Ciudad de México, MEX – A Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), maior instituição pública de ensino superior da América Latina, enfrenta uma das maiores crises recentes em seu processo de admissão após identificar irregularidades no primeiro vestibular realizado integralmente em formato virtual.
A crise começou após a divulgação dos resultados do processo seletivo para o ano letivo de 2026-2027. Nas redes sociais, candidatos passaram a compartilhar relatos sobre supostas formas de burlar o sistema de monitoramento remoto e até de utilizar ferramentas de inteligência artificial (IA) durante a prova.
O debate ganhou repercussão após a circulação de vídeos publicados por criadores de conteúdo. Um dos casos mais comentados foi o do tiktoker conhecido como High Failure, acusado de incentivar candidatos a fraudar o exame.
O influenciador nega ter estimulado práticas ilegais e afirma que suas declarações foram retiradas de contexto.
“Meu vídeo foi editado. Pegaram apenas alguns segundos de uma gravação muito maior. Minha crítica era ao modelo de seleção e às desigualdades enfrentadas pelos estudantes.”
Segundo ele, o atual modelo de vestibular favorece candidatos com melhores condições socioeconômicas e maior capacidade de memorização, sem necessariamente avaliar o potencial acadêmico dos participantes.
UNAM identifica resultados atípicos
As suspeitas aumentaram após a universidade detectar um comportamento considerado incomum nos resultados do processo seletivo. Dos 158.712 exames aplicados, cerca de 3 mil candidatos foram desclassificados por descumprirem as regras do processo, o equivalente a aproximadamente 2% do total.
Diante das inconsistências, a UNAM adiou a abertura das matrículas e criou uma Comissão Técnica formada por 16 especialistas para revisar todo o processo de admissão.
O reitor Leonardo Lomelí afirmou que nenhuma hipótese foi descartada durante as investigações.
“Não se trata de um novo vestibular. Será um exame de controle para garantir que os candidatos aprovados realmente realizaram a prova sem receber ajuda externa.”
Governo mexicano acompanha investigação
A repercussão do caso chegou ao governo federal. O subsecretário de Educação Superior, Ricardo Villanueva Lomelí, reconheceu que houve um comportamento estatístico incomum nos resultados.
“Existe um comportamento atípico que precisa ser analisado. Houve uma mudança importante com a adoção do exame virtual, e todos os aspectos tecnológicos precisam ser investigados.”
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que respeita a autonomia universitária, mas informou que a Procuradoria-Geral da República poderá atuar caso a UNAM conclua que houve fraude com implicações criminais.
“Se a universidade entender que existe um crime, as instituições competentes estarão disponíveis para investigar. O mais importante é garantir segurança jurídica aos jovens que fizeram o exame.”
Disputa por vagas amplia impacto da crise
O episódio ganhou maior repercussão devido à alta concorrência por vagas na universidade. Neste ano, a UNAM ofereceu pouco mais de 50 mil vagas. Desse total, aproximadamente 28 mil já estavam destinadas automaticamente aos estudantes oriundos do próprio sistema de ensino médio da instituição.
Com isso, mais de 158 mil candidatos disputaram apenas 21.962 vagas, tornando qualquer suspeita de irregularidade motivo de preocupação entre estudantes e famílias. Grupos de candidatos realizaram manifestações em frente à universidade pedindo maior transparência no processo seletivo.
Enquanto parte dos manifestantes defendia a anulação do vestibular, outro grupo pedia a manutenção dos resultados dos candidatos que afirmam ter realizado a prova de forma regular.
Especialistas apontam desafios da avaliação online
Especialistas afirmam que o caso evidencia desafios que vão além da possível utilização de inteligência artificial durante a prova.
A diretora de Planejamento Estratégico e Inovação da Universidade Ibero-Americana, Cimenna Chao, afirmou que nenhum sistema remoto consegue garantir completamente a identidade do candidato ou impedir fraudes.
“Existe uma corrida permanente entre os mecanismos de segurança e as formas de burlá-los. Confiar exclusivamente na tecnologia cria uma falsa sensação de proteção.”
Já a especialista em tecnologia Nancy Salazar destacou que o principal desafio não está na inteligência artificial, mas na forma como os processos de avaliação são estruturados.
“A tecnologia pode tornar processos mais eficientes, mas nunca substituir o planejamento, a supervisão e as decisões humanas. O objetivo principal deve ser garantir confiança, equidade e transparência.”
Ela também chamou atenção para a desigualdade no acesso à tecnologia. Segundo Salazar, muitos estudantes não possuem computador adequado, conexão estável à internet ou ambiente apropriado para realizar uma prova online, o que compromete a igualdade de condições entre os candidatos.
A especialista também defende que o avanço da inteligência artificial exige mudanças nos modelos tradicionais de avaliação.
“Memorizar informações deixou de ser o principal diferencial. Hoje é necessário avaliar capacidade de análise, pensamento crítico e resolução de problemas.“
Empresa responsável pela plataforma também é investigada
A empresa Territorium Life, responsável pela plataforma utilizada no vestibular, também passou a ser alvo de questionamentos.
Segundo informações publicadas pelo jornal mexicano El Universal, um único supervisor poderia monitorar até 150 candidatos simultaneamente, apesar de o contrato prever fiscalização em tempo real por meio de inteligência artificial e acompanhamento humano.
Caso sejam confirmadas falhas na execução do serviço, a empresa poderá sofrer multas superiores a 10 milhões de pesos mexicanos.
Enquanto as investigações prosseguem, a UNAM afirma que ainda não há confirmação de que o uso de inteligência artificial tenha ocorrido de forma generalizada. A Comissão Técnica deverá analisar registros, evidências digitais e relatórios do sistema antes da divulgação das conclusões finais.




















