São Paulo, SP – A Polícia Militar de São Paulo matou 111 detentos e feriu outros 110 durante a invasão à antiga Casa de Detenção, no maior massacre da história do sistema prisional brasileiro. O confronto começou após uma briga entre facções rivais. Naquele dia, o complexo abrigava mais de 7 mil homens em nove pavilhões, funcionando com mais que o dobro da capacidade oficial, que era de 3.250 vagas.
Com a rebelião em andamento, os agentes penitenciários chamaram a PM. O governador Luiz Antonio Fleury Filho estava no interior do estado quando recebeu o aviso. Por volta das 15h, o secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, autorizou a tropa a entrar no presídio.
A operação foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães. Em vez de recorrer a bombas de efeito moral ou balas de borracha para conter os presos, a PM entrou com fuzis, metralhadoras e munição real. A energia elétrica da Casa de Detenção foi cortada e os policiais avançaram atirando no escuro. Homens que tentavam se abrigar dentro das celas foram baleados e mortos mesmo depois de tirarem as roupas para provar que estavam desarmados. Corpos foram achados algemados e com as mãos sobre a cabeça.
A incursão durou cerca de 20 minutos. Nenhum policial morreu. Depois dos tiros, os sobreviventes tiveram que ficar deitados nus no chão do pátio durante horas. Carcereiros que entraram no pavilhão logo após a ação relataram pilhas de corpos mutilados, focos de incêndio nas celas, detentos feridos pedindo socorro e corredores cobertos por sangue e água de canos rompidos.
O governo Fleury escondeu a real dimensão dos assassinatos por mais de 24 horas. Inicialmente, o estado confirmou apenas oito mortes à imprensa. O balanço de 111 executados só veio a público na tarde do dia seguinte, minutos antes do fechamento das urnas nas eleições municipais. A gestão estadual atrasou a divulgação para não prejudicar o desempenho nas urnas do candidato apoiado pelo PMDB, partido do governador.
A Justiça levou 21 anos para concluir o julgamento do caso, em 2014, após 12 meses de júri popular: 73 policiais militares foram condenados pela morte de 77 detentos, com penas que variam de 48 a 624 anos de prisão. Todos puderam recorrer em liberdade. O comandante da ação, Ubiratan Guimarães, já havia sido condenado a 632 anos, mas o julgamento acabou anulado pela própria Justiça. Ele foi assassinado em 2006, sem que a polícia esclarecesse a autoria do crime. A Casa de Detenção foi implodida em 2002 e o terreno virou o Parque da Juventude.


