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Canetas emagrecedoras elevam procura por carnes, ovos e leite

Pesquisa mostra que 57% dos usuários de remédios para perder peso buscam proteínas, impulsionando a avicultura, o leite e a carne a pasto.

Produção de aves no interior do Paraná atende à procura de consumidores por proteínas de alto valor nutricional. Foto: Sistema Faep.

Curitiba, PR – A busca acelerada por canetas emagrecedoras como Ozempic e Mounjaro começou a mexer diretamente na mesa dos brasileiros e na rotina produtiva do campo no Paraná. Com o apetite reduzido e o alerta médico para evitar a perda severa de massa muscular, quem usa os medicamentos injetáveis está cortando ultraprocessados e exigindo mais alimentos ricos em proteína natural. Essa guinada de consumo atinge desde pequenos aviários até a seleção genética de rebanhos leiteiros e de corte no estado.

Um levantamento da empresa de benefícios Pluxee, feito com 1,2 mil usuários desses remédios, aponta que 84% diminuíram o consumo de produtos industrializados e 83% cortaram ultraprocessados. Ao mesmo tempo, 57% dos entrevistados passaram a priorizar fontes proteicas no prato. O movimento atende a uma necessidade biológica imediata durante o tratamento.

A endocrinologista Bruna Cavalheiro explica que os remédios atuam nas áreas cerebrais que regulam a saciedade e o mecanismo de recompensa, reduzindo a vontade de comer itens gordurosos, açucarados ou muito salgados. Ela alerta, contudo, que todo emagrecimento induzido por essas substâncias elimina gordura e também tecido muscular, que funciona como reserva calórica do organismo. Para conter essa perda, a orientação médica é distribuir porções de proteínas ao longo do dia, recorrendo a carnes magras, peixes, ovos, laticínios e leguminosas.

No campo, entidades do setor acompanham a movimentação. O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, afirma que as canetas aceleraram uma busca por comida de verdade que já vinha ganhando força nos últimos anos, exigindo que pecuaristas e agricultores adaptem suas estruturas para atender à nova demanda.

Soro do leite valorizado e genética revisada

Na bacia leiteira dos Campos Gerais, a transformação do mercado já modificou a rotina da indústria. O soro de leite, historicamente descartado ou vendido a preços irrisórios como resíduo da fabricação de queijos, virou matéria-prima cobiçada para a produção de whey protein.

Roger van der Vinne, pecuarista em Carambeí com produção de 18 mil litros diários e vice-presidente da Comissão Técnica de Bovinocultura de Leite da FAEP, conta que o soro praticamente triplicou de preço nos últimos dois anos. O retorno financeiro, no entanto, ainda não se reflete por inteiro na renda do trabalhador rural. Segundo Vinne, a indústria absorve primeiro a margem de lucro, e o produtor ainda precisa de maturidade na negociação para ser remunerado de forma justa pelo produto nobre que entrega.

A demanda por proteína também alterou a genética do rebanho leiteiro brasileiro. Índices internacionais de seleção de touros no Canadá (LPI) e nos Estados Unidos (TPI), amplamente adotados no Brasil, inverteram critérios históricos: hoje, a transmissão genética de proteína nas crias tem mais peso econômico e técnico do que os teores de gordura.

Pasto, manejo e bem-estar na carne de corte

Na pecuária de corte, a oportunidade está ligada ao manejo de precisão e à qualidade da carne. Rodolpho Botelho, pecuarista e presidente do Sindicato Rural de Guarapuava, cria animais da raça Angus em sistemas de integração lavoura-pecuária nos municípios de Guarapuava, Turvo e Candói. Ele relata que frigoríficos já pagam valores adicionais por lotes jovens criados sob normas rígidas de bem-estar animal e sistemas integrados a pasto, voltados tanto para o consumo interno de alta renda quanto para exportação.

Botelho avalia que o país tem espaço para avançar no nicho de carne grass-fed, em que o gado se alimenta exclusivamente de pastagens e forragens, sem ração de grãos como milho e soja. Em mercados de maior poder aquisitivo no exterior, esse modelo alcança preços elevados pelo sabor e apelo sustentável, um comportamento que começa a aparecer entre consumidores brasileiros dispostos a pagar mais por proteína animal de alto padrão.

Avicultura e grãos ajustam portfólio

Para a avicultura paranaense, a transição encontrou um setor com estrutura industrial prévia. Marcos Junges, que cria 37 mil aves por lote no município de Missal, no Oeste do estado, conta que linhas especiais de ovos enriquecidos com vitaminas, opções orgânicas e frangos criados sem antibióticos já vinham sendo testadas. Para ele, frango e ovo consolidaram-se como soluções acessíveis e de alto valor biológico recomendadas por nutricionistas para quem perde apetite e precisa sustentar músculos.

Nas lavouras, a mudança alimentar começou a redesenhar a escolha dos grãos. Em Tibagi, o produtor Ivo Arnt, que cultiva aveia, cevada, milho, soja e trigo mourisco com certificações socioambientais, relata maior procura por aveia para barras de cereal e proteína concentrada de soja, enquanto nota recuo na compra de trigo para pães e massas. Arnt explica que o perfil de consumo da aveia rejuvenesceu e migrou para receitas funcionais, mostrando que o caminho para o agricultor passa pela diversificação, parcerias diretas com indústrias de alimentos saudáveis e selos de agricultura regenerativa que garantem colocação em prateleiras exigentes do Brasil e do exterior.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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