Brasília, DF – As mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental para se consolidar como uma emergência direta de saúde pública no Brasil e no mundo. O alerta foi feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante entrevista coletiva concedida à imprensa. Na avaliação do ministro, a adaptação das redes de atendimento e vigilância do Sistema Único de Saúde (SUS) diante do aquecimento global é uma tarefa urgente para conter o avanço de epidemias e o agravamento de enfermidades na população.
Para dimensionar a gravidade do quadro, Padilha citou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que projeta que uma em cada quatro mortes registradas em todo o planeta já tem algum tipo de ligação com as alterações no clima. Como exemplo de descompasso ambiental que afeta a transmissão de infecções, o ministro lembrou que até mesmo o Reino Unido, país de clima historicamente temperado e frio, passou a registrar a presença do mosquito Aedes aegypti, vetor típico de regiões tropicais como o território brasileiro.
No cenário nacional, a alta das temperaturas médias favorece a migração e a multiplicação do transmissor da dengue para áreas onde o inseto antes encontrava barreiras naturais. Padilha chamou atenção para a região Sul do país, com ênfase no Rio Grande do Sul, estado que praticamente não enfrentava registros da doença no passado e agora convive com o problema em diferentes municípios. Além das arboviroses, o ministro explicou que as ondas severas de calor extremo provocam uma alta expressiva de complicações crônicas na população, com impacto direto no aumento de doenças cardiovasculares, infartos e internações de urgência.
Ao responder sobre a capacidade de resposta da pasta frente a tragédias climáticas extremas — a exemplo dos temporais e inundações que deixaram mortos, desabrigados e destruíram cidades inteiras em Porto Alegre e em dezenas de municípios gaúchos em 2024 —, Padilha declarou que o país tem hoje uma estrutura melhor estruturada do que a disponível na época em que a catástrofe atingiu o estado. Apesar dessa avaliação, ele resumiu a situação com cautela: “Mas todo cuidado é pouco”.
O ministro defendeu que o poder público mantenha o estado de alerta e as equipes de monitoramento mobilizadas de forma permanente, não apenas nos estados do Sul, mas em todas as regiões brasileiras. Informações e projeções técnicas do Ministério da Saúde apontam que o fenômeno meteorológico El Niño voltará a atingir o Brasil com força acentuada a partir deste mês de setembro de 2026.
A dimensão desse novo ciclo climático foi detalhada pelo secretário-executivo adjunto do Ministério da Saúde, Nilton Pereira. “Atingimos um El Niño muito forte, com a possibilidade de termos o mais forte da série histórica”, alertou Pereira. Segundo o secretário, os desdobramentos climáticos e sanitários do fenômeno sobre o território brasileiro devem se estender, no mínimo, até março de 2027, exigindo prontidão máxima dos serviços de saúde, da atenção básica aos leitos hospitalares.



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