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Vacina contra o HPV é liberada a partir dos 2 anos em casos de abuso

Notificações de abuso infantil cresceram mais de quatro vezes em uma década e levaram governo federal a reduzir idade mínima no SUS.

Decisão técnica busca conter infecções graves e cânceres decorrentes de violência sexual sofrida recorrentemente na infância. Foto: Shutterstock/KT Stock Photos

Brasília, DF – Vítimas de violência sexual a partir de 2 anos de idade passam a ter indicação para receber a vacina contra o HPV no Sistema Único de Saúde (SUS). A mudança foi oficializada pelo Ministério da Saúde em nota técnica divulgada esta semana. Até a publicação da nova diretriz, o imunizante era orientado apenas para pessoas entre 9 e 45 anos que haviam sofrido abuso sexual.

A decisão de estender a proteção a crianças menores decorre do avanço dos registros de abusos e da extrema fragilidade desse público. Conforme a pasta, o número de casos notificados envolvendo menores de 9 anos cresceu no país, exigindo uma barreira clínica imediata contra o papilomavírus humano.

Os indicadores mais graves levantados pelo Ministério da Saúde concentram-se na primeira infância, período que vai de 0 a 4 anos. Em um intervalo de dez anos, as notificações nessa faixa etária mais do que quadruplicaram no território nacional: saltaram de 1.671 registros no início da série para 7.845 casos ao final da década analisada.

O cenário de violência também se agravou entre as faixas etárias seguintes no mesmo período de dez anos. Entre meninas e meninos de 5 a 14 anos, os registros subiram de 6.594 para 29.135 casos — uma alta de aproximadamente 4,4 vezes. Já no grupo de adolescentes de 15 a 19 anos, as ocorrências notificadas passaram de 1.632 para 6.869, o que representa um crescimento superior a quatro vezes.

O ministério explicou no documento que o HPV configura um problema grave de saúde pública em escala global, tanto pela ampla circulação do vírus quanto pela relação direta com o surgimento de múltiplos tipos de câncer. A infecção crônica atinge diretamente o colo do útero, pênis, vulva, vagina, canal anal e orofaringe, além de provocar o aparecimento de verrugas anogenitais e lesões nas vias aéreas superiores, com forte impacto clínico, emocional e econômico.

De acordo com o texto da pasta, a agressão sexual precoce agrava a exposição a infecções sexualmente transmissíveis:

“A violência sexual na infância está associada a maior vulnerabilidade para aquisição de infecções sexualmente transmissíveis (IST), incluindo o HPV. Além do risco imediato decorrente da exposição inicial, há evidências de recorrência da violência em parcela dessas vítimas, ampliando o potencial de exposição futura ao vírus.”

A nota técnica ressaltou ainda os efeitos prolongados do trauma sobre o bem-estar e o comportamento dessas crianças e adolescentes ao longo dos anos:

“Adicionalmente, estudos demonstram que vítimas de violência sexual apresentam maior risco de desenvolver problemas emocionais, transtornos mentais, dificuldades de aprendizagem, comportamento sexual de risco e outras condições que podem aumentar sua suscetibilidade às IST ao longo da vida”, concluiu a nota.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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