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STF e PF retomam cerco a Mário Frias e ao caso Dark Horse

Inquéritos no STF investigam R$ 2 milhões de Mário Frias e suspeitas de lavagem de dinheiro público na produção de filme sobre Bolsonaro.

O ministro Flávio Dino cobrou rastreabilidade de verbas públicas e autorizou buscas contra aliados bolsonaristas. Foto: Rosinei Coutinho/STF

Brasília, DF – Com a derrota eleitoral da extrema direita nas urnas e o fim do segundo turno presidencial, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República devem destravar investigações de desvios no orçamento público. Entre as principais frentes represadas está o caso Dark Horse, que apura o uso ilegal de dinheiro do contribuinte para financiar um filme de exaltação a Jair Bolsonaro.

Interlocutores do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, disseram ao portal ICL Notícias que as apurações foram desaceleradas deliberadamente nos últimos meses para não tensionar a disputa pelo Palácio do Planalto.

“PF e PGR passaram meses paradas, aguardando o fim desse imbróglio. Agora que as coisas serão retomadas.”

A constatação partiu de um auxiliar direto do magistrado sobre o compasso de espera imposto pelas cúpulas policiais e jurídicas até a votação do último domingo (25). Sem o constrangimento do calendário eleitoral, diligências engavetadas voltam à mesa dos investigadores.

Dino concentra ações contra o loteamento político do orçamento federal e conduz o inquérito sobre repasses ordenados pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), um dos principais aliados do clã Bolsonaro na Câmara, em benefício do projeto cinematográfico.

Em 10 de setembro, a PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão na Operação Make Up, autorizada por Dino em quatro estados. As batidas atingiram endereços de Frias e da empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment.

O inquérito analisa R$ 2 milhões indicados por Frias ao Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina. A verba tinha como destino formal projetos sociais, mas relatórios de inteligência financeira apontaram desvios e movimentações incompatíveis após a saída dos valores do Tesouro Nacional.

Os peritos encontraram uma remessa de R$ 750 mil destinada à produtora do filme sobre Bolsonaro, repassada por firma ligada a fornecedores do instituto. As datas e os valores coincidem, embora a PF ainda trabalhe na comprovação definitiva do caminho percorrido pelo dinheiro público até as contas da produtora.

Mário Frias nega as fraudes e alega que os recursos chegaram integralmente aos projetos sociais contratados.

Dino também determinou que a Polícia Civil de São Paulo repassasse à PF documentos apreendidos em apuração paralela sobre a mesma empresa de eventos e cinema, reforçando a base probatória federal.

No próprio STF, uma segunda frente sobre a produção de Dark Horse tramita no gabinete do ministro André Mendonça. O foco recai sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e transferências atribuídas a Daniel Vorcaro, banqueiro do Master, para a realização do longa-metragem.

Flávio Bolsonaro rejeita as acusações e defende que as transações ocorreram no âmbito estritamente privado. A defesa do senador tentou unificar os processos e puxar o caso das emendas para as mãos de Mendonça, sem sucesso até o momento.

A pressão sobre o grupo bolsonarista aumentou na última quinta-feira (22), quando Wemerson Marinho da Gama, ex-marido de Karina, procurou a PGR para negociar um acordo de delação premiada. Seus advogados confirmaram a reunião preliminar, mas ponderaram que os termos do acordo ainda estão em fase inicial de discussão.

A ofensiva contra o balcão de negócios das emendas vai além da produção audiovisual. Em agosto, Dino acionou a PF com base em dados do Tribunal de Contas da União que apontam desvios em R$ 55,4 milhões transferidos entre 2020 e 2024.

O ministro também anulou cotas orçamentárias controladas por dirigentes partidários e ex-parlamentares sem mandato, retirando a influência de operadores políticos na destinação direta de recursos da União.

Até 30 de novembro, Congresso e governo federal terão de entregar um plano concreto de rastreabilidade para pôr fim à opacidade das verbas parlamentares, acompanhando o dinheiro desde o carimbo do deputado até a ponta da execução.

Com o grupo bolsonarista vencido nas urnas e desprovido do poder de chantagem eleitoral, a cobrança social e jurídica recai sobre a agilidade dos órgãos de fiscalização em punir o uso clandestino do orçamento público em propaganda ideológica.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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