Cantagalo, PR – Em uma propriedade de apenas seis hectares no município de Cantagalo, no Centro-Sul paranaense, a produção de queijo artesanal deixou de ser uma simples saída para complementar a renda e transformou as perspectivas de uma família rural. A virada começou em 2023, quando a Queijaria Tia Nena levou duas medalhas de ouro máximo com os selos Super Ouro pelos queijos Colonial Ao Vinho e Temperado, na primeira edição do Prêmio Queijos do Paraná, organizado pelo Sistema FAEP. Dois anos mais tarde, em 2025, a marca repetiu o feito ao conquistar outro Super Ouro com o Aroma do Campo, uma receita autoral.
A produtora rural Solange Liller, proprietária da agroindústria, relata as dificuldades enfrentadas antes das premiações. “Antes, a queijaria estava patinando, vendendo queijo sem valor agregado. Depois do prêmio, as pessoas passaram a procurar um queijo premiado, conhecer a história da queijaria. Isso mudou completamente a nossa motivação. Passamos a trabalhar mais animados, com vontade de crescer, inovar e investir”, conta.
O impacto no bolso e na rotina da propriedade foi imediato. “O aumento das vendas foi automático, na mesma semana. O pessoal queria conhecer, queria saber qual era o queijo premiado. Tanto que faltou produto”, relembra Solange.
Até receber a primeira medalha, todo o lote era vendido diretamente no sítio e no comércio local de Cantagalo, cidade de aproximadamente sete mil moradores. O salto exigiu adequações sanitárias: a queijaria conquistou a certificação do Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar, Artesanal e de Pequeno Porte (Susaf), documento que permitiu a saída legal das mercadorias para todos os municípios paranaenses.
Com a autorização e o prestígio dos prêmios, a carteira de compradores se diversificou. “Hoje temos clientes em Curitiba, Londrina, Foz do Iguaçu e em outras regiões do Estado. Já temos contatos de pessoas de fora, que conheceram nossa queijaria por causa do prêmio”, afirma a agricultora. Os queijos frescos do dia a dia começaram a dividir espaço com itens de maior valor agregado, procurados por empórios, restaurantes e redes hoteleiras.
As medalhas conquistadas viraram diferencial comercial direto nas embalagens. “Também começamos a vender para públicos mais exigentes, que conhecem queijo e entendem do assunto. Hoje, o cliente quer qualidade, mesmo que precise pagar mais. As pessoas enxergam as medalhas de longe e vêm perguntar qual prêmio ganhou. E, com isso, sai a negociação”, explica.
Para a família, que no passado dependia unicamente da venda de leite cru, o beneficiamento próprio viabilizou a permanência e a evolução na terra. “Quando começamos a transformar o leite em queijo, melhorou. Mas, quando vieram os prêmios, o queijo deixou de ser só um alimento e passou a ser um produto artesanal reconhecido”, pontua Solange. O aumento das encomendas exigiu reformas nas instalações físicas e motivou projetos de expansão voltados ao turismo rural.
A criação do queijo Aroma do Campo, premiado em 2025, é fruto direto dessa trajetória. Depois da vitória de 2023, Solange integrou uma comitiva técnica enviada à França pelo Sistema FAEP. No país europeu, observou peças maturadas cobertas por flores e ervas. Retornou disposta a desenvolver um produto autoral com matéria-prima e traços regionais. “Na volta, começamos uma conversa em família sobre criar algo inspirado nisso, mas sem copiar. Queríamos fazer um queijo da Tia Nena, com a nossa identidade”, detalha a produtora, que passou por sucessivas rodadas de testes e ajustes até chegar à fórmula definitiva.
Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a trajetória reflete a proposta da iniciativa. “O prêmio nasceu para valorizar o produtor rural, incentivar a qualidade e ajudar a construir uma identidade queijeira para o Paraná. Quando vemos uma pequena propriedade ampliar mercado, agregar valor ao produto e gerar renda, temos a certeza de que estamos no caminho certo”, afirma. Solange acrescenta que o concurso elevou o padrão geral da produção no campo: “Depois do prêmio, muita gente começou a fazer queijo melhor, buscar conhecimento e participar de cursos”.
A terceira edição do concurso foi lançada em junho e está com inscrições abertas no site da FAEP (sistemafaep.org.br/premio-queijos-do-parana). A meta da organização é alcançar cerca de 600 cadastros em todo o estado. O evento deste ano traz ainda a estreia do Concurso Queijo Colonial do Paraná, com expectativa de receber cerca de 100 inscrições voltadas a esse segmento tradicional.



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