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Mãe solo denuncia demissão por motivo político em bar de Belém

Proprietário enviou áudios associando saída ao resultado eleitoral; Pará e Amapá somam dezenas de denúncias de assédio eleitoral.

Movimento comercial na capital paraense em meio ao avanço de investigações sobre perseguição política a empregados no estado. Tomaz Silva/Agência Brasil/Imagem ilustrativa

Belém, PA – Uma atendente freelancer do bar Bodega, localizado no bairro da Cremação, denunciou ter sido dispensada do trabalho por motivação política logo após o segundo turno das eleições presidenciais. Mãe solo de três filhos — sendo um deles com deficiência —, ela dependia da renda noturna para sustentar a família e aponta retaliação direta do proprietário do estabelecimento por suas convicções políticas.

A trabalhadora atuava no bar há cerca de três meses, na Avenida Conselheiro Furtado, com folgas apenas às segundas-feiras. Ao procurar o patrão na terça-feira (27) para confirmar os dias de escala da semana, recebeu como resposta uma negativa ligada à vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva:

“Ele falou: ‘Não, o Lula vai ajudar você. Ele não gosta de micro empresário’.”

Em mensagens de áudio, o empresário afirmou que a conjuntura política inviabilizaria os negócios e cortaria vagas de emprego:

“As pessoas ficam desempregadas, entendeu? Se a gente não tem recurso, a gente não pode dar recurso para o empregador. Aí o que acontece? As lojas fecham. Aí o que acontece? A pessoa fica recebendo auxílio e não tem uma segunda opção. Ou vai traficar ou vai roubar.”

Na sequência, o comerciante justificou a interrupção das diárias dizendo que a pressão financeira recairia sobre quem trabalha no local:

“O Lula não gosta de micro, ele não gosta de empresário. De onde a gente tem que tirar para pagar os funcionários? Quando ele tira, se ele tira de mim, ele tira de ti também. Aí é mais ou menos isso.”

Após o envio das gravações, o proprietário publicou ataques a eleitores de esquerda na internet e declarou que não contrataria mais pessoas com esse perfil. A atendente, que pediu para não ter o nome divulgado por segurança, rebateu os argumentos e afirmou que o encerramento do serviço não teve relação com seu desempenho profissional:

“Eu sei que ele deixou de me contratar por isso, porque eu sei que eu sou uma boa funcionária. Inclusive, eu tenho várias mensagens dele me elogiando e tudo mais.”

A trabalhadora explicou que só expôs sua posição porque foi questionada diretamente pelo patrão durante o período de campanha:

“Ele gostava do meu trabalho, tanto que eu ia todos os dias. Eu não ia na segunda porque eu tirava a segunda pra ficar com meus filhos.”

“Como sou mãe atípica e mãe solo, só posso trabalhar à noite porque tenho que passar o dia dando suporte pro meu filho. Sou mãe de três filhos. Não posso deixar de trabalhar porque tenho que sustentá-los.”

Natural de Manaus, ela relatou que suas escolhas políticas refletem a infância pobre na capital amazonense e que a conversa anterior no trabalho causou incômodo no empregador, que apoiava abertamente candidatos de direita:

“Eu sou de Manaus, eu não tive uma infância tão boa. Então é claro que eu sempre vou pender mais pela esquerda por conta das minhas vivências mesmo. Não tem como eu ser de direita. Isso é normal, não interfere no trabalho.”

A reportagem procurou o sócio do Bodega Prime em seu telefone pessoal antes da publicação, mas não houve retorno. Na quinta-feira (29), às 9h, um gerente do bar negou que a atendente tenha sido dispensada e declarou que a matéria prejudica a imagem do comércio.

O episódio ocorre em meio a postagens públicas de incentivo a demissões políticas na capital paraense. Na segunda-feira (26), a vereadora de Belém Patrícia Queiroz (PP), pastora evangélica, compartilhou publicações que sugeriam a patrões demitir funcionários simpáticos ao petista.

Uma das postagens compartilhadas partiu de Victor Ruiz (PP), candidato derrotado a deputado federal por São Paulo, que recomendava a verificação de redes sociais e fotos de trabalhadores fazendo o gesto da letra “L”:

“Não faz sentido nenhum manter na tua empresa quem odeia empresários.”

A parlamentar também republicou um vídeo de Raphael Hanzol, da empresa Avelloz, intitulado “Vou demitir a minha melhor funcionária”, no qual uma colaboradora era comparada a uma “fruta podre” e a um tumor por discordâncias políticas.

Na terça-feira (27), o Ministério Público do Trabalho no Pará e no Amapá (MPT PA-AP) confirmou a abertura de investigação contra Patrícia Queiroz por suposta discriminação no trabalho. A vereadora Vivi Reis (PSOL) também pediu ao órgão ministerial a apuração de perseguições a eleitores e cobrou canais específicos para denúncias.

O Ministério Público do Trabalho adverte que o assédio eleitoral no trabalho é crime. A infração ocorre quando alguém usa sua autoridade patronal para coagir, pressionar ou constranger subordinados a votar, anular o voto ou apoiar determinado grupo partidário. Até segunda-feira (26), o MPT contabilizou 1.937 denúncias do tipo em todo o país. No Pará e no Amapá, foram 88 registros desde o início da campanha eleitoral, sendo 75 em solo paraense e 13 no amapaense.

O Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8) apontou que represálias e demissões ferem a liberdade de voto e as garantias fundamentais da cidadania. A presidente do TRT-8, desembargadora Maria Valquíria Norat Coelho, orientou a busca por suporte legal:

“As ameaças de perda do emprego motivadas pelo exercício desse direito não encontram amparo legal. Por isso, é importante que trabalhadores e trabalhadoras reconheçam essas situações e saibam que podem buscar proteção junto às instituições competentes.”

O tribunal e o Ministério Público orientam os trabalhadores a guardar gravações, mensagens e comprovantes de pressão política para apresentar denúncias aos sindicatos, no site ou no aplicativo do MPT.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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