*Editorial Fronteira Livre
Antes de qualquer julgamento sobre a Revolução Cubana, é necessário responder a uma pergunta que raramente aparece nos debates contemporâneos: o que era Cuba antes de 1959?
No primeiro editorial desta série, o Fronteira Livre discutiu os impactos do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos à ilha e como essa política continua influenciando a vida dos cubanos até hoje. Mas para compreender a história de Cuba, é preciso voltar algumas décadas e observar a realidade que antecedeu a chegada de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos e dos guerrilheiros da Sierra Maestra. Afinal, nenhuma revolução nasce do vazio. Nenhum povo enfrenta um exército, desafia uma ditadura e arrisca a própria vida sem razões profundas.
A história da Cuba anterior à Revolução costuma ser apresentada de forma seletiva. Muitos dos que condenam o processo revolucionário descrevem os anos de Fulgêncio Batista como uma era de prosperidade, modernização e crescimento econômico. Fotografias de hotéis luxuosos, cassinos iluminados, automóveis importados e espetáculos grandiosos ajudaram a construir a imagem de uma Havana sofisticada, cosmopolita e moderna. Mas o brilho das luzes escondia outra realidade.
Enquanto empresários norte-americanos, celebridades, mafiosos e turistas desembarcavam na ilha em busca de diversão, milhões de cubanos viviam na pobreza. No campo, comunidades inteiras conviviam com o analfabetismo, a falta de assistência médica e a ausência de serviços básicos. A riqueza produzida por Cuba concentrava-se em poucos grupos econômicos e em setores fortemente vinculados ao capital estrangeiro.
Mais do que uma simples relação comercial, Cuba havia se transformado em uma economia profundamente dependente dos Estados Unidos. Grandes extensões de terra estavam sob controle de empresas norte-americanas. O açúcar, principal produto da economia cubana, era amplamente dominado por interesses estrangeiros. Empresas dos Estados Unidos controlavam setores estratégicos da infraestrutura, dos transportes, dos serviços públicos e do comércio exterior. Embora formalmente independente, a ilha vivia uma condição que muitos estudiosos definiram como uma forma de colonização econômica.
Pouco antes da Revolução, o historiador Arthur Schlesinger Jr., que posteriormente se tornaria assessor do presidente John Kennedy, visitou Cuba e descreveu uma realidade distante da propaganda oficial. Segundo ele, Havana havia sido transformada em um grande cassino e prostíbulo voltado aos interesses de visitantes norte-americanos. Sua observação não se limitava aos cassinos. Chamava atenção para a humilhação social, a exploração da pobreza e a transformação de parte da população cubana em peça de uma indústria de entretenimento construída para servir interesses externos.
O próprio Kennedy reconheceria anos mais tarde essa realidade ao afirmar que poucos países haviam experimentado um nível tão profundo de exploração econômica e humilhação associado à política norte-americana quanto Cuba durante o regime de Batista.
Mas a dependência econômica era apenas uma parte do problema. Nas décadas de 1940 e 1950, Havana tornou-se um dos principais centros de operação da máfia ítalo-americana fora dos Estados Unidos. Nomes como Meyer Lansky, Lucky Luciano, Santo Trafficante, Vito Genovese e Frank Costello encontraram na ilha um ambiente ideal para expandir seus negócios. Sob proteção política e institucional, cassinos, casas de apostas, esquemas de lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e redes de prostituição movimentavam milhões de dólares.
O famoso Hotel Nacional de Havana transformou-se em ponto de encontro de algumas das famílias mafiosas mais poderosas da América do Norte. Enquanto a população cubana enfrentava dificuldades cotidianas, a capital convertia-se em um grande centro de diversão para milionários, apostadores, criminosos e turistas estrangeiros.
A exploração sexual tornou-se uma das expressões mais cruéis desse modelo. Pesquisadores, jornalistas e observadores da época registraram a existência de uma ampla indústria da prostituição associada ao turismo. Mulheres pobres eram empurradas para esse mercado pela desigualdade social, mas a realidade era ainda mais dura. Adolescentes e meninas também apareciam entre as vítimas de um sistema que transformava vulnerabilidade em lucro. Para milhares de famílias cubanas, a pobreza deixava de ser apenas uma condição social e passava a alimentar uma economia baseada na exploração humana.
Não se tratava apenas de turismo. Não se tratava apenas de cassinos. Tratava-se da transformação de um país inteiro em plataforma de negócios para grupos econômicos, organizações criminosas e interesses estrangeiros. A pobreza produzia mão de obra barata. A desigualdade alimentava a prostituição. A dependência econômica garantia os lucros. E a repressão política assegurava a estabilidade necessária para manter o sistema funcionando.
Fulgêncio Batista governava por meio de uma ditadura marcada por perseguições, censura, prisões arbitrárias, torturas e assassinatos. Movimentos populares eram reprimidos. Sindicatos sofriam perseguições. A oposição era tratada como caso de polícia. O crescimento econômico exibido nas propagandas oficiais convivia com o medo, a desigualdade e a ausência de participação democrática.
É nesse contexto que a Revolução Cubana precisa ser compreendida. Ela não surgiu porque um grupo de guerrilheiros decidiu tomar o poder por capricho ideológico. Surgiu porque amplos setores da sociedade cubana enxergavam naquele sistema uma estrutura incapaz de responder às necessidades da maioria da população. Surgiu porque a prosperidade celebrada nos cassinos não chegava aos campos.
Surgiu porque o luxo vendido ao mundo escondia uma sociedade marcada pela desigualdade. Enquanto cassinos, hotéis e negócios ligados à máfia acumulavam fortunas, milhões de cubanos permaneciam excluídos dos benefícios daquela riqueza. Ao mesmo tempo, a soberania nacional coexistia com uma profunda dependência econômica e política em relação aos Estados Unidos, que exerciam influência direta sobre setores estratégicos da economia e sobre os rumos do país.
A Revolução foi, antes de tudo, uma resposta a uma realidade marcada pela concentração de riqueza, pela submissão aos interesses norte-americanos, pela influência da máfia, pela exploração sexual, pela violência estatal e pela exclusão social. É impossível compreender por que milhares de cubanos apoiaram a derrubada de Batista sem compreender a dimensão dessas contradições.
Ao longo das décadas, os debates sobre Cuba passaram a concentrar-se quase exclusivamente nos resultados, acertos e erros do processo revolucionário. Mas ignoram frequentemente a pergunta que antecede qualquer análise séria sobre a história da ilha.
O que existia antes da Revolução?
A resposta incomoda porque desmonta uma narrativa construída durante décadas. A Revolução Cubana não derrubou um paraíso democrático, próspero e igualitário. Derrubou um país profundamente desigual, governado por uma ditadura, submetido a interesses estrangeiros e convertido, em grande medida, em cassino, prostíbulo e plataforma de negócios para a máfia e para setores do capital norte-americano.
É essa parte da história que costuma desaparecer quando Cuba entra no debate público. E talvez seja justamente por isso que ela continue precisando ser lembrada.
Este é o segundo editorial de uma série especial do Fronteira Livre sobre Cuba, sua história, suas transformações e os conflitos geopolíticos que marcaram a ilha ao longo do último século.
No próximo e último editorial previsto nesta série, analisaremos a Cuba que surgiu após a Revolução de 1959. O texto abordará as mudanças promovidas pelo novo governo, os impactos sociais da reforma agrária, os avanços na educação e na saúde, os desafios econômicos enfrentados pela ilha e as consequências de décadas de bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.
*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.



















