CIDADE DO MÉXICO, MX — A trajetória política de Angelines Fernández ganha relevância ao revelar que a célebre intérprete da personagem Dona Clotilde, popularmente conhecida como a “Bruxa do 71” no seriado humorístico Chaves, construiu uma história de combate direto ao fascismo na Europa antes de se consolidar nas telas da América Latina. Nascida em Madri no dia 9 de julho de 1922 — embora fontes biográficas também apontem o dia 30 de julho de 1924 —, a atriz María de los Ángeles Fernández Abad cresceu nos bairros operários da capital espanhola, convivendo com os debates sobre direitos trabalhistas e igualdade. Com o estouro da Guerra Civil Espanhola em 1936, quando tinha apenas 14 anos, ela ingressou ativamente no movimento revolucionário republicano, alinhando-se a grupos que defendiam a autonomia dos trabalhadores.
Após a vitória das forças nacionalistas do ditador Francisco Franco em 1939, que deu início a uma ditadura de quase quatro décadas, a repressão estatal foi institucionalizada por meio da Lei de Responsabilidades Políticas. O cenário do pós-guerra na Espanha transformou-se em uma rotina de delações, prisões e execuções contra civis que apoiaram a República. Nesse contexto, a trajetória política de Angelines Fernández esteve marcada pela atuação na clandestinidade junto aos Maquis, grupo de resistência armada composto por anarquistas, socialistas e comunistas que lançavam ataques contra as forças do governo a partir de florestas e regiões montanhosas. Entre 1945 e 1947, durante o ápice do cerco militar e da infiltração promovida pelo regime franquista, a jovem militante passou a ter seu nome listado entre os alvos do governo e viveu sob a ameaça constante de fuzilamento ou cárcere, enquanto familiares que permaneceram em Madri enfrentavam vigilância permanente.
Resistência marca a trajetória política de Angelines Fernández
Aos 25 anos de idade, em 1947, a militante antifranquista tomou a decisão de abandonar a Espanha acompanhada de sua única filha, Paloma Fernández, buscando refúgio no México. A herdeira relembrou a firmeza de princípios e a postura sem concessões que caracterizavam a postura da mãe diante do regime autoritário. “Quando atuava na guerrilha espanhola, minha mãe era classificada como antifranquista, então ela precisou deixar a terra natal, considerando que sua vida ficaria cada vez mais difícil”, declarou Paloma Fernández em entrevista ao portal oficial Vecindad CH. A filha explicou ainda que a chegada ao México não ocorreu por razões artísticas, mas pela preservação da própria vida, ressaltando: “Cheguei ao México em 1947, mas nunca fui refugiada”. Em outro depoimento, Paloma destacou o perfil intransigente da atriz frente aos seus valores éticos: “Tinha um caráter forte. Para ela não havia meias tintas, era branco ou preto, não podia ser cinza. Era uma mulher que levava a sério seus valores e às vezes as pessoas não lidavam bem com isso. Então diziam que ela tinha um gênio difícil”.
Ao desembarcar na América do Norte em 1947, a trajetória política de Angelines Fernández enfrentou entraves burocráticos, já que a artista não obteve asilo imediato do governo mexicano. Essa situação a obrigou a partir temporariamente para Cuba, país que vivia sob regime capitalista antes da Revolução Cubana. Apesar das dificuldades enfrentadas na capital Havana, período sobre o qual existem poucos registros detalhados, foi em solo cubano que sua carreira no meio artístico começou a se estruturar. Pouco tempo depois, a atriz retornou definitivamente ao México, onde fixou residência pelo resto da vida e deu início a uma prolífica fase profissional no teatro, no cinema e na televisão.
Atriz migra para as telas mexicanas
Sua estreia nos palcos ocorreu ainda em Madri, na comédia musical Carlo Monte en Monte Carlo, encenada pela companhia de teatro de Isabela Garcés. Já no México, onde era considerada uma das mulheres mais bonitas do meio artístico, participou de 25 produções cinematográficas e tornou-se uma das figuras da Era de Ouro do Cinema Mexicano durante os anos 1950 e 1960. Entre os papéis dramáticos de destaque estão sua atuação no clássico El Esqueleto de la señora Morales (1960) e a interpretação da personagem Sara, rival do Padre Sebastián — vivido pelo comediante Cantinflas — no filme El padrecito (1964). Aos 35 anos, protagonizou a novela Cadenas de amor, acumulando participações em diversos folhetins e dramas televisivos ao longo das décadas de 1960 e início de 1970.
A transição para o universo do humorismo televisivo ocorreu por meio de sua amizade pessoal com o ator Ramón Valdés, intérprete do Seu Madruga. Após Fernández consultar Valdés sobre oportunidades de trabalho na dramaturgia, o ator a apresentou ao produtor e roteirista Roberto Gómez Bolaños, o Chespirito. A partir desse contato, ela assumiu o papel de Dona Clotilde em El Chavo del Ocho (Chaves) e integrou o elenco do seriado El Chapulín Colorado (Chapolin), conquistando projeção internacional em todos os países da América Latina e em sua própria terra natal. Em 1974, a atriz gravou sua última telenovela e seu último filme, passando a concentrar suas atividades exclusivamente nas produções de Bolaños.
Mesmo após o encerramento das gravações regulares de Chaves e Chapolin em 1979, a trajetória política de Angelines Fernández seguiu acompanhada de sua atuação profissional. Ela continuou interpretando a Bruxa do 71 nas esquetes do programa Chespirito durante os anos 1980 e participou de turnês internacionais pelo continente. Na mesma época, assumiu a personagem Dona Nachita, uma vizinha fofoqueira no quadro Los Caquitos (Chaveco), permanecendo no elenco do programa até 1992. Vale ressaltar que, mesmo após a morte do ditador Francisco Franco e o fim da ditadura na Espanha em 1975, a atriz optou por não retornar em definitivo ao seu país de origem.
Fumante ostensiva, Angelines Fernández faleceu em 25 de março de 1994, aos 69 anos de idade, vítima de câncer no pulmão e na garganta decorrente do uso contínuo do tabaco. Curiosamente, a idade de seu falecimento é frequentemente associada de forma mística à sua personagem cômica, que residia no apartamento de número 71. Ela foi a terceira integrante do elenco principal de Chaves a falecer, após as mortes de Ramón Valdés e de Raúl “Chato” Padilla (intérprete do personagem Jaiminho, o Carteiro). Seu corpo está sepultado no cemitério Mausoleos del Ángel, localizado na Cidade do México, encerrando a história de uma artista cuja vida esteve marcada pela militância antifascista e pelo trabalho na televisão continental.



















