporção que, entre os homens, fica em um a cada nove. Das 84 agressões contra pessoas pretas registradas no período, 64 atingiram mulheres, sendo 11 delas transexuais ou travestis. A contagem inclui ainda quatro mulheres indígenas e uma mulher amarela entre as vítimas.

A repetição dos ataques atinge sobretudo o público feminino: das 32 pessoas que sofreram investidas repetidas durante o período pré-eleitoral, 23 eram mulheres. As quatro ameaças explícitas assinadas por grupos neonazistas ou supremacistas miraram mulheres pretas eleitas em quatro estados: a prefeita Professora Nilda (RN) e as vereadoras Alice Carvalho (RS), Vivi Reis (PA) e Adriana Gerônimo (CE).

Uma das coordenadoras do estudo, Franciele Petry, afirmou que a perseguição contínua serve para intimidar candidaturas e afastar determinados grupos da vida pública, em especial mulheres, pessoas negras, transexuais e pessoas LGBTQIAP+. A pesquisadora disse que não é possível falar em democracia representativa sem a presença ativa dessa diversidade nas casas legislativas.

O nível municipal concentra o maior volume de agressões e mortes, somando 63% dos casos contra vereadores e prefeitos. Dos 28 episódios em que houve tentativa de assassinato, 24 aconteceram nas cidades: foram 10 dos 11 homicídios confirmados e 14 dos 17 atentados contra políticos locais. Os vereadores e vereadoras somam 49,6% do total de vítimas, com 176 ocorrências — média de três ataques para cada mil vereadores eleitos em 2024. Mesmo em 2025, ano em que não houve votação, as entidades contabilizaram 225 casos.

A diretora executiva da Justiça Global, Glaucia Marinho, explicou que a presença de policiais e de grupos armados ilegais entre os agressores coloca em risco a vida das lideranças e o funcionamento das câmaras e prefeituras. Agentes estatais e policiais respondem por 29,9% dos ataques registrados. Em 64 ocorrências (18,1%), o autor da violência também exercia cargo público ou mandato eletivo. Em 52 casos, o ataque ocorreu dentro do próprio local de trabalho parlamentar.

Apesar do volume de ocorrências, a impunidade marca o desfecho da maioria dos processos. Pelo menos 300 casos (84,5%) tiveram denúncia formal ou pública registrada, mas apenas 46 (13%) contavam com apuração policial ou judicial aberta até o fechamento do relatório. Somente nove casos — 2,5% do total — terminaram com punição para os autores. Gisele Barbieri cobrou a aplicação das penas da Lei 14.192, sancionada em 2021 para punir a violência política contra a mulher. As organizações informaram que os dados do primeiro turno eleitoral serão apresentados na próxima semana.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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