Editorial Fronteira Livre
A juventude voltou às ruas para defender a educação pública, os direitos sociais e a democracia. Em outubro, milhares de estudantes e trabalhadores participaram de manifestações em diferentes regiões do Brasil. No Rio de Janeiro, os atos reuniram uma multidão; em outros dias, mobilizações foram registradas em pelo menos 13 estados e no Distrito Federal. A dimensão nacional dos protestos mostra que a disputa sobre o futuro da educação e do país deixou as salas de aula e ganhou as ruas.
Em Foz do Iguaçu, estudantes, professores e trabalhadores também marcharam, mesmo debaixo de chuva. A manifestação integrou uma mobilização que associa a defesa do ensino público à resistência contra a extrema-direita e à disputa eleitoral entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Não se trata de uma juventude indiferente à política. São pessoas que sabem que as decisões tomadas pelo poder público interferem diretamente em suas oportunidades de estudar, trabalhar e viver com dignidade.
A história brasileira mostra que o movimento estudantil nunca se limitou às reivindicações internas das escolas e universidades. Sua trajetória está ligada às grandes disputas políticas do país, da resistência à ditadura militar às mobilizações pela redemocratização. Hoje, diante de ameaças aos direitos sociais e de projetos que pretendem subordinar a educação a interesses econômicos e políticos, essa tradição volta a ganhar força.
A União Nacional dos Estudantes (UNE), fundada em 1937, tornou-se uma das principais organizações de participação política da juventude brasileira. Após o golpe de 1964, estudantes enfrentaram censura, perseguição, prisões e violência estatal. Em março de 1968, o assassinato do secundarista Edson Luís pela polícia, no Rio de Janeiro, provocou uma onda de indignação. Meses depois, a Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e trabalhadores em uma das maiores manifestações contra a ditadura.
A resposta do regime foi aprofundar a repressão. Com o Ato Institucional nº 5, em dezembro daquele ano, a ditadura ampliou seus poderes e restringiu ainda mais as liberdades democráticas. Mesmo sob perseguição, setores do movimento estudantil mantiveram a resistência e se articularam a outras forças sociais. Anos depois, estudantes também participaram das mobilizações pelas Diretas Já, que levaram milhões de brasileiros às ruas para exigir o direito de escolher diretamente o presidente da República.
Essa história não deve ser lembrada apenas como um capítulo encerrado. Ela demonstra que direitos políticos e sociais não são concessões definitivas: dependem de participação, organização e capacidade de enfrentar aqueles que tentam restringi-los. A democracia não se sustenta apenas nas eleições. Exige liberdade de expressão, direito à manifestação, respeito às organizações sociais e condições materiais para que a população possa exercer plenamente sua cidadania.
É nesse ponto que a educação ocupa lugar central. Cortes orçamentários não são números abstratos em planilhas governamentais. Podem significar menos bolsas, laboratórios sem recursos, pesquisas interrompidas, falta de estrutura e estudantes obrigados a abandonar os estudos para trabalhar. Quando o financiamento público é insuficiente, os efeitos recaem especialmente sobre quem não pode pagar por uma alternativa privada.
A expansão de universidades e institutos federais durante os governos Lula e Dilma ampliou o acesso à educação técnica e superior em diferentes regiões do Brasil. Para milhares de jovens, essas instituições representaram a possibilidade concreta de obter formação profissional, desenvolver pesquisas e construir um futuro que antes parecia distante. A expansão, contudo, não eliminou as desigualdades nem resolveu todos os problemas de financiamento e permanência estudantil.
A Emenda Constitucional 95, aprovada durante o governo Michel Temer, impôs limites às despesas primárias federais e submeteu políticas públicas a fortes restrições orçamentárias. Durante o governo Jair Bolsonaro, universidades e institutos federais enfrentaram bloqueios e contingenciamentos que provocaram protestos de estudantes, professores, servidores e reitores. O debate atual é parte desse conflito: qual deve ser a prioridade do orçamento público e quem arca com as consequências das escolhas econômicas?
A educação não pode ser tratada como despesa descartável sempre que os governos decidem privilegiar o ajuste fiscal. Tampouco é possível separar o debate orçamentário das propostas políticas em disputa. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência no segundo turno contra Lula, representa um projeto que precisa ser avaliado também por suas propostas para o Estado e para o ensino público. Entre as ideias atribuídas a seu plano de governo, estão a criação de novas restrições aos gastos, mudanças na vinculação administrativa das universidades federais e a ampliação de modelos como as escolas cívico-militares.
Essas propostas levantam questões que não podem ser afastadas por slogans sobre eficiência. Qual será o efeito das restrições orçamentárias sobre as instituições? Como preservar a autonomia universitária? Que espaço terão a pesquisa científica, a liberdade acadêmica e a formação crítica? E quem será prejudicado se o acesso à educação depender cada vez mais da renda familiar?
A defesa da educação pública não significa ignorar problemas de gestão. Significa reconhecer que o conhecimento é um direito e uma condição para reduzir desigualdades. Uma universidade pública não serve apenas a quem consegue um diploma. Seus estudos, pesquisas e serviços também beneficiam a sociedade, a economia e o desenvolvimento nacional.
Essa disputa atravessa a América Latina. Na Argentina, estudantes, docentes e trabalhadores universitários têm protestado contra as políticas de austeridade do governo de Javier Milei e a insuficiência de recursos para as instituições. As mobilizações denunciam os efeitos do congelamento orçamentário sobre salários, atividades acadêmicas e pesquisa científica. O conflito coloca em evidência uma contradição: exigir que universidades mantenham suas funções enquanto se restringem os meios necessários para realizá-las.
No Chile, estudantes também foram às ruas contra medidas de austeridade e cortes na educação associados ao governo de José Antonio Kast, representante da extrema-direita. O país tem uma longa história de mobilização juvenil, desde os protestos estudantis que questionaram as desigualdades do sistema educacional até as grandes manifestações que pressionaram por mudanças sociais. As reivindicações atuais se inserem nessa disputa sobre o alcance dos direitos e o papel do Estado.
Na Colômbia, estudantes protestaram contra propostas de intervenção policial nas universidades, apontadas como ameaça à autonomia acadêmica e ao direito de manifestação. A preocupação é particularmente significativa em um país marcado por décadas de violência política e perseguição a movimentos sociais. Na Bolívia, denúncias de ameaças contra estudantes também expõem os riscos enfrentados por quem se organiza e questiona decisões de poder.
No Paraguai, manifestações protagonizadas por jovens em 2025 expressaram insatisfação com a corrupção, a falta de oportunidades e a distância entre as instituições políticas e as demandas da população. Embora os contextos sejam diferentes, esses movimentos compartilham uma questão fundamental: o direito de participar das decisões que determinam o futuro coletivo.
Não se deve transformar todas essas mobilizações em um movimento único, nem apagar suas diferenças. Mas seria igualmente equivocado ignorar os pontos de contato. Em vários países, estudantes enfrentam políticas que fragilizam serviços públicos, reduzem oportunidades e tratam a contestação social como problema de segurança.
A extrema-direita não ameaça a democracia apenas quando ataca abertamente as instituições. Também o faz quando desqualifica o conhecimento científico, procura intimidar adversários, enfraquece políticas sociais e apresenta a repressão como resposta natural ao conflito. Quando a polícia é colocada no centro de disputas universitárias ou o ensino público é submetido a cortes sem considerar seus efeitos sociais, o debate ultrapassa a gestão administrativa: trata-se do modelo de sociedade que se pretende construir.
O Brasil e os demais países latino-americanos carregam as marcas de desigualdades históricas e períodos de autoritarismo. Superá-los exige mais do que discursos sobre mérito e esforço individual. Exige investimento público, acesso ao conhecimento, liberdade política e condições para que as novas gerações participem da construção de seu próprio futuro.
É por isso que a mobilização estudantil importa. Ela mantém viva a memória das lutas que conquistaram direitos e confronta a ideia de que decisões fundamentais devem ficar restritas aos gabinetes do poder. Quando estudantes ocupam as ruas, colocam em debate as prioridades dos governos e lembram que a educação pública pertence à sociedade, não a um partido ou a um governante.
A canção de Gonzaguinha que inspira este editorial fala de uma juventude que segue em frente. Essa confiança não significa acreditar que os jovens resolverão sozinhos os problemas do país. Significa reconhecer sua capacidade de se organizar, questionar injustiças e recusar um futuro decidido sem sua participação.
A rapaziada segue em frente porque sabe que educação não é privilégio, democracia não é apenas voto e direitos não se mantêm por inércia. Em um continente onde a desigualdade continua limitando oportunidades e o autoritarismo tenta se apresentar como solução, defender a educação pública é também defender a possibilidade de escolher outros caminhos. E nenhuma sociedade democrática pode abrir mão de quem luta para que esses caminhos continuem existindo.
*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.



Deixe um comentário