Por que a violência contra as mulheres é também um problema da educação?

Por que a violência contra as mulheres é também um problema da educação?

O feminicídio não nasce no momento do crime. Ele é construído por uma sociedade que reproduz desigualdades, naturaliza violências e transforma a escola em um dos principais campos de disputa sobre o futuro

A violência contra as mulheres também é um problema da educação e da formação social das novas gerações.. Foto> Reprodução/Internet.
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Por Giovanni  Antunes 

Toda vez que uma mulher é assassinada por ser mulher, não estamos diante de um caso isolado. Estamos diante do resultado extremo de uma estrutura social que continua produzindo violência, desigualdade e morte.

O feminicídio não começa no momento do crime.

Ele começa muito antes.

Começa quando a sociedade naturaliza relações de poder desiguais entre homens e mulheres. Começa quando meninas aprendem que determinados espaços não lhes pertencem. Começa quando meninos são educados para associar masculinidade à dominação, ao controle e à força. Começa quando o machismo deixa de ser percebido como violência e passa a ser tratado como comportamento normal.

Por isso, nenhum feminicídio surge do nada.

Existe uma engrenagem social que reproduz valores, comportamentos e visões de mundo ao longo das gerações. A violência contra as mulheres não é uma anomalia que aparece ocasionalmente dentro de uma sociedade saudável. Ela é consequência direta de uma formação histórica marcada pelo patriarcado, pela escravidão, pelo colonialismo e por estruturas culturais que consolidaram a desigualdade entre homens e mulheres como parte da ordem social.

Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, o agressor é responsável pelo crime. Mas a sociedade também precisa se perguntar quais mecanismos continuam produzindo homens que acreditam possuir algum tipo de direito sobre os corpos, os desejos e a própria existência das mulheres.

É nesse ponto que a educação deixa de ser um tema secundário e passa a ocupar posição central no debate.

Mulheres não podem morrer simplesmente por serem mulheres.

Se a violência é aprendida, reproduzida e naturalizada, ela também pode ser questionada, enfrentada e transformada. E nenhum espaço possui mais potencial para essa transformação do que a escola.

A escola não é apenas um lugar onde conteúdos são transmitidos. Ela é um espaço onde se formam valores, visões de mundo e percepções sobre cidadania, convivência e direitos humanos. É nela que crianças e adolescentes entram em contato com diferentes experiências sociais e aprendem a reconhecer o outro como sujeito de direitos.

Reduzir a educação à mera transmissão de conhecimento sempre foi uma simplificação perigosa.

A relação entre professor e estudante envolve formação crítica, construção de autonomia intelectual e capacidade de compreender a realidade. A pandemia demonstrou isso de forma contundente. Quando setores defenderam que a educação poderia ser substituída por modelos domésticos de ensino, ficou evidente que a escola exerce funções muito mais amplas do que a simples entrega de conteúdo.

Educação é ciência.

Educação é formação humana.

Educação é construção de cidadania.

Ignorar essa dimensão significa abrir mão de uma das mais importantes ferramentas de transformação social já construídas pela humanidade.

O machismo estrutural que alimenta a violência contra as mulheres não está presente apenas nos espaços de poder político ou econômico. Ele atravessa o cotidiano. Está nas piadas aparentemente inofensivas. Está nos padrões de comportamento impostos desde a infância. Está nas expectativas diferentes destinadas a meninos e meninas. Está nos discursos que definem o que seria comportamento adequado para cada gênero.

E também está na escola.

Está nos estereótipos reproduzidos diariamente. Está na invisibilização de determinadas trajetórias femininas. Está na naturalização de desigualdades. Está, muitas vezes, na seleção dos conteúdos que circulam nos ambientes educacionais.

Por isso, combater a violência contra as mulheres exige enfrentar também o machismo presente nos processos educativos.

Essa tarefa se torna ainda mais urgente diante do crescimento de movimentos que transformam ressentimento em discurso político. O avanço da chamada machosfera, das comunidades red pill e de diferentes formas de misoginia digital não pode ser tratado como fenômeno marginal da internet.

Trata-se de uma disputa cultural em curso.

São grupos que oferecem respostas simplistas para problemas complexos e que frequentemente transformam mulheres em alvo de frustrações individuais e coletivas. O resultado é a normalização do ódio, da hostilidade e da violência simbólica contra mulheres e meninas.

Ao mesmo tempo, toda tentativa de discutir igualdade de gênero, direitos humanos e combate à violência dentro das escolas passou a enfrentar campanhas organizadas de desinformação.

Expressões como “ideologia de gênero” e “kit gay” foram transformadas em armas políticas. Não para melhorar a educação, mas para interditar debates fundamentais sobre respeito, convivência e cidadania.

O efeito dessa estratégia foi profundo.

Temas relacionados à proteção das mulheres passaram a ser tratados como ameaça. Professores passaram a ser vistos com suspeita. Escolas passaram a ser atacadas justamente quando tentavam construir espaços de diálogo capazes de enfrentar preconceitos historicamente enraizados.

Enquanto isso, os números da violência continuaram crescendo.

A realidade não desaparece porque deixou de ser debatida.

A violência contra as mulheres permanece como uma das mais brutais expressões da desigualdade social contemporânea. E nenhuma sociedade conseguirá enfrentá-la apenas com prisões, endurecimento penal ou ações repressivas.

O combate ao feminicídio exige transformação cultural.

Exige prevenção.

Exige educação.

A desconstrução dos estereótipos de gênero não resolverá sozinha um problema que possui raízes históricas profundas. Mas representa um passo indispensável para impedir que novas gerações reproduzam as mesmas estruturas responsáveis por alimentar o ciclo da violência.

Defender a educação, portanto, não é apenas defender uma política pública.

É defender a vida.

Quando uma sociedade abandona o debate sobre igualdade, direitos humanos e respeito às diferenças, ela cria as condições para que a violência continue sendo reproduzida como se fosse inevitável.

Não é.

Temos instrumentos para enfrentar essa realidade.

Eles não produzem medo.

Não produzem morte.

Produzem consciência.

E toda transformação social duradoura começa quando a consciência rompe o silêncio que protege a violência.

Por isso, a sala de aula continua sendo um lugar de poder.

E disputar esse espaço significa disputar não apenas o futuro da educação, mas o futuro da própria vida.

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*Giovanni Antunes é graduado em história e professor de educação infantil em Foz do Iguaçu-PR
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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor(a) e não refletem necessariamente a nossa política editorial. O Fronteira Livre adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.


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