*Editorial Fronteira Livre
No Brasil de 2025, milhares de mulheres continuam vivendo sob a ameaça permanente da violência. Algumas carregam marcas visíveis no corpo. Outras convivem diariamente com agressões psicológicas, humilhações, perseguições e ameaças que raramente aparecem nas estatísticas. Muitas delas morrerão antes que a sociedade reconheça os sinais que estavam diante de todos.
Durante décadas, o país repetiu um dos ditados mais perversos de sua cultura: “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. A frase parece inofensiva, mas ajudou a construir uma das mais eficientes engrenagens de proteção aos agressores. Ela ensinou vizinhos a se calarem, parentes a fingirem não ver, amigos a não se envolverem e instituições a tratarem a violência doméstica como um problema privado.
O resultado dessa omissão está diante dos nossos olhos. O Brasil permanece entre os países com maiores índices de feminicídio do mundo. A cada nova vítima, a sociedade demonstra indignação. Mas a indignação costuma chegar tarde. Ela aparece depois da agressão, depois da denúncia ignorada, depois da medida protetiva descumprida e, muitas vezes, depois do assassinato.
O feminicídio começa muito antes do crime
Existe um erro recorrente quando se discute violência contra a mulher: imaginar que o feminicídio nasce no momento em que o agressor aperta o gatilho, desfere uma facada ou tira uma vida. A verdade é muito mais incômoda.
O feminicídio começa muito antes.
Começa quando meninos são educados para acreditar que controlar é uma demonstração de amor. Começa quando o ciúme é romantizado. Quando a posse é confundida com afeto. Quando a autonomia feminina é tratada como ameaça e a independência da mulher passa a ser vista como desafio à autoridade masculina.
A violência física representa apenas o estágio final de um processo que frequentemente começa com controle, vigilância, humilhações, chantagens emocionais, isolamento social e ameaças.
Nenhuma mulher permanece em uma relação abusiva porque gosta de sofrer. Elas permanecem porque enfrentam medo, dependência econômica, pressão familiar, ausência de apoio institucional e o receio legítimo de que a violência aumente ao tentar sair da relação.
É justamente nesse momento que a sociedade costuma fracassar.
Em vez de perguntar por que o agressor agride, muitos preferem questionar por que a vítima permaneceu. Em vez de discutir as estruturas que produzem a violência, investiga-se o comportamento da mulher. Analisa-se sua roupa, suas escolhas, seus horários e suas decisões pessoais. O agressor desaparece do centro da discussão e a vítima passa a ocupar o banco dos réus.
A cultura da posse continua matando
Grande parte dos feminicídios ocorre após o término de relacionamentos ou diante da tentativa da mulher de exercer sua autonomia. Não se trata de amor. Não se trata de paixão. Muito menos de descontrole emocional.
Trata-se de posse.
O agressor não aceita perder aquilo que acredita lhe pertencer. A mulher deixa de ser percebida como sujeito de direitos e passa a ser tratada como propriedade. Quando ela decide encerrar uma relação, reconstruir a própria vida ou simplesmente dizer “não”, desafia uma lógica construída durante gerações.
Essa lógica continua presente em diferentes espaços da sociedade. Ela atravessa classes sociais, religiões, níveis de escolaridade e regiões do país. Está presente tanto nas periferias quanto nos bairros mais ricos. Não escolhe endereço nem renda. A violência contra a mulher é democrática apenas em sua capacidade de atingir todas as camadas da população.
Os episódios recentes que ganharam repercussão nacional ajudam a compreender como essa violência assume diferentes formas. Em alguns casos ela aparece como agressão física direta. Em outros, manifesta-se por meio do assédio, da perseguição, da intolerância ou da tentativa de controlar corpos, comportamentos e identidades femininas.
O elemento comum é sempre o mesmo: a crença de que determinadas mulheres podem ser submetidas, corrigidas, disciplinadas ou punidas.
O problema não é privado. É coletivo.
Uma das maiores vitórias do movimento de defesa dos direitos das mulheres foi demonstrar que a violência doméstica não é um assunto privado.
Ela produz impactos sobre famílias inteiras. Afeta crianças que crescem em ambientes marcados pelo medo. Sobrecarrega os sistemas de saúde, assistência social e segurança pública. Produz traumas duradouros e gera custos humanos e econômicos que recaem sobre toda a sociedade.
Quando uma mulher é agredida dentro de casa, não estamos diante de um conflito doméstico comum. Estamos diante da violação de direitos fundamentais.
Por isso, combater a violência exige muito mais do que punição. A responsabilização dos agressores é indispensável, mas não basta. É necessário enfrentar as raízes culturais do problema.
Isso significa promover educação para igualdade de gênero, fortalecer políticas públicas de proteção, ampliar a rede de acolhimento às vítimas e garantir que medidas protetivas sejam efetivamente cumpridas. Significa também romper com a cultura da omissão que ainda protege agressores e isola mulheres em situação de risco.
A Lei Maria da Penha estabelece que a proteção das mulheres é responsabilidade da família, da sociedade e do Estado. Não por acaso. A violência prospera quando encontra silêncio.
Quando vizinhos ignoram gritos. Quando amigos fingem não perceber sinais evidentes de abuso. Quando familiares aconselham a vítima a “ter paciência”. Quando autoridades minimizam denúncias. Quando escolas evitam discutir igualdade e respeito. Quando a sociedade decide não se envolver.
É nesse terreno que a violência cresce.
O feminicídio não é resultado apenas da ação de um agressor. Ele também é consequência de uma cultura que normaliza o controle, relativiza a violência e ensina que determinados sofrimentos femininos devem permanecer invisíveis.
O machismo mata. Mas quase sempre encontra um aliado silencioso pelo caminho.
E é justamente por isso que precisamos meter a colher.
Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.




















