Bamberg, Alemanha – Em 5 de julho de 1628, o burgomestre Johannes Junius, prefeito da cidade alemã de Bamberg, confessou aos inquisidores que havia feito um pacto com o demônio e participado de reuniões de satanistas. A confissão, repleta de detalhes sobre aparições demoníacas e rituais, tinha sido arrancada após uma semana de torturas. Em uma carta escrita à filha antes de morrer, Junius revelou que havia inventado toda a história para tentar escapar do sofrimento.
O episódio mostra como funcionava a perseguição às pessoas acusadas de bruxaria na Europa entre a Idade Média e a Idade Moderna. Sob tortura, suspeitos eram obrigados a confirmar as histórias que seus interrogadores queriam ouvir. Depois, precisavam fornecer nomes de supostos cúmplices, alimentando uma cadeia de denúncias que podia atingir famílias e comunidades inteiras.
Junius contou que, durante um passeio por sua propriedade, quando atravessava um período de profunda depressão, encontrou uma criatura que se apresentou inicialmente como uma mulher. O ser se transformou em um bode e o ameaçou de morte caso não se entregasse a ele.
“Deus, me salve disso!”, gritou Junius, segundo a narrativa que apresentou aos inquisidores.
A criatura teria desaparecido, mas retornado acompanhada de outros demônios.
“Agora você sabe com quem está lidando”, teria dito o bode durante a aparição.
Pressionado pela ameaça, Junius afirmou que havia renunciado a Deus e participado de um batismo satânico. Sua narrativa foi aceita pelos interrogadores, mas eles exigiram mais informações: queriam os nomes de outras pessoas envolvidas.
O prefeito acabou denunciando conhecidos e alimentando o mesmo mecanismo que havia contribuído para sua própria condenação. Sua esposa e um amigo já o tinham denunciado anteriormente e também foram executados.
A perseguição em Bamberg continuou por mais três anos. Pelo menos mil pessoas foram executadas na cidade entre 1626 e 1631. A situação começou a mudar quando parte da população passou a questionar os julgamentos e a perceber que ninguém estava protegido contra uma acusação. O ciclo de perseguições terminou em meio à Guerra dos Trinta Anos, quando tropas protestantes invadiram a cidade.
Junius não representava o perfil mais comum das vítimas. Era homem, ocupava um cargo público e tinha posses. A maioria das pessoas executadas por acusações de bruxaria era formada por mulheres, muitas delas pobres, curandeiras ou consideradas inconvenientes por não se submeterem às normas sociais da época.
A perseguição às mulheres e a crise do feudalismo
A imagem da bruxa, associada a mulheres com poderes mágicos e intenções malignas, aparece no folclore de diferentes sociedades, dos povos astecas aos zulus. Na Europa, porém, a perseguição ganhou uma dimensão política e religiosa particular durante as transformações que acompanharam o declínio do feudalismo.
A partir do século 13, o continente passou por um longo processo de migração do campo para as cidades. Revoltas camponesas, mudanças nas relações de trabalho e a substituição gradual de obrigações feudais por relações monetárias alteraram a organização da sociedade.
Com a conquista de maior liberdade por parte dos camponeses, as mulheres também passaram a ocupar espaços que antes estavam mais restritos ao ambiente doméstico. Isso não significava necessariamente melhores condições de vida. A perda das antigas garantias de alimentação e moradia podia aumentar a insegurança material, mas abria possibilidades de trabalho e circulação fora das propriedades familiares.
A historiadora ítalo-americana Silvia Federici analisa essas transformações em Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva. Segundo sua interpretação, a transição do feudalismo para o capitalismo esteve acompanhada de mudanças profundas na posição das mulheres e no controle sobre seus corpos e atividades.
Mulheres passaram a exercer profissões como a de pedreira e até mesmo a de cirurgiã. Também trabalhavam em atividades comerciais e, em muitos casos, na prostituição. Embora frequentemente ocupassem posições inferiores às dos homens, algumas conquistaram maior autonomia e ficaram menos submetidas ao controle familiar e masculino.
Essa mudança entrou em conflito com as estruturas religiosas e sociais que procuravam determinar o comportamento feminino. Mulheres que conheciam plantas medicinais, preparavam remédios, exerciam atividades consideradas impróprias ou simplesmente desobedeciam às normas de comportamento podiam se tornar alvos de suspeitas.
A Igreja Católica já combatia movimentos considerados heréticos muito antes de a bruxaria ocupar lugar central nas perseguições. A Inquisição surgiu no século 12 para combater grupos como os cátaros e os valdenses, acusados de contrariar os ensinamentos oficiais do cristianismo.
As primeiras medidas institucionais foram adotadas em 1184, durante o pontificado de Lúcio III, com a chamada Inquisição Episcopal. Em 1198, o papa Inocêncio III deu início à campanha contra os cátaros, também conhecidos como albigenses. O Tribunal do Santo Ofício, ou Inquisição Papal, foi organizado oficialmente entre 1229 e 1230, durante o pontificado de Gregório IX, no contexto do Concílio de Toulouse.
Em 1320, o papa João XXII incluiu a bruxaria entre as práticas consideradas heréticas. A perseguição ganhou força nos séculos seguintes, especialmente depois da Peste Negra, que matou aproximadamente um terço da população europeia.
Parte das autoridades religiosas interpretou a epidemia como castigo divino pela tolerância a heresias e comportamentos considerados contrários à fé cristã. Nesse ambiente, a magia e as supostas práticas demoníacas passaram a ser associadas às calamidades que atingiam a população.
O livro que ajudou a alimentar a caça às bruxas
Malleus Maleficarum e a perseguição religiosa
A invenção da prensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg costuma ser associada à ampliação do acesso ao conhecimento. Mas a circulação mais ampla de livros também ajudou a disseminar ideias que alimentaram a intolerância religiosa.
Um exemplo foi Malleus Maleficarum, publicado em 1487 pelo clérigo católico Heinrich Kramer. Conhecido como O Martelo das Bruxas, o livro se tornou um dos principais manuais de perseguição às supostas praticantes de bruxaria.
Durante aproximadamente dois séculos, esteve entre os livros mais vendidos da Europa, atrás apenas da Bíblia, segundo o relato apresentado no material histórico que serve de base a esta reportagem.
Kramer reuniu argumentos jurídicos e teológicos para justificar a perseguição, defendeu o uso da tortura para obter confissões e sustentou que as mulheres teriam uma inclinação natural para a bruxaria.
A historiadora Silvia Federici não é a única a discutir a relação entre a perseguição e o controle feminino. O historiador Diarmaid MacCulloch, em Reformation: Europe’s House Divided, relaciona a publicação do livro às tentativas de Kramer de justificar sua própria atuação.
O clérigo havia sido impedido de conduzir um dos primeiros processos contra supostas bruxas na região do Tirol e acabou expulso de Innsbruck. Após recorrer ao papa Inocêncio VIII, conseguiu uma bula, a Summis Desiderantes Affectibus, publicada em 1484, que lhe concedia autorização para atuar na Alemanha.
A publicação do Malleus Maleficarum contribuiu para tornar mais severa a perseguição. Autoridades católicas e protestantes utilizaram o livro como referência em julgamentos e condenações.
É importante distinguir, porém, a atuação da Igreja da responsabilidade dos governos. O manual não era utilizado exclusivamente por inquisidores. Também circulava entre tribunais seculares, especialmente durante a Renascença.
Em grande parte da Europa, quem executava as pessoas condenadas por bruxaria eram as autoridades civis. Os governos dos territórios alemães, da Espanha e de Portugal, entre outros, tinham responsabilidade pelas execuções. Nos Estados Papais, onde a Igreja também exercia o poder político e administrativo, a Inquisição podia conduzir diretamente as execuções.
Um exemplo conhecido foi o do filósofo e teólogo Giordano Bruno, queimado em Roma, em 1600.
Sexo, religião e o estereótipo da bruxa
A sexualidade feminina como instrumento de acusação
A perseguição não se limitava à suspeita de negar Cristo ou manter relações com o demônio. As acusações também exploravam os tabus sexuais de uma sociedade profundamente marcada pela moral religiosa.
Entre os séculos 14 e 17, era comum que mulheres acusadas de bruxaria fossem interrogadas sobre supostas relações sexuais com demônios. Os juízes exigiam descrições minuciosas dos atos, e as respostas, muitas vezes produzidas sob tortura, alimentavam relatos cada vez mais grotescos.
O historiador David M. Friedman aborda a relação entre sexualidade, moral e cultura em A Mind of Its Own: A Cultural History of the Penis. As acusações sexuais faziam parte de um sistema que associava a autonomia feminina ao pecado e à influência demoníaca.
Curandeiras, mulheres que não obedeciam aos maridos ou aos pais, pessoas consideradas mentalmente perturbadas e aquelas que simplesmente contrariavam os padrões de comportamento podiam ser denunciadas. Em muitos casos, bastavam inveja, ciúme, desavenças pessoais ou a necessidade de um acusado fornecer nomes de supostos cúmplices para que outra pessoa se tornasse alvo dos tribunais.
Até elementos que hoje fazem parte da representação popular das bruxas foram incorporados aos processos judiciais. É o caso da vassoura, frequentemente associada à capacidade de voar.
A explicação apresentada no material histórico está relacionada ao uso de unguentos preparados com plantas alucinógenas e venenosas, como mandrágora, beladona e figueira-do-diabo. Essas substâncias eram associadas a práticas medicinais e rituais noturnos.
No julgamento da nobre irlandesa Alice Kyteler, em 1324, apareceram acusações de que mulheres untavam cabos de vassoura com essas preparações e os utilizavam em rituais. Também havia relatos de aplicação dos unguentos nas axilas e em outras partes do corpo.
A acusação, porém, não era uma curiosidade folclórica sem consequências. Alice Kyteler foi condenada à morte na fogueira.
Tortura, julgamentos e execuções em massa
Quando a acusação já significava uma condenação
O livro European Witch Trials: Their Foundations in Popular and Learned Culture, do historiador Richard Kieckhefer, reúne registros de julgamentos que mostram a dimensão da perseguição.
Na cidade francesa de Toulouse, aproximadamente 600 pessoas foram acusadas de bruxaria entre 1320 e 1350. Desse total, 400 teriam sido condenadas e executadas. Na vizinha Carcassonne, no mesmo período, 400 pessoas foram julgadas e 200 acabaram mortas.
Além da tortura física, os tribunais recorriam a procedimentos apresentados como métodos para identificar bruxas. Um dos mais conhecidos era o teste da água.
A pessoa suspeita era levada a um rio ou lago, despida, amarrada e lançada na água. Se flutuasse, era considerada culpada. Se afundasse, os responsáveis pelo teste poderiam tentar retirá-la, mas o procedimento frequentemente resultava em morte.
A justificativa religiosa era que as bruxas haviam rejeitado o batismo e, por isso, seriam repelidas pela água. Outra explicação dizia que tinham um peso corporal inferior ao normal. Daí surgiu também o chamado teste do peso, no qual a pessoa poderia ser condenada por ser considerada leve demais.
Na Alemanha, entre o final do século 16 e o início do 17, ocorreram algumas das maiores ondas de execuções por acusações de bruxaria.
Além das pelo menos mil pessoas mortas em Bamberg entre 1626 e 1631, outras mil foram executadas em Trier entre 1581 e 1593. Em Fulda, 250 pessoas morreram entre 1603 e 1606. Em Würzburg, foram aproximadamente 900 execuções entre 1626 e 1631.
Os números mostram que não se tratava apenas de episódios isolados de intolerância. Em determinadas regiões, a perseguição assumiu proporções de extermínio, atingindo comunidades inteiras.
O Iluminismo e o fim das execuções por bruxaria
A partir do século 18, a caça às bruxas passou a ser denunciada por pensadores iluministas como exemplo dos abusos cometidos em nome da religião e da superstição.
A crítica ao poder religioso, a defesa da razão e a contestação dos métodos judiciais contribuíram para enfraquecer a legitimidade dessas perseguições. Ainda assim, as acusações não desapareceram imediatamente.
Um dos últimos casos conhecidos de execução ocorreu na Suíça, em 1782, com Anna Göldi, e não em 1784, como aparece em algumas narrativas sobre o episódio.
Empregada doméstica de Jakob Tschudi, Göldi foi acusada de fazer aparecer fragmentos de vidro e agulhas no pão e no leite da filha de seu patrão. Durante o processo, sob tortura, teria confessado um pacto com o demônio, supostamente manifestado na forma de um cachorro preto.
A acusação formal, entretanto, foi de envenenamento, e não de bruxaria. A legislação não previa pena de morte para a tentativa de envenenamento, mas Göldi acabou executada.
O episódio ocorreu em uma Europa que já vivia sob forte influência do pensamento iluminista. David Hume havia morrido em 1776, Voltaire e Rousseau em 1778, Jean le Rond d’Alembert em 1783 e Denis Diderot em 1784. Esses pensadores contribuíram, por caminhos diferentes, para a crítica à autoridade religiosa e para a formação do pensamento moderno e secular.
O poder territorial da Igreja também enfrentaria mudanças. Em 1798, os Estados Papais foram ocupados pelas tropas francesas. Restaurados em 1800, voltaram a ser invadidos durante as guerras napoleônicas, em 1808.
O número total de pessoas mortas por acusações de bruxaria continua sendo objeto de debate entre historiadores. As estimativas variam conforme os períodos, territórios e registros considerados.
O historiador William Monter, da Universidade Northwestern, defende uma estimativa de aproximadamente 35 mil mortes. Já a historiadora Anne Llewellyn Barstow, em seu livro Witchcraze, publicado em 1994, chegou à cifra de 100 mil vítimas.
A diferença entre os números revela também as dificuldades de reconstruir uma perseguição que atravessou séculos e envolveu tribunais, autoridades religiosas e governos de diferentes regiões europeias.
As bruxas existiam?
A existência de pessoas que praticavam rituais, utilizavam plantas medicinais, preparavam substâncias tóxicas ou acreditavam em poderes sobrenaturais não significa que as acusações feitas pelos tribunais fossem verdadeiras.
Havia grupos que realmente defendiam crenças consideradas satânicas. Um dos exemplos mencionados nos estudos sobre o período é o dos luciferianos, movimento surgido na Alemanha do século 13 e associado a ideias derivadas de correntes religiosas dissidentes. Seus integrantes acreditavam que Satã havia sido injustiçado e representava o lado bom do conflito com Deus.
Também existiam alquimistas, estudiosos de práticas mágicas e pessoas que utilizavam grimórios, livros de fórmulas e invocações que circulavam pela Europa. O Grimório de Honório, atribuído a um papa e datado do século 13, ensinava supostamente a invocar demônios e a escapar do purgatório.
A diferença social entre esses praticantes e as mulheres acusadas de bruxaria era significativa. Alquimistas costumavam ser homens, ricos, instruídos e próximos dos centros de poder. Muitos trabalhavam como conselheiros de reis e autoridades religiosas, apresentando suas atividades como formas de investigação e manipulação dos fenômenos naturais.
As mulheres perseguidas, por outro lado, frequentemente pertenciam às camadas populares. Conheciam plantas, preparavam remédios, realizavam rezas e mantinham práticas transmitidas entre gerações. Muitas sequer compreendiam por que seus conhecimentos poderiam ser interpretados como adoração ao demônio.
Assim como os alquimistas, a maioria provavelmente se considerava cristã. Algumas pessoas, homens e mulheres, podiam utilizar conhecimentos sobre substâncias venenosas para prejudicar outras. Isso, entretanto, não justificava a transformação de crenças, práticas populares e conflitos pessoais em acusações de pacto satânico.
A história da caça às bruxas mostra como o medo, a intolerância religiosa e o poder institucional puderam se combinar para perseguir pessoas sem provas. Mostra também como mulheres que buscavam autonomia, trabalhavam fora das estruturas familiares ou preservavam conhecimentos tradicionais se tornaram alvos de uma ordem social que procurava controlar seus comportamentos.
A figura da bruxa que sobreviveu no imaginário popular nasceu, em grande parte, dessa mistura de crenças, preconceitos, interesses políticos e violência. Por trás das histórias de demônios e feitiços, estavam pessoas reais, submetidas a torturas, julgamentos arbitrários e execuções.


