Brasília, DF – Quando Marta* decidiu retirar de casa o homem com quem viveu por mais de 20 anos, não estava apenas encerrando um relacionamento. Também rompia um ciclo de violência psicológica, patrimonial e emocional que quase lhe custou a vida. Gabriela*, por sua vez, precisou deixar a cidade onde morava e recomeçar a vida a mais de 1,5 mil quilômetros de distância para escapar das agressões do ex-companheiro.
Histórias como essas ajudam a explicar as novas medidas anunciadas pelo Governo Federal para ampliar a proteção às mulheres, fortalecer a rede de acolhimento e intensificar o combate à violência de gênero e ao feminicídio.
Em maio deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um pacote de ações voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres e ao reforço da segurança digital. Entre as iniciativas estão a criação do Cadastro Nacional de Agressores, o fortalecimento das medidas protetivas, a ampliação dos mecanismos para afastamento de autores de violência e o endurecimento das punições previstas na legislação.
As medidas integram o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, iniciativa dos Três Poderes destinada a articular ações de prevenção, proteção às vítimas e responsabilização de agressores. Sob o lema “Todos por Todas”, o pacto completou 100 dias em maio reunindo ações para ampliar a rede de atendimento, fortalecer políticas públicas e mobilizar diferentes setores da sociedade.
Durante a cerimônia de lançamento, o presidente destacou que o enfrentamento da violência exige compromisso coletivo.
“Todo mundo precisa trazer para si essa responsabilidade.”
Embora indicadores recentes apontem redução nos casos de feminicídio, os números continuam elevados. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) mostram queda de 11,45% nos registros de feminicídio em abril e maio de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025. Foram contabilizadas 232 vítimas, frente a 262 no ano anterior.
Como parte das ações permanentes, o MJSP coordena a Operação Mulher Segura, que mobiliza forças de segurança em todo o país para prevenir feminicídios, fiscalizar medidas protetivas e responsabilizar autores de violência contra mulheres. Nos primeiros 15 dias da segunda edição da operação, iniciada em junho, foram registradas 630 prisões relacionadas à violência de gênero, além do acolhimento de mais de duas mil mulheres.
Violência psicológica deixa marcas invisíveis
Marta relata que demorou anos para reconhecer que vivia em situação de violência doméstica. Casada desde os 23 anos, acreditava estar construindo uma família, mas passou a enfrentar controle financeiro, humilhações, traições e ameaças constantes.
“Eu achava que violência doméstica era só quando a mulher apanhava. Hoje eu sei que a maior ferida é aquela que não se vê.”
Com o agravamento das agressões, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e permaneceu isolada da família por mais de duas semanas.
“Ele meio que me escondeu da minha família nessa época. Se não fosse uma comadre que entrou quando o portão estava encostado e me viu quase morta em cima da cama, minhas irmãs não saberiam da minha situação.”
Após receber apoio da família, buscou atendimento policial, psicológico e jurídico e conseguiu o afastamento do agressor.
Mesmo depois da separação, continuou enfrentando consequências da violência. Segundo ela, o ex-companheiro passou a manipular emocionalmente os filhos.
“Ele começou a mexer muito no psicológico dos meus filhos depois dessa saída. Dizia que estava passando fome, que não tinha onde morar.”
A situação afetou toda a família.
“Foi aí que meu filho de sete anos tentou o suicídio.”
Hoje professora concursada, Marta afirma que compreendeu que a violência não escolhe escolaridade ou profissão.
“Eu pensava que tudo isso tinha acontecido comigo porque eu não tinha estudo, não tinha informação. Mas não. Aconteceu porque eu sou mulher.”
Nos grupos de apoio, encontrou mulheres de diferentes profissões vivendo situações semelhantes.
“Tinham enfermeiras, jornalistas, policiais. Marias feridas, Marias caladas, Marias ofendidas, mas que ainda tinham forças para lutar.”
Ao falar sobre sua reconstrução, resume o processo de superação.
“Eu busquei dentro de mim uma mulher que eu não conhecia. Primeiro pelos meus filhos. Depois chegou um momento em que eu quis viver por mim.”
Recomeço após a violência
A trajetória de Gabriela também foi marcada por anos de agressões físicas, violência sexual e ameaças. A decisão definitiva de deixar o relacionamento ocorreu após descobrir que o companheiro levava o filho do casal para pontos de venda de drogas.
“Foi a gota d’água.”
Ela deixou o interior de São Paulo levando apenas o filho de cinco anos e R$ 600, mudando-se para Campo Grande (MS).
Entre os episódios mais graves, lembra uma tentativa de feminicídio.
“Ele me estrangulou uma vez e eu cheguei a perder a consciência. Só fui salva porque um amigo dele entrou em casa, tirou ele de cima de mim e me salvou. Senão eu não estaria viva.”
Antes da mudança, já havia recorrido à Lei Maria da Penha e permanecido por três meses em um abrigo para mulheres.
Na capital sul-mato-grossense, encontrou acolhimento na Casa da Mulher Brasileira, onde recebeu atendimento psicológico, orientação jurídica e apoio social.
“Graças aos profissionais da casa, eu me reergui psicologicamente e consegui voltar a trabalhar. Eu tinha abandonado tudo, minha profissão, os estudos.”
Mesmo distante do agressor, o medo persistiu durante muito tempo.
“Eu não conseguia abrir o portão da minha casa, ir ao supermercado. Tinha medo dele, mesmo estando a mais de 1.500 quilômetros de distância.”
Cinco anos depois, trabalha como eletricista e continua em acompanhamento psicológico.
“Eu acho que tem que incentivar a mulher a se defender, a ser autossuficiente, a ter autoestima. A gente precisa ter capacidade emocional para se defender.”
Além das medidas de proteção e acolhimento, o Governo Federal também defende a educação como instrumento de prevenção à violência de gênero. Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, o presidente Lula afirmou que o tema deve fazer parte da formação das novas gerações.
“É preciso a gente cuidar com muito carinho. Mas tem que levar para o currículo escolar.”
Segundo o presidente, o debate deve envolver escolas, igrejas, empresas, sindicatos e demais instituições.
“O menino tem que aprender na escola, desde pequeno, que ele não é melhor do que a mulher, que não é superior, que tem que ser igual e aprender a respeitar.”
Também destacou a necessidade de mudança de comportamento entre os homens.
“É preciso mudar o nosso comportamento como homem.”
As histórias de Marta e Gabriela evidenciam que a violência contra as mulheres deixa marcas profundas, mas também demonstram a importância das políticas públicas de proteção, acolhimento e responsabilização dos agressores. Hoje, ambas reconstruíram suas vidas e simbolizam a possibilidade de romper o ciclo da violência.
*Os nomes das entrevistadas foram alterados para preservar suas identidades.


















