Foz do Iguaçu, PR – A transformação da violência em espetáculo televisivo, a seletividade da ação policial e a exploração política do medo estão no centro de um debate sobre os impactos dos programas policiais na democracia brasileira. A crítica aponta para uma relação entre Estado, polícia e mídia que, em vez de enfrentar as causas da violência e as desigualdades sociais, apresenta frequentemente a repressão como principal resposta aos conflitos que atingem a população.
O discurso de que a violência é consequência inevitável da desigualdade social ajuda a naturalizar uma realidade marcada por privilégios e exclusões. Enquanto parte da sociedade procura preservar suas vantagens, milhões de pessoas convivem com a falta de direitos e oportunidades. Essa contradição aparece de maneira particularmente explícita na televisão, onde a violência ganha espaço como espetáculo e passa a ocupar o lugar de uma discussão mais profunda sobre suas origens.
Para uma parcela dos apresentadores e comentaristas de programas policiais, a solução costuma ser apresentada em frases de efeito, como “bandido bom é bandido morto”. Repetido exaustivamente na televisão aberta, especialmente nos horários de almoço, o bordão transforma a repressão em resposta imediata e desvia a atenção das condições sociais e econômicas que também precisam ser consideradas no debate sobre segurança pública.
Quando a violência vira entretenimento
Programas como Brasil Urgente, Balanço Geral e Cidade Alerta são exemplos de atrações que transformam ocorrências policiais em conteúdo de entretenimento. A exposição de crimes, perseguições, prisões e confrontos ocupa boa parte da programação, enquanto a discussão sobre desigualdade, direitos sociais e responsabilidade do poder público recebe espaço muito menor.
A crítica também aponta a seletividade dessa cobertura. A polícia aparece frequentemente nas favelas e periferias, enquanto os crimes associados aos grupos economicamente privilegiados não recebem a mesma exposição. A imagem do criminoso costuma ser construída a partir de pessoas pobres, muitas vezes reduzidas à condição de suspeitas ou a números nas estatísticas do sistema prisional.
Nesse discurso, os agentes policiais são apresentados como protagonistas de uma luta entre o bem e o mal. Entretanto, a cobrança por justiça raramente aparece com a mesma intensidade quando envolve os espaços de poder político e econômico, como o Palácio do Planalto e o Palácio Guanabara.
A repressão como discurso político
A relação entre mídia e segurança pública também ultrapassa o campo do entretenimento. Ao apresentar a ação policial como principal instrumento de enfrentamento da violência, parte da programação contribui para legitimar uma política de segurança baseada na perseguição e na punição, deixando em segundo plano a garantia dos direitos humanos.
O Estado não atua em um espaço livre de interesses políticos e econômicos. Essa relação também pode ser observada no financiamento de campanhas eleitorais e na influência de grupos que procuram transformar determinadas pautas de segurança pública em capital político.
Entre as bandeiras frequentemente defendidas por setores ligados ao discurso policialesco estão a redução da maioridade penal, o fortalecimento dos mecanismos de perseguição e medidas que, mesmo sem serem apresentadas abertamente como propostas de violência, alimentam a defesa do linchamento e da pena de morte.
A popularidade conquistada diante das câmeras pode se converter em votos. Apresentadores que constroem sua imagem pública em torno da repressão e do combate ao crime encontram na audiência uma plataforma para disputar cargos eletivos. Dessa maneira, o medo e a indignação provocados pela violência também podem ser transformados em instrumentos de mobilização eleitoral.
Fascismo, herança autoritária e democracia
A discussão ganha outra dimensão quando relacionada à permanência de práticas autoritárias na estrutura do Estado brasileiro. A herança da ditadura militar de 1964 continua presente em concepções de segurança pública que tratam determinados grupos sociais como inimigos a serem combatidos, em vez de cidadãos titulares de direitos.
O fascismo contemporâneo não depende necessariamente das mesmas formas de organização e propaganda do passado. Pode se manifestar por meio de discursos que normalizam a violência, estimulam a intolerância e apresentam a repressão como solução para problemas sociais. Quando essas ideias encontram espaço na televisão, na política e em instituições públicas, tornam-se uma ameaça às garantias democráticas.
Jovens, negros e moradores das periferias estão entre os mais expostos às consequências de políticas de segurança orientadas pela perseguição e pela violência. A criminalização da pobreza e a seletividade policial aprofundam desigualdades e colocam em questão o próprio significado da cidadania.
A democracia não pode ser reduzida ao funcionamento das instituições ou à realização periódica de eleições. Ela depende também da garantia de direitos, da igualdade perante a lei e da possibilidade de participação política e social de toda a população.
O desafio é romper com a ideia de que a violência se combate com mais violência. Enquanto a repressão for apresentada como resposta suficiente, sem enfrentar as desigualdades e os interesses que sustentam a exclusão social, a democracia continuará distante de quem mais precisa dela.


