Campo Grande, MS – Comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul enfrentam uma sequência de ataques violentos e intimidações após o segundo turno das eleições. Os relatos reúnem assassinatos em apuração, atropelamentos intencionais, queima de espaço sagrado e um plano explícito de envenenamento da água consumida em aldeia.
As denúncias foram protocoladas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) junto ao governo federal. Em resposta, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) acionou a Polícia Federal para abrir inquérito sobre as ações coordenadas contra o povo Guarani Kaiowá.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) acompanha investigações sobre ao menos cinco assassinatos de indígenas no estado desde o sábado anterior à votação, dia 24 de outubro. As polícias locais e federais ainda trabalham na conferência de laudos e perícias para fechar o número exato entre mortes consumadas e tentativas de homicídio.
O ambiente de intimidação começou antes da abertura das urnas. Moradores relatam que caminhonetes percorreram estradas vicinais próximas às aldeias para vigiar acessos, com agressões físicas pontuais contra quem tentava se deslocar até as zonas eleitorais.
O coordenador do Cimi em Mato Grosso do Sul, Matias Benno Rempel, afirma que as agressões não são episódios isolados do calendário eleitoral, mas parte de uma engrenagem de pistolagem rural:
“Agora temos holofotes para a região. Mas o que aconteceu essa semana, as tentativas de assassinatos, elas ocorrem o tempo todo com a população indígena Guarani Kaiowá. Essa violência que está sendo chamada de violência pós-eleitoral é um componente permanente de milícias do campo.”
O volume de ocorrências aparece nos registros oficiais. A Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso do Sul registrou dez assassinatos desde o dia 24. Paralelamente, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) computou 45 crimes de motivação política no país entre os dias 24 e 28 de outubro, com 47 vítimas e dez mortos — três deles indígenas. O estado figurou como o terceiro com maior número de ocorrências na lista nacional.
A gravidade da perseguição atingiu o ponto mais crítico no município de Tacuru, extremo sul do estado. Um áudio gravado por um servidor da prefeitura orientou a contaminação da água potável entregue à Aldeia Sassoró, como retaliação aos votos concedidos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
“Ponha veneno na água, matar essas pragas na água.”
O coordenador jurídico da Apib, Ricardo Terena, explicou que a comunidade não tem poços suficientes e sobrevive do abastecimento feito por caminhões-pipa. Após a gravação se espalhar, as famílias pararam de beber a água fornecida por medo de intoxicação imediata.
O prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), determinou o afastamento do funcionário e a abertura de processo administrativo disciplinar no dia 28 de outubro.
Na mesma data, o Ministério Público Federal (MPF) deu 48 horas para a prefeitura comprovar a autoria da gravação, garantir a segurança dos moradores e impedir a interrupção da entrega de água limpa na aldeia.
A violência física continuou nas horas seguintes. Na manhã de 29 de outubro, invasores colocaram fogo na casa de reza de uma rezadeira de 90 anos, na Aldeia Jaguapiré, também em Tacuru. As chamas queimaram os instrumentos rituais ancestrais da comunidade. A anciã vinha sofrendo ofensas racistas sistemáticas.
No município de Coronel Sapucaia, fronteira com o Paraguai, líderes locais denunciaram atropelamentos provocados contra indígenas em vias rurais, com uma morte registrada.
Diante do quadro, uma força-tarefa formada pelos ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Cidadania, da Igualdade Racial e pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) passou a atuar na coleta de provas. Pelas coordenações de Ponta Porã e Dourados, a Funai declarou preocupação com as ameaças à vida e as manifestações abertas de racismo.
O MPF também precisou agir para conter boatos que inflamavam a tensão local. O procurador da República Marco Antonio Delfino Rufino esclareceu que uma tentativa de duplo homicídio ocorrida em Naviraí não envolveu indígenas: tratou-se de uma briga doméstica e interpessoal entre não indígenas, cujas imagens foram adulteradas nas redes sociais para simular perseguição étnica.
A onda de pressão sobre os povos originários se estendeu à Amazônia. No Pará, fazendeiros ameaçaram invadir novamente a Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu, caso o candidato Flávio Bolsonaro (PL) vencesse a disputa nacional. O território havia passado por operação federal de desintrusão meses antes.
De acordo com o Cimi, a ofensiva se apoia na disputa econômica por terras e na impunidade histórica de crimes no campo. No Mato Grosso do Sul, a Apib contabiliza seis assassinatos de indígenas Guarani Kaiowá no intervalo de 2022 a 2026.
A ausência de julgamento em casos antigos mantém o padrão de violações. Seis anos após os massacres dos rios Abacaxis e Mari-Mari, no Amazonas, e os assassinatos do povo Chiquitano, no Mato Grosso, ninguém foi condenado. No Amazonas, policiais militares réus desde 2025 tiveram quatro ações penais travadas no Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1) até agosto de 2026. Em Mato Grosso, a execução de quatro indígenas Chiquitano por agentes do Grupo Especial de Fronteira (Gefron), cometida em 2020, segue sem conclusão na Justiça.
A paralisia judicial levou seis entidades, entre elas o Cimi e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a acionarem a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que realizou audiência em 28 de outubro, na Cidade do Panamá, cobrando apuração das ações de forças policiais contra populações tradicionais.
O tamanho da violência contra indígenas no país já havia sido detalhado pelo relatório anual do Cimi, divulgado em agosto: 258 indígenas foram assassinados no Brasil em 2025, um aumento de 22% em relação aos 211 casos de 2024. Roraima (82), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37) lideraram os números.
O levantamento também apontou 38 tentativas de assassinato, 45 ameaças diversas, 46 episódios de racismo, 169 disputas territoriais em 143 terras indígenas e 210 invasões para exploração ilegal de recursos naturais. A omissão estatal teve reflexos diretos na saúde: foram 215 suicídios e 1.024 mortes de crianças de até quatro anos por causas tratáveis.
O Cimi sustenta que a lentidão nas demarcações e a incerteza jurídica mantida pela Lei do Marco Temporal (Lei 14.701/2023) dão aval financeiro e político para que grupos armados continuem operando contra os povos originários.



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