Brasília, DF – Antes do fechamento das seções eleitorais deste domingo (25), parlamentares e aliados de Flávio Bolsonaro (PL) abriram uma ofensiva contra a legitimidade da votação e indicaram que pretendem contestar o resultado se o candidato for derrotado. A reação começou depois que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), estendeu o horário de votação até as 19h por causa de falhas e retenções no transporte coletivo.
A decisão provocou ataques imediatos de nomes do bolsonarismo, incluindo condenados pela Justiça brasileira que vivem nos Estados Unidos. Entre os principais articuladores da contestação estão o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem.
Eduardo tem pena de quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo e mandado de prisão expedido pelo STF. Ramagem foi condenado a 16 anos por envolvimento na trama golpista de 2022 e deixou o país, desrespeitando ordem judicial.
A postura mais agressiva veio do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que publicou vídeo com tom de ameaça e prometeu protocolar um pedido de impeachment contra Zanin. Ao ser questionado se o PL vai judicializar a disputa caso Flávio perca, declarou:
“Tem alguma dúvida?”
Em outra gravação, o parlamentar mineiro colocou a lisura do pleito em xeque:
“Ou a gente ganha. Ou a gente ganha. Tá avisado.”
O deputado federal eleito Lucas Pavanato (PL-SP) também publicou vídeo contra a extensão do horário, afirmando que a medida alteraria o resultado e que não aceitaria o que chamou de golpe.
Em transmissão feita de Miami, ao lado do comentarista Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem reforçaram as suspeitas sobre a integridade da votação. Eduardo declarou que a decisão judicial trazia desconfiança:
“Cheiro de queimado”
Ramagem defendeu que resultados vistos como incorretos devem ser contestados nas instâncias cabíveis. O ex-chefe da Abin disse que pretende retornar ao Brasil se Flávio vencer, apostando em anistia política ou na anulação de sua sentença penal.
Enquanto aliados de Flávio espalhavam teses de fraude nas redes, eleitores enfrentavam problemas para chegar aos locais de votação. A liminar de Zanin tentou conter o impacto do desfalque na frota de ônibus, mas foi emitida quando várias seções já encerravam os trabalhos.
Em Salvador, a Justiça Eleitoral determinou o funcionamento total da frota de ônibus e expediu ordem de prisão contra o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, após denúncias de que veículos ficaram retidos nas garagens para restringir o deslocamento da população.
A diferença nos horários gerou divergências entre mesários nos estados. Mensagens enviadas a equipes eleitorais mostram a indefinição nos colégios:
Pessoal, boa tarde. A informação repassada pelo juiz é a seguinte: “urnas encerradas, não há mais o que fazer, mas as escolas que ainda estiverem como habilitar o eleitor podem deixar votar.”
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que o horário ampliado valia apenas para as seções ainda abertas, sem reabertura de urnas já lacradas, e que a apuração começaria após as 19h.
Os ataques à Justiça Eleitoral ignoram um fato concreto da disputa: a própria equipe jurídica de Flávio Bolsonaro havia entrado com pedido formal no TSE para prorrogar o horário em municípios castigados por chuvas e inundações.
O contraste entre a solicitação protocolada pela campanha e o discurso bélico nas redes expõe a estratégia política de descredibilizar as urnas antes da contagem oficial, colocando barreiras ao direito de voto e criando terreno para contestações institucionais.
Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.
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