Bets retiram R$ 62,5 bilhões da renda das famílias no Brasil

Bets retiram R$ 62,5 bilhões da renda das famílias no Brasil

Algoritmos de apostas incentivam compulsivos em vez de travar contas, aponta especialista sobre perdas de R$ 62,5 bilhões.

Transferências via Pix para casas de apostas somaram quase R$ 351 bilhões no período analisado. Foto: Reprodução/Internet
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Foz do Iguaçu, PR – As perdas com bets atingiram R$ 62,5 bilhões para as famílias brasileiras no acumulado do último ano. O valor representa o prejuízo líquido do setor, calculado a partir da diferença entre o total de dinheiro apostado e a quantia que retornou aos usuários na forma de prêmios. A perda equivale a um impacto médio diário milionário no orçamento doméstico, totalizando cerca de R$ 4,7 bilhões retirados do bolso dos consumidores a cada mês.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (6) no Boletim Fiscal dos Estados, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) com base nos registros de movimentações de pagamentos do Banco Central. O levantamento acompanhou as transações efetuadas via Pix entre outubro de 2024 e março de 2026. Nesse intervalo, o volume bruto de recursos movimentados no mercado de apostas alcançou quase R$ 351 bilhões.

O montante de R$ 62,5 bilhões drenado pelas plataformas representa 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias no país. A análise do Comsefaz revela que, desde a regulamentação formal do setor de apostas, em janeiro do ano passado, houve uma alteração sensível na alocação de recursos das famílias. O direcionamento de transferências via Pix para o segmento que engloba artes, cultura, esporte e recreação passou a ser dominado pelas apostas online, sinalizando que a renda familiar está cada vez mais comprometida com o jogo em detrimento de outras formas de consumo e lazer.

A legislação responsável por regulamentar a atividade das plataformas no Brasil impõe regras severas de proteção ao consumidor. Entre as obrigações legais, as empresas são estritamente determinadas a bloquear o acesso de usuários identificados com comportamento compulsivo. Na prática, no entanto, a fiscalização e o cumprimento desse dispositivo enfrentam graves gargalos.

O advogado Júlio Leone aponta que a conduta das plataformas diverge frontalmente do que estabelece o texto legal. “Quando é detectado que a pessoa tem ludopatia, que é viciada, compulsiva em apostas, o algoritmo deveria travar a conta dela. Mas faz o contrário: manda mais bônus, mais vouchers, mais incentivos para que ela continue apostando. É aí que ela perde todo o capital”, explica o especialista.

Por outro lado, o relatório aponta um recuo na intensidade do fluxo financeiro em um segmento específico da população. A partir de outubro do ano passado, data em que passou a vigorar a proibição expressa para que beneficiários do Bolsa Família realizem apostas, as estatísticas registraram uma desaceleração no ritmo das transações efetuadas via Pix.

De acordo com a avaliação do Comsefaz, a perda de tração no volume total de transferências demonstra que o bloqueio teve impacto prático na contenção do mercado. O resultado sugere que a população de menor renda detinha uma fatia expressiva da participação agregada no ecossistema de jogos antes da restrição legal.


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