Piraí do Sul, PR – Cinco segundos bastaram para o vento destruir a estufa de morangos recém-construída por Leticiane Flugel e o marido, Juliano Santos, no início de agosto. O casal havia investido as economias de 14 anos em quatro mil mudas e na estrutura de cultivo sobre o terreno herdado da família. Faltavam poucos dias para a primeira colheita quando um tornado de categoria F3, com rajadas acima de 300 km/h, atingiu o imóvel rural, danificou a casa e causou prejuízo de R$ 20 mil. Sem apólice de proteção contratada diante dos custos elevados, a família dependeu da solidariedade dos vizinhos para consertar o telhado.
A tragédia enfrentada em Piraí do Sul reflete a vulnerabilidade vivida no campo com o avanço de eventos climáticos extremos no Paraná. Conforme dados do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), em conjunto com a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno El Niño atingir intensidade forte nos próximos meses. O pico de aquecimento das águas do Oceano Pacífico está previsto entre outubro e dezembro, estendendo seus impactos até o primeiro trimestre de 2027.
O meteorologista Reinaldo Kneib, do Simepar, explicou que o fenômeno intensifica o transporte de calor e umidade da Amazônia em direção ao Sul do país. Essa condição eleva a instabilidade climática, amplia o volume de tempestades frequentes e intensifica rajadas de vento e tornados, especialmente na região Centro-Sul paranaense.
A gravidade do cenário preocupa lideranças do setor produtivo. O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, destacou que a intensificação das tempestades amplia o perigo para quem vive e produz no campo. O dirigente afirmou que a entidade continuará cobrando do poder público recursos suficientes para a subvenção federal ao seguro rural, instrumento que barateia o custo das apólices para os agricultores, além de planos estruturados de prevenção a desastres.
Lavouras sob ameaça e seguro inacessível
O ciclo meteorológico atinge diretamente duas safras paranaenses: a reta final das culturas de inverno e a safra de verão 2026/2027. No trigo e na cevada, o excesso de umidade favorece doenças na espiga e apodrece grãos, rebaixando a qualidade da farinha e do malte. Esse dano qualitativo representa um prejuízo direto ao agricultor, já que o seguro rural cobre unicamente perdas em volume de colheita, conforme explicou a coordenadora técnica da FAEP, Ana Paula Kowalski.
Na soja, temporais no plantio arrastam sementes em solos desprotegidos, provocando erosão e custos extras com replantio. Dias nublados em série atrasam o desenvolvimento vegetal, enquanto o ambiente abafado e úmido acelera o avanço da ferrugem asiática, exigindo mais aplicações de defensivos. Com o risco em alta, as seguradoras aumentam os preços dos prêmios ou reduzem a oferta de cobertura, penalizando quem depende da terra justamente quando o subsídio estatal encolhe.
Na zona rural de Piraí do Sul, o presidente do sindicato rural, Luiz Tonon, relatou que o tornado recente arrancou árvores inteiras pelas raízes e revirou o chão. O dirigente apontou que a desproteção financeira é ampla porque as apólices estão caras e o repasse da subvenção governamental não tem sido pago como nos anos anteriores.
A poucos metros da casa do produtor Fábio Ferreira, o vendaval derrubou a rede elétrica por seis dias. Para salvar 1,5 mil suínos de quatro granjas, que bebem 13 mil litros de água ao dia, ele ligou um gerador próprio e alimentou os animais manualmente. Após o susto, Ferreira agora avalia contratar uma apólice.
Rastro de destruição e traumas
Os desastres climáticos lideram as ocorrências de emergência no Paraná. Em 2025, a Defesa Civil registrou 503 atendimentos causados por tempestades severas em 244 cidades: foram 241 vendavais, 75 episódios de granizo e oito tornados. O balanço somou R$ 1,9 bilhão em prejuízos e 273 mil pessoas atingidas. Sete cidades decretaram situação de emergência e uma, Rio Bonito do Iguaçu, entrou em calamidade pública.
Em Rio Bonito do Iguaçu, o agricultor Juliano Jurisch reconstrói sua propriedade após um tornado categoria F4 varrer quatro galpões, duas casas de alvenaria e maquinários no final de 2025, gerando prejuízo superior a R$ 2,5 milhões. Sem cobertura securitária, Jurisch perdeu cargas de sementes e o trigo estocado na moega, precisando vender seu rebanho ovino pela destruição das cercas. Um ano após a tempestade, a rotina de obras segue, mas o medo persiste a cada nova formação de nuvens carregadas.
Até o fim de agosto de 2026, o Simepar computou 272 ocorrências extremas em 160 municípios do Estado, incluindo 102 vendavais, 46 alagamentos, 41 temporais de granizo e sete tornados. Os estragos deixaram 160 mil moradores afetados e perdas materiais de R$ 860 milhões, provocando decretação de emergência em Piraí do Sul, Reserva e São José dos Pinhais.
O agrônomo Bernardo Lipski, do Simepar, orientou que o monitoramento meteorológico diário precisa ser encarado pelo homem do campo como ferramenta essencial de trabalho. Em alertas severos, trabalhadores devem suspender o uso de maquinário, checar travas de galpões e telhados com antecedência e recolher animais e veículos para locais seguros.
Serviço
Passo a passo para documentar prejuízos na propriedade
- Registro em imagens: faça fotos e vídeos de todos os danos estruturais, animais e lavouras antes de recolher materiais ou realizar limpeza.
- Defesa Civil: notifique a Defesa Civil municipal ou a prefeitura para emissão de laudo e número de protocolo oficial.
- Seguro rural: acione a seguradora ou corretor imediatamente via canal oficial com protocolo.
- Proagro: em lavouras financiadas, procure o banco antes de revolver o solo ou eliminar restos culturais para abrir a Comunicação de Ocorrência de Perdas (COP).
- Renegociação bancária: apresente pedido por escrito à instituição financeira, anexando as fotos e o boletim da Defesa Civil para solicitar prorrogação de parcelas.
- Energia elétrica (Copel Agro): comunique quedas e oscilações pelo telefone 0800 643 7676 ou WhatsApp (41) 3013-8970. Pedidos de ressarcimento por motores ou bombas queimadas podem ser solicitados em até 90 dias.
- Animais mortos: registre o número de carcaças com fotos antes do descarte e consulte a Adapar ou um veterinário sobre a destinação sanitária correta.
Como receber alertas meteorológicos oficiais
- SMS gratuito: envie uma mensagem com o número do seu CEP para 40199. Para cancelar, envie a palavra SAIR acompanhada do CEP.
- WhatsApp da Defesa Civil Nacional: adicione o contato (61) 2034-4611 e mande uma mensagem com a palavra “oi”.
- Avisos urgentes: em situações de risco extremo iminente, os aparelhos celulares recebem avisos sonoros automáticos via tecnologia Cell Broadcast, independentemente de cadastro prévio.



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