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Assédio e sobrecarga abalam a saúde mental de jornalistas

Quase metade dos repórteres e editores sofre com falta de sono; 50% relatam quadros depressivos e 30% enfrentam perseguição na internet.

Além do assédio presencial, 30% dos jornalistas ouvidos na pesquisa relatam perseguição e violência em redes digitais. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Brasília, DF – Quase metade dos jornalistas brasileiros sofre com sintomas de insônia, enquanto metade da categoria relata quadros depressivos decorrentes da sobrecarga, da falta de apoio nas redações e da violência cotidiana dentro e fora da profissão. Os dados fazem parte do estudo “Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil”, apresentado nesta segunda-feira (14) durante reunião do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional.

A pesquisa foi desenvolvida pela Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do Trabalho (Fundacentro), ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego, com o apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). O levantamento ouviu 257 profissionais por meio de formulário eletrônico para mapear o impacto direto das rotinas produtivas sobre a saúde mental de repórteres, editores e demais trabalhadores de imprensa no país.

Os números revelam que 48% dos entrevistados têm problemas recorrentes de sono. O índice supera com folga a média da população brasileira apontada pela pesquisa Vigitel (2006-2024), do Ministério da Saúde, cujas capitais com taxas mais altas oscilam entre 28,7% (Natal) e 38% (Maceió). Além disso, 36% relatam quadros típicos de ansiedade e 50% afirmam enfrentar depressão — sendo que 9% apresentam sintomas de nível severo e 16%, extremamente severo.

O desgaste sistemático também se reflete no aumento do uso de álcool: 21,5% consomem bebidas em padrões de risco (18,7%) ou nocivo (1,6%), e as respostas de 1,2% apontam provável dependência química.

As pesquisadoras Bruna Balarotti e Elaine Cristina Marqueze explicam que o estresse e o dinamismo acelerado da profissão funcionam como fatores de risco psicossocial contínuos. Essa carga é amplificada por violências no ambiente profissional: de 26% a 37% dos jornalistas afirmam ter sido vítimas de assédio moral, enquanto 30% relatam sofrer episódios de intimidação virtual (cyberbullying).

“A prevalência de assédio moral no trabalho, variando de 26% a 37%, e de cyberbullying (30%), representam um dos achados mais críticos deste estudo”, afirmam as autoras no relatório. “Esses percentuais elevados indicam que uma parcela substancial dos jornalistas brasileiros está exposta a formas de violência psicossocial, tanto no ambiente físico quanto no digital.”

O levantamento aponta ainda que 61% dos trabalhadores contam com pouco ou nenhum apoio social, índice medido pela qualidade da convivência e do suporte de colegas e chefias imediatas. Essa falta de retaguarda, somada à baixa autonomia sobre as próprias tarefas diárias, empurrou a satisfação no trabalho para patamares abaixo da média.

Para as autoras e para a direção da Fenaj, o adoecimento generalizado da categoria enfraquece o exercício livre da profissão e prejudica a própria democracia.

“Os dados evidenciam um cenário preocupante, marcado por altas taxas de estresse, ansiedade, depressão, insônia, assédio moral e violência digital. Além disso, revelam um ambiente de trabalho caracterizado por altas demandas, baixo controle sobre as atividades e insuficiente apoio social”, disse a presidenta da Fenaj, Samira de Castro Cunha. “Esses elementos não apenas afetam a saúde dos profissionais, mas também impactam a qualidade da informação produzida e, consequentemente, o próprio direito da sociedade à informação.”

O estudo conclui que empresas de comunicação, entidades sindicais e autoridades públicas precisam intervir de maneira urgente para barrar abusos de chefias, rever exigências desmedidas de produção e garantir ambientes seguros e saudáveis de trabalho.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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