*Por Amilton Farias
Toda quarta-feira, eles estão lá. Aposentados argentinos, em sua maioria mulheres, se reúnem em frente ao Congresso Nacional, em Buenos Aires, para exigir o reajuste de suas pensões, o acesso a medicamentos e defender o futuro de seus filhos e netos. Muitos têm mais de 70 anos. Alguns usam bengala. Outros levam cadeiras para suportar as horas de protesto. E, toda quarta-feira, a polícia os recebe com cassetetes, gás lacrimogêneo e balas de borracha. Em fevereiro de 2026, um padre espanhol foi preso durante o ato. Torcidas rivais — Boca, River, San Lorenzo, Huracán — uniram-se para formar cordões de isolamento entre os idosos e a polícia.
É contra esse pano de fundo que se impõe uma pergunta incômoda: por que setores da esquerda latino-americana ainda insistem em classificar países inteiros como “fascistas”, como se não houvesse resistência dentro deles?
O atalho do rótulo e a herança colonial
Dizer que Argentina, Chile, Peru, Colômbia ou Bolívia são “países fascistas” apenas por estarem sob governos de extrema-direita é um erro analítico e tático de primeira grandeza. Uma nação não se reduz ao seu governo. O fascismo está encastelado no poder e nas elites financeiras — e em parte dos seus apoiadores —, mas nunca representará a totalidade de um povo. Enquanto houver trabalhadores organizados nas ruas, aposentados apanhando para defender suas pensões e estudantes mobilizados contra cortes na educação, a luta existe e precisa ser nomeada com precisão.
Há uma máxima liberal e higienista que insiste em repetir que “todo povo tem o governo que merece”. Essa afirmação ignora a realidade geopolítica da América Latina e do Sul Global. Essa lógica omite o lawfare que derruba governos populares quando os votos não bastam. Omite os golpes de Estado disfarçados de crisis institucional. Omite a ingerência imperialista que decide quais líderes são toleráveis e quais devem cair. Omite o financiamento de redes de desinformação, a manipulação eleitoral e a pressão econômica asfixiante contra países que tentam traçar caminhos próprios
A esse esquema de dominação soma-se o papel de lideranças religiosas de extrema-direita, que ocupam altares, rádios e canais de televisão para abençoar projetos autoritários movidos por interesses econômicos e de poder.
Culpar o cidadão comum pela ascensão de tiranos e fantoches do capital não é apenas uma injustiça covarde. É a fórmula que os arquitetos do saque continental encontraram para desviar a atenção de seus próprios crimes.
Por trás desse julgamento fácil contra nossos vizinhos esconde-se também uma ferida profunda: o racismo velado e estrutural, herança colonial que nos fragmenta. Fomos ensinados a nos olhar com desconfiança de uma fronteira a outra. O colonialismo inoculou a ideia de que o “outro” latino-americano é atrasado, violento ou reacionário, permitindo que julguemos suas crises de uma suposta superioridade moral. Os problemas de racismo, machismo e xenofobia na Argentina, no Brasil, no Peru não são anomalias isoladas — são cicatrizes compartilhadas de um mesmo passado colonial.
O erro da generalização
Que ninguém se confunda: o fascismo existe. A extrema-direita avança explorando o desespero econômico de quem mais sofre. Esse monstro precisa ser combatido com todas as forças. O erro crucial não está em denunciá-lo, mas em generalizá-lo.
Quando a esquerda classifica nações inteiras como “território fascista” de forma simplista, abandona exatamente quem está na linha de frente. Se a Argentina é “fascista” e pronto, por que nos importaríamos com os aposentados que apanham em Buenos Aires? Se o Peru é “fascista” sem nuances, por que acompanharíamos a luta das comunidades indígenas em Cajamarca? Esse julgamento anula a solidariedade de classe e sabota a luta concreta.
Quando Jair Bolsonaro ocupava a presidência do Brasil, tentaram fazer o mesmo conosco. Rotularam o Brasil inteiro como “país fascista”, ignorando milhões que resistiam nas ruas e nas urnas. Muitos de nós sabemos a dor de ser reduzidos a um estereótipo. Repetir o padrão com nossos vizinhos não é apenas injusto — é contraproducente.
O ídolo que se cala e o povo que resiste
Há uma contradição que precisa ser nomeada. O mesmo discurso que rotula nações costuma usar Lionel Messi como representante único da Argentina. Messi — que presenteou Donald Trump, silencia sobre o desmonte do Estado argentino e construiu sua fortuna em Miami — é apresentado como síntese do país.
Mas o verdadeiro rosto da resistência argentina usa casaco gasto e sapatos velhos. É o aposentado de 75 anos que leva gás lacrimogêneo no rosto toda quarta para defender sua pensão. É a mulher idosa que a polícia derruba no asfalto e que se levanta de novo.
Não se julga uma nação pelo ídolo que se cala; julga-se pela multidão que, sem holofotes, enfrenta a opressão toda semana. A Argentina que resiste não é a dos camarotes VIP: é a das ruas.
O povo trabalhador argentino, além disso, não permitiu que os símbolos nacionais — a camisa da seleção, a bandeira — fossem sequestrados pela extrema-direita, ao contrário da apropriação estética que os bolsonaristas operaram com a amarelinha da CBF. Em cada bandeira celeste y blanca que tremula numa manifestação há uma trincheira de soberania popular.
A mesma mania dentro do Brasil
Essa tentação de etiquetar também atravessa nossas divisas internas. Usar termos como ‘Paranazi’ ou ‘Catarinazi’ para se referir a estados do Sul é um atalho analítico que ignora a resistência organizada que existe nesses territórios
Há sindicatos ativos, movimentos sociais, coletivos indígenas, ocupações estudantis e professores que arriscam o emprego para jogar luz e denunciar o racismo em cidades do interior do Paraná e de Santa Catarina. Eles existem, lutam e resistem. Mas acabam invisibilizados pela própria esquerda de outras regiões quando classificamos estados inteiros como “território inimigo” em vez de disputá-los politicamente.
Não se vence o autoritarismo com isolamento geográfico ou soberba moralista. Vence-se estendendo a mão a quem está na linha de frente, seja nas ruas de Buenos Aires, nas universidades de Santiago, nas comunidades indígenas de Cajamarca ou nas trincheiras do Sul do Brasil.
A solidariedade com quem luta é, em si mesma, o maior ato de resistência contra a extrema-direita e o fascismo. É tempo de solidariedade e não de rótulos.
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*Amilton Farias é jornalista e editor-chefe do Portal Fronteira Livre
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Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.

















