Salvador Allende: do voto ao fuzil, a história do primeiro marxista eleito

Salvador Allende: do voto ao fuzil, a história do primeiro marxista eleito

Das influências anarquistas no colégio ao golpe de 1973, a trajetória do presidente que nacionalizou o cobre e enfrentou os EUA e a direita chilena

Primeiro marxista eleito democraticamente na América Latina. Foto: Divulgação.
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No dia 11 de setembro de 1973, o presidente do Chile acordou sabendo que podia morrer. Salvador Allende Gossens não fugiu, não se rendeu e não pediu asilo. Fez seu último discurso pelo rádio, com a voz firme, e ficou no Palácio de La Moneda enquanto os tanques avançavam. Horas depois, estava morto. Começava ali a ditadura de Augusto Pinochet, que duraria 17 anos.

Allende nasceu em Valparaíso, em 26 de junho de 1908, numa família de classe média com tradição política. O avô foi médico e fundador do Partido Radical. O pai, notário. Mas foi um anarquista italiano, Juan Demarchi, quem o apresentou às ideias sociais e políticas ainda no colégio.

“Juan Demarchi me indicou leituras e despertou meu interesse pelas ideias sociais e políticas.”, costumava dizer Allende.

A militância se consolidou na Universidade do Chile, onde se formou em Medicina. Em 1927, foi eleito presidente do Centro de Alunos. No mesmo período, ingressou na maçonaria, seguindo tradição familiar. A experiência universitária transformou o estudante em líder.

Em 1933, aos 25 anos, Allende foi um dos fundadores do Partido Socialista do Chile. Quatro anos depois, elegeu-se deputado. Em 1939, assumiu o Ministério da Saúde, cargo que exerceu até 1942. Em 1945, foi eleito senador — e lá ficou por 25 anos.

Disputou a presidência três vezes: 1952, 1958 e 1964. Perdeu as três. Mas a persistência virou virtude. Em 4 de setembro de 1970, como candidato da coalizão Unidade Popular, venceu a eleição com 36,6% dos votos. O Congresso Nacional confirmou a vitória após um acordo que incluía garantias democráticas.

Allende tomou posse em 3 de novembro de 1970. Era o primeiro marxista a chegar ao poder pelo voto na América Latina.

Seu governo promoveu mudanças estruturais profundas. Nacionalizou as minas de cobre — principal riqueza do país —, além das minas de carvão e dos serviços de telefonia. O Estado ampliou sua intervenção no sistema bancário. Avançou na reforma agrária, desapropriando grandes propriedades improdutivas e redistribuindo terras a camponeses.

“Queremos construir o socialismo respeitando a legalidade democrática, dentro da Constituição e das leis.”

Esse “caminho chileno para o socialismo” enfrentou resistência desde o início. A direita chilena se organizou. O governo dos Estados Unidos, por meio da CIA, financiou oposição, greves e campanhas de desestabilização. Em 4 de setembro de 1972, Allende subiu à tribuna da Organização das Nações Unidas para denunciar a interferência norte-americana nos assuntos internos do Chile.

A economia se deteriorou. Investimentos privados despencaram. O desemprego cresceu. O país parou em paralisações no transporte e no comércio. Atentados contra pontes, oleodutos e sistemas elétricos agravaram o caos.

Apesar da crise, a Unidade Popular obteve 43% dos votos nas eleições parlamentares de 1973 — sinal de que Allende ainda tinha apoio popular significativo. Em junho daquele ano, houve uma tentativa frustrada de golpe.

O golpe verdadeiro veio em 11 de setembro de 1973.

As Forças Armadas, lideradas pelo general Augusto Pinochet, bombardearam o Palácio de La Moneda. Allende recusou a oferta de salvo-conduto. Fez seu último pronunciamento, usando capacete de segurança e segurando um fuzil AK-47, presente de Fidel Castro. A versão oficial diz que se suicidou com um tiro dessa arma. Outros sustentam que foi morto pelos militares. Independentemente da controvérsia, morreu aos 65 anos, dentro do palácio que jurara defender.

A ditadura de Pinochet durou 17 anos. Estima-se que ao menos três mil pessoas tenham sido mortas ou desaparecidas durante o regime.

Allende governou por apenas 1.043 dias. Não completou o mandato, não viu o socialismo democrático se consolidar. Mas deixou uma imagem que o tempo não apagou: a de um presidente que preferiu a morte à rendição, e que acreditou até o fim que a via democrática era o único caminho válido para transformar um país.


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