*Por Amilton Farias
Enquanto o país discutia números, estratégias policiais e disputas entre governos, mães percorriam áreas de mata, becos e vielas nos complexos da Penha e do Alemão procurando filhos desaparecidos. Algumas carregavam fotografias. Outras levavam apenas a esperança de encontrar quem havia saído de casa e não voltou. Em meio à lama, ao medo e ao silêncio das autoridades, uma pergunta insistia em permanecer sem resposta: quantos jovens mais precisarão morrer para que o Brasil compreenda que existe algo profundamente errado em sua política de segurança pública?
A tragédia que marcou o Rio de Janeiro não começou na semana da operação policial. Ela começou décadas atrás, quando o Estado decidiu que determinadas regiões do país seriam governadas pela ausência de direitos e pela presença permanente da força. Começou quando comunidades inteiras passaram a ser vistas não como espaços de cidadania, mas como territórios suspeitos. Começou quando a pobreza deixou de ser tratada como um problema social e passou a ser tratada como caso de polícia.
As vítimas têm rosto, cor e endereço conhecidos. São, em sua maioria, jovens negros, pobres e periféricos. Jovens que crescem em bairros onde faltam escolas de qualidade, oportunidades de trabalho, equipamentos culturais e perspectivas de futuro, mas onde nunca faltam armas, operações policiais e promessas de combate à violência. São jovens que aprendem cedo a identificar o som de um helicóptero de guerra, a procurar abrigo durante tiroteios e a conviver com a possibilidade permanente de não retornar para casa.
O mais cruel é perceber que parte da sociedade passou a encarar essa realidade como algo natural. Quando um jovem morre em uma favela, a primeira pergunta costuma ser sobre seus antecedentes. Quando a violência alcança outros setores sociais, a preocupação recai sobre a vida interrompida. Essa diferença revela um país que ainda não superou suas heranças escravistas e continua atribuindo valores diferentes às vidas de seus cidadãos.
Ao longo dos últimos anos, setores da extrema-direita transformaram a violência em ferramenta política. O medo tornou-se combustível eleitoral. O confronto passou a ser apresentado como solução para todos os problemas. A imagem do policial armado ganhou espaço como símbolo de eficiência, enquanto o debate sobre educação, cultura, emprego e inclusão social foi empurrado para segundo plano. Como resultado, consolidou-se a falsa ideia de que segurança pública se faz apenas com operações espetaculares e demonstrações de força.

Mas a realidade insiste em desmentir esse discurso. Décadas de incursões militarizadas não eliminaram o tráfico de drogas. Não impediram a circulação de armas. Não enfraqueceram as estruturas financeiras das organizações criminosas. O que produziram foi uma sucessão de tragédias que se repetem em diferentes cidades brasileiras, sempre atingindo os mesmos grupos sociais.
Existe uma perversidade adicional nesse processo. Enquanto jovens morrem nas periferias, os verdadeiros centros de poder econômico do crime organizado permanecem relativamente protegidos. O dinheiro continua circulando por esquemas de lavagem, empresas de fachada e redes sofisticadas de corrupção que raramente aparecem nos noticiários. O combate ao crime concentra-se no elo mais visível e mais vulnerável da cadeia, enquanto os mecanismos que sustentam o negócio continuam operando.
Isso não significa negar a presença das facções criminosas ou minimizar o sofrimento que elas impõem às comunidades. Moradores das periferias conhecem a violência de perto. São eles que convivem diariamente com ameaças, extorsões e limitações à própria liberdade. Mas justamente por conhecerem essa realidade, sabem que a solução não virá de uma guerra permanente travada dentro de seus bairros.
A verdadeira segurança pública exige inteligência, investigação, cooperação institucional e investimento social. Exige atacar o financiamento das organizações criminosas, fortalecer as instituições democráticas e criar oportunidades para a juventude. Exige compreender que nenhuma sociedade se torna mais segura quando transforma parte de sua população em inimiga interna.
O que aconteceu na Penha e no Alemão é mais do que uma tragédia local. É um retrato de um país que ainda não decidiu se deseja construir cidadania ou administrar a violência. É o reflexo de uma democracia que chega com diferentes intensidades dependendo do CEP, da cor da pele e da renda de cada cidadão.
Enquanto mães continuarem enterrando filhos que poderiam estar estudando, trabalhando ou construindo suas vidas, o problema não será apenas da segurança pública. Será um problema da própria democracia brasileira.
Porque nenhuma nação pode se considerar verdadeiramente livre enquanto uma geração inteira aprende a conviver com a morte antes mesmo de experimentar plenamente a vida.
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*Amilton Farias é jornalista e editor-chefe do Portal Fronteira Livre
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Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.




















