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Dermatite atópica desafia saúde física, sono e autoestima

Coceira severa e feridas prejudicam a vida social de crianças e adultos, enquanto medicamentos modernos passam de R$ 10 mil.

Lesões na pele causadas pela dermatite atópica exigem hidratação diária contínua e cuidados básicos durante o banho. Foto: Reprodução.

Brasília, DF – A dermatite atópica afeta muito mais do que a superfície do corpo: compromete o sono, a saúde mental, o rendimento escolar e a convivência social de quem enfrenta o problema. Essa inflamação crônica tem como principal sintoma uma coceira extrema, capaz de provocar lesões abertas que tornam a pele sensível ao menor contato, desde o toque de um tecido até a água do banho. O preconceito e o estigma decorrentes da desinformação agravam o sofrimento diário dos pacientes, enquanto o acesso aos remédios mais modernos esbarra em altos custos financeiros.

A estudante de medicina Clara Emery, de 23 anos, convive com o problema desde os primeiros meses de vida e relata episódios em que precisou tomar antibióticos para evitar que as feridas em carne viva infeccionassem. Deitar na cama, apoiar a cabeça no travesseiro e tomar banho causavam dores intensas. A jovem recorda crises de choro e momentos de isolamento por medo de mostrar as marcas. Na escola, por volta dos 10 anos, colegas chegaram a perguntar se ela tinha hanseníase, sífilis ou se vivia com HIV. Em Clara, as lesões surgem nas dobras do corpo — como pescoço, cotovelos e atrás dos joelhos —, no rosto, ao redor dos olhos e nas mãos. Entre os gatilhos estão alimentos, estresse e elementos como sol, grama, suor, fungos, ácaros, animais domésticos e bichos de pelúcia.

A dermatologista Rosana Lazzarini, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que 40% das crianças com dermatite atópica continuam com o quadro na fase adulta. Ela afirma que o impacto na rotina infantil é severo, envolvendo faltas na escola, perda de momentos de lazer e internações que afetam o desenvolvimento psicossocial. A médica destaca que o diagnóstico é puramente clínico, baseado na avaliação médica das lesões, na cronicidade do quadro e no relato da coceira persistente, sem necessidade de exames de laboratório para confirmação direta.

No Distrito Federal, a jornalista Rayane Lopes, de 34 anos, moradora do Recanto das Emas, teve a primeira manifestação aos 18 anos, cobrindo o corpo inteiro e atingindo a barriga e a virilha. Atualmente, as crises atacam com maior intensidade na região abdominal e entre os dedos das mãos, quase sempre associadas a picos de estresse emocional. Após o sepultamento de uma pessoa próxima, o corpo de Rayane foi tomado por manchas avermelhadas e feridas dolorosas. Ela lida com cicatrizes e relata o desconforto diante do receio alheio de contágio, o que a leva a esconder marcas com roupas compridas e evitar o sol. No manejo diário, ela não usa buchas no banho, hidrata o corpo continuamente e recorre a corticoides quando a dor e a ardência pioram.

O estigma de que a doença seja contagiosa permanece como uma das maiores barreiras enfrentadas pelas famílias. Para combater a discriminação, o Brasil instituiu o dia 23 de setembro como o Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica, por meio da Lei 14.916/24. O presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA), Roberto Takaoka, aponta que o preconceito e o bullying decorrem da falta de informação do público. A entidade promove apoio psicológico, ações educativas e orientação profissional, acolhendo parentes que buscam soluções milagrosas para uma doença que é crônica e oscila entre melhoras e recaídas.

O tratamento básico exige hidratação contínua da pele de duas a três vezes por dia com cremes e loções específicas para proteger a barreira cutânea, além de banhos rápidos, não muito quentes e com pouco ou nenhum sabonete. Casos moderados a graves demandam o uso de corticoides tópicos, fototerapia com radiação UVB de banda estreita ou imunossupressores orais, como metotrexato e ciclosporina. Pacientes com quadros severos podem necessitar de imunobiológicos, medicamentos que modulam a resposta do sistema imune contra as inflamações. Essas fórmulas avançadas, contudo, chegam a custar mais de R$ 10 mil por caixa, não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e permanecem restritas à cobertura da rede privada ou de planos de saúde, aprofundando a desigualdade no tratamento.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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