Tirana (Albânia) – O que está em disputa no litoral da Albânia vai muito além da construção de um resort de luxo. Para milhares de pessoas que ocupam ruas, praças e praias do país nas últimas semanas, o conflito passou a representar uma escolha sobre qual futuro a pequena nação dos Bálcãs pretende construir.
De um lado estão os defensores de um empreendimento turístico estimado em US$ 4 bilhões, ligado ao empresário Jared Kushner e à empresária Ivanka Trump, genro e filha do presidente norte-americano Donald Trump. Do outro lado, moradores, pescadores, ambientalistas e organizações da sociedade civil que acusam o governo do primeiro-ministro Edi Rama de colocar áreas protegidas e patrimônios naturais sob risco em nome de interesses privados.
A frase que se tornou símbolo dos protestos resume esse sentimento: “A Albânia não está à venda”.
O movimento nasceu na comunidade costeira de Zvërnec, onde moradores começaram a denunciar mudanças que alteravam o acesso a praias utilizadas historicamente pela população local. O que inicialmente parecia um conflito restrito ao litoral rapidamente ganhou dimensão nacional quando imagens de cercas bloqueando áreas públicas e confrontos envolvendo equipes de segurança privada passaram a circular pelas redes sociais.
Em poucos dias, a discussão deixou de ser apenas ambiental e transformou-se em um debate sobre soberania, patrimônio público e influência econômica sobre decisões políticas.
Um paraíso natural no centro da disputa
O projeto prevê intervenções em áreas próximas à ilha de Sazan e à região de Vjosa-Narta, uma das zonas ambientalmente mais sensíveis da Europa.
A paisagem reúne lagoas, dunas, áreas costeiras e habitats fundamentais para milhões de aves migratórias que atravessam anualmente o corredor do Adriático entre África e Europa. A região também integra o entorno do rio Vjosa, considerado um dos últimos grandes rios selvagens do continente.
Ambientalistas denunciam que obras preliminares já provocaram alterações em áreas protegidas. Relatórios e imagens divulgados por organizações locais mostram a movimentação de máquinas pesadas sobre dunas classificadas como monumentos naturais e mudanças em ecossistemas considerados estratégicos para a biodiversidade regional.
Especialistas alertam que alguns dos impactos podem ser irreversíveis ou exigir décadas para recuperação.
O peso político da família Trump
A presença da família Trump ampliou a repercussão internacional da controvérsia.
Segundo informações divulgadas por veículos europeus e norte-americanos, Jared Kushner e Ivanka Trump passaram a demonstrar interesse pela região após viagens realizadas à costa albanesa nos últimos anos. O projeto recebeu apoio direto do governo de Edi Rama e foi enquadrado na categoria de investimento estratégico, instrumento que facilita licenças e procedimentos para grandes empreendimentos.
Críticos afirmam que o tratamento concedido ao projeto criou privilégios incompatíveis com a proteção ambiental prevista pela legislação europeia.
A polêmica chegou às instituições da União Europeia. Representantes do bloco passaram a questionar alterações promovidas na legislação albanesa e advertiram que o enfraquecimento de mecanismos de proteção ambiental pode gerar consequências para as negociações de adesão da Albânia à União Europeia.
Entre o desenvolvimento e o direito ao território
A defesa do empreendimento parte da promessa de geração de empregos, ampliação do turismo internacional e atração de investimentos para uma economia que ainda enfrenta dificuldades estruturais.
A Albânia permanece entre os países de menor renda da Europa e convive há décadas com a saída de parte significativa de sua população para outros países do continente.
Mas os críticos argumentam que o desenvolvimento não pode ocorrer à custa da destruição de patrimônios naturais ou da exclusão das comunidades que historicamente ocupam esses territórios.
Por isso, os protestos continuam crescendo.
Mais do que impedir um resort, os manifestantes afirmam estar defendendo o direito de decidir o destino de áreas que consideram parte da identidade nacional.
Nas ruas de Tirana, nas praias do Adriático e nas pequenas comunidades costeiras, a disputa passou a representar uma questão que ultrapassa a Albânia: quem deve definir o futuro dos territórios — as populações que vivem neles ou os interesses econômicos capazes de transformá-los em mercadoria?


















